Ei, amigo, abra os olhos!
Você consegue ver?
Vê todos os trejeitos, os sorrisos, as covinhas, o brilho dos olhos, a linguagem do corpo, o tom da pele, a forma, a aura, a alma?
Ei, amigo, apure os ouvidos!
Você consegue ouvir?
Ouve o timbre da voz, as pausas da respiração, o som do coração acelerando, o tom da risada, o silêncio de paz?
Ei amigo, aprume o olfato!
Você consegue aspirar?
Aspira o cheiro da roupa limpa, do perfume, do shampoo, da pele, dos feromônios?
Ei amigo, sensibilize o tato!
Você consegue sentir?
Sente o calor do corpo, a maciez da pele, a pureza do coração, as intenções, a inquietação, os pelos se arrepiando?
Ei amigo, afie o paladar!
Você consegue saborear?
Saboreia a pele, a boca, o beijo, a língua, a ânsia, o amor?
Ei amigo, perceba!
Você consegue perceber?
Percebe essa alegria, esse prazer, esse gozo, essa vida?
Então amigo, para que se apaixonar por fantasmas?
Se tem tantos corações no mundo que podem pulsar por você!!!!
segunda-feira, 8 de junho de 2015
sábado, 23 de maio de 2015
Monstro
Hoje eu o vi novamente.
Dessa vez estava tudo bem, porque eu planejei o encontro, eu o esperava, ouso dizer que estava pronta para ele.
Ele me atacou, como sempre faz, como eu sabia que faria.
E confesso que numa tentativa mal calculada de esquiva minha ele chegou a me esbarrar de leve e me desestabilizou um pouco, mas eu não caí.
Ele investiu novamente e dessa vez eu não precisei olhar para desviar.
Na sua terceira investida eu o agarrei e dançamos.
Era uma dança estranha, na qual ele se dividia entre querer fugir e querer me derrubar e eu, para meu espanto, queria abraçá-lo.
Depois desse belíssimo duelo em valsa consegui, enfim, o abraçar bem forte, apertado contra o peito!
E então meu medo deixou de ser medo, ele se transformou num autoconhecimento, numa paz de simplesmente saber o que não se quer, mas saber também que se irá sobreviver aquilo caso não o possa evitar.
E eu pude controlá-lo, e mais ainda, respeitá-lo.
E é assim que nossos encontros serão daqui por diante: Ele não mais me ameaçará, eu não mais fugirei dele. Ele me tocará docemente e eu o entenderei.
Dessa vez estava tudo bem, porque eu planejei o encontro, eu o esperava, ouso dizer que estava pronta para ele.
Ele me atacou, como sempre faz, como eu sabia que faria.
E confesso que numa tentativa mal calculada de esquiva minha ele chegou a me esbarrar de leve e me desestabilizou um pouco, mas eu não caí.
Ele investiu novamente e dessa vez eu não precisei olhar para desviar.
Na sua terceira investida eu o agarrei e dançamos.
Era uma dança estranha, na qual ele se dividia entre querer fugir e querer me derrubar e eu, para meu espanto, queria abraçá-lo.
Depois desse belíssimo duelo em valsa consegui, enfim, o abraçar bem forte, apertado contra o peito!
E então meu medo deixou de ser medo, ele se transformou num autoconhecimento, numa paz de simplesmente saber o que não se quer, mas saber também que se irá sobreviver aquilo caso não o possa evitar.
E eu pude controlá-lo, e mais ainda, respeitá-lo.
E é assim que nossos encontros serão daqui por diante: Ele não mais me ameaçará, eu não mais fugirei dele. Ele me tocará docemente e eu o entenderei.
domingo, 17 de maio de 2015
EU
Eu não me importo em perder noite de sono por bons motivos (recorde de 3 seguidas),
mas também adoro dormir 12h por dia se eu puder.
Eu prefiro doce a salgado,
mas meu corpo me cobra o sódio.
Eu amo flores, irei farejá-las, e quando as encontrar, apreciar por um longo tempo,
tocar suas pétalas e sorrir como se tivesse descoberto o mundo inteiro.
Eu amo comer, não gosto de queijo nem muito de frios e nem de frutas cristalizadas ou passas,
mas a única coisa que não como nem por decreto é coco.
Eu sou estupidamente tímida, insegura, medrosa e tenho ares de arrogante,
mas se me der uma chance, vou te conquistar e te dar carinho por pelo puro prazer de te ver sorrir.
Eu nunca vivi nesta vida,
mas sobrevivi o suficiente pra ter algumas histórias.
Eu arrisco dizer que sei ver corações,
e que meu amor é ilimitado.
Eu não sei quem sou e não sei se gosto de mim,
mas estou disposta a descobrir.
Eu não sou muito boa em nada que faço,
mas sei fazer muitas coisas.
Meu sonho é ter um sonho nesta vida.
Eu conheço a morte melhor do que gostaria.
Tenho sangue frio e coração fechado, mas isso dura tão pouco...
Eu prefiro ouvir a falar,
mas as vezes abro a matraca e não fecho mais.
Eu me sinto boba a maior parte do tempo.
Eu sou fraca para bebida e para carinhos e afetos.
Eu tenho crises de pânico mas me acalmo com música.
Tenho mais livros que sapatos, ou roupas ou espaço para guardar tudo isso.
Vivo com vontade de fugir
Quando fujo morro de vontade de voltar.
Sou rebelde sem causa.
Sou minha mais cruel carcereira e vivo na prisão do julgamento (no geral o próprio).
Sou refém do meu coração e escrava da razão.
Sou, faço, gosto, sinto
Humana
mas também adoro dormir 12h por dia se eu puder.
Eu prefiro doce a salgado,
mas meu corpo me cobra o sódio.
Eu amo flores, irei farejá-las, e quando as encontrar, apreciar por um longo tempo,
tocar suas pétalas e sorrir como se tivesse descoberto o mundo inteiro.
Eu amo comer, não gosto de queijo nem muito de frios e nem de frutas cristalizadas ou passas,
mas a única coisa que não como nem por decreto é coco.
Eu sou estupidamente tímida, insegura, medrosa e tenho ares de arrogante,
mas se me der uma chance, vou te conquistar e te dar carinho por pelo puro prazer de te ver sorrir.
Eu nunca vivi nesta vida,
mas sobrevivi o suficiente pra ter algumas histórias.
Eu arrisco dizer que sei ver corações,
e que meu amor é ilimitado.
Eu não sei quem sou e não sei se gosto de mim,
mas estou disposta a descobrir.
Eu não sou muito boa em nada que faço,
mas sei fazer muitas coisas.
Meu sonho é ter um sonho nesta vida.
Eu conheço a morte melhor do que gostaria.
Tenho sangue frio e coração fechado, mas isso dura tão pouco...
Eu prefiro ouvir a falar,
mas as vezes abro a matraca e não fecho mais.
Eu me sinto boba a maior parte do tempo.
Eu sou fraca para bebida e para carinhos e afetos.
Eu tenho crises de pânico mas me acalmo com música.
Tenho mais livros que sapatos, ou roupas ou espaço para guardar tudo isso.
Vivo com vontade de fugir
Quando fujo morro de vontade de voltar.
Sou rebelde sem causa.
Sou minha mais cruel carcereira e vivo na prisão do julgamento (no geral o próprio).
Sou refém do meu coração e escrava da razão.
Sou, faço, gosto, sinto
Humana
quarta-feira, 13 de maio de 2015
O Hierofante
Um oco João vagava pelas ruas, não mais da Índia, mas agora do Nepal.
Berço de Sidarta Gautama, fazia com que ele entendesse o que leva um príncipe a abandonar sua realeza. A miséria, a dor, o sofrimento e a morte que este jovem havia visto, e que o levaram a peregrinar e eventualmente encontrar o nirvana, estavam estampados nos rostos de cada cidadão, estavam expressos em cada olhar.
Um lugar tão pobre, uma gente tão sofrida que fizeram o oco João questionar onde estava a justiça divina.
Abatido, desesperançado, e perdido interiormente, ali, no meio daquela praça, sentado no chão, ele procurou por qualquer coisa superior que pudesse explicar aquilo tudo.
Pensou em tudo que aprendeu na primeira comunhão, e que sua mãe sempre lhe dizia. Eram pecadores, mereciam o inferno na terra em que vivam. Mas aquelas pessoas não lhe pareciam ter cometido pecado maior do que viver.
Então eram meros sofredores e no dia do juízo final seriam merecedores do reino dos céus. Mas se tal reino não existisse e se tal dia nunca chegasse seriam apenas sofredores. E qual o sentido de viver meramente para sofrer?
João percebeu então que a imagem de Deus que ele tinha não era boa, nem ao menos era dele, era uma imagem vendida, pela única religião que ele conhecia, como um produto num comercial de TV.
Se você fizer isso e aquilo, se rezar e for a missa, se for um bom cristão merecerá a benevolência divina! Aproveite, somente nessa semana santa com alguns jejuns de desconto.
Isso lhe soou absolutamente ridículo. E ali, rindo sozinho, ele enxergou alguma coisa que talvez traduzisse Deus.
Eram belíssimos olhos negros, amendoados, que o fitavam com interesse. Uma mulher, curiosa e receosa, o observava.
Ele se surpreendeu ao achá-la bonita. Como ele poderia achar aquela nepalês bonita?
Não era loira, nem alta, sua pele não era clara nem cuidadosamente adouradada do sol, não usava maquiagem nem saltos.
E no entanto era genuinamente magnífica. E João se deu a liberdade de ter uma opinião não consumida pronta pela primeira vez na vida.
Estava farto de gente lhe dizendo o que fazer, o que achar, como agir. Percebera que, além de seus pais, foi submisso a uma sociedade com padrões porcos e mal construídos, sem base ou humanidade.
João não queria mais seguir ninguém, e se deu ao direito de sorrir pela primeira vez na vida, de verdade, ao achar aquela mulher bonita.
Para sua surpresa, ela lhe sorriu de volta.
Continua em " Os Enamorados"...
terça-feira, 12 de maio de 2015
Fantasia #1
Quando já estava na metade da garrafa de rum, algumas pessoas entraram correndo desesperadas na taberna:
- Demônios, demônios vindo nessa direção, escondam-se!!!
Parsis ergueu uma sobrancelha, colocou a cimitarra novamente nas costas e foi até um dos afobados que gritava, agarrando seu colarinho:
- Demônios você diz, de qual espécie?
- Eu não sei moça, são pequenos, negros, e explodem as coisas só de tocar.
- Hum, diabretes então, de onde vieram?
- Pelamordosdeuses, eu não sei moça, só sei que quero ir na outra direção!!! - bradou o homem apavorado tentando se livrar da mão da elfa negra.
- Há, patife! - Ela bradou soltando-o em um solavanco. Depois de dar mais um longo e demorado gole da garrafa ela a atirou no chão e saiu com um sorriso de orelha a orelha:
- É por isso que eu amo este lugar, nunca falta diversão!
Dust tinha a garota desacordada em seus braços e matinha um campo de força esférico que as protegia dos diabretes.
- Mas que droga, como eu poderia saber que quebrar a possessão liberaria estas peste? O que eu vou fazer agora? São muitos e eu estou cansada, não consigo conjurar mais nenhuma magia além dessa de proteção!
Dito isso o campo de força deu uma diminuída e algumas gotas de suor lhe escorreram do rosto.
De repente o foco mágico que libertava os diabretes aumentou e muitos mais saíram de lá antes que ele se fechasse. As pestes se reuniram em torno do campo mágico de Dust e começaram a tentar quebrá-lo, explodindo pequenas porções do campo e subindo em cima dele.
Ela já estava absolutamente desesperada, o campo quase reduzido ao contorno das duas e aquele verdadeiro enxame de seres mágicos ao redor delas deixando toda a vista negra.
Então, de repente, eles começam a sumir, um por um, puxados por cima e o restante desvia seu foco do campo de força para atacar aquilo que os ataca. Quando Dust consegue ter visão da situação se surpreende com o que vê.
Parsis está rodeada de demoniozinhos e se diverte dando golpes certeiros de cimitarra que lhes cortam fora as cabeças. Ela desvia de seus toques para não se machucar, já tinha um explodida em seu ombro esquerdo e outra na canela direita e não queria deixar que isso atrapalhasse sua diversão.
Seu sorriso, quase doentio, deforma seu rosto, sujo de sangue quando ela grita:
-Três cabeças de uma só vez, é um novo record!
E quando todos os seres mágicos estão mortos ela finalmente nota a presença de Dust com a garota desacordada, sentada no chão encarando-a embasbacada.
- Há! Eu devia saber que essas coisas tinham a ver com você, como não deduzi antes? Hahahahahahahaha
- Parsis, você continua nojenta como sempre, nós somos elfas e não ogros, consegue se lembrar?
- Óhhh, me desculpe senhorita - diz com ironia - mas a ogra aqui acabou de salvar sua pele não?
- Existiam meios menos - ela tem uma leve ânsia de vômito olhando ao redor - desagradáveis.
- Não importam os meios minha cara Dust, importa acabar com o problema. - limpa a lâmina da cimitarra com um olhar distante, quase de deleite
Neste momento Dust desmaia e a Parsis a pega antes que caia no chão. Guardando a espada ela ergue Dust no colo e sai andando da cena, sem se importar com os corpos, a sujeira e muito menos com a garota desacordada caída no centro de tudo isso.
- Está tudo bem mana, eu voltei pra cuidar de você - ela sussurra.
- Demônios, demônios vindo nessa direção, escondam-se!!!
Parsis ergueu uma sobrancelha, colocou a cimitarra novamente nas costas e foi até um dos afobados que gritava, agarrando seu colarinho:
- Demônios você diz, de qual espécie?
- Eu não sei moça, são pequenos, negros, e explodem as coisas só de tocar.
- Hum, diabretes então, de onde vieram?
- Pelamordosdeuses, eu não sei moça, só sei que quero ir na outra direção!!! - bradou o homem apavorado tentando se livrar da mão da elfa negra.
- Há, patife! - Ela bradou soltando-o em um solavanco. Depois de dar mais um longo e demorado gole da garrafa ela a atirou no chão e saiu com um sorriso de orelha a orelha:
- É por isso que eu amo este lugar, nunca falta diversão!
Dust tinha a garota desacordada em seus braços e matinha um campo de força esférico que as protegia dos diabretes.
- Mas que droga, como eu poderia saber que quebrar a possessão liberaria estas peste? O que eu vou fazer agora? São muitos e eu estou cansada, não consigo conjurar mais nenhuma magia além dessa de proteção!
Dito isso o campo de força deu uma diminuída e algumas gotas de suor lhe escorreram do rosto.
De repente o foco mágico que libertava os diabretes aumentou e muitos mais saíram de lá antes que ele se fechasse. As pestes se reuniram em torno do campo mágico de Dust e começaram a tentar quebrá-lo, explodindo pequenas porções do campo e subindo em cima dele.
Ela já estava absolutamente desesperada, o campo quase reduzido ao contorno das duas e aquele verdadeiro enxame de seres mágicos ao redor delas deixando toda a vista negra.
Então, de repente, eles começam a sumir, um por um, puxados por cima e o restante desvia seu foco do campo de força para atacar aquilo que os ataca. Quando Dust consegue ter visão da situação se surpreende com o que vê.
Parsis está rodeada de demoniozinhos e se diverte dando golpes certeiros de cimitarra que lhes cortam fora as cabeças. Ela desvia de seus toques para não se machucar, já tinha um explodida em seu ombro esquerdo e outra na canela direita e não queria deixar que isso atrapalhasse sua diversão.
Seu sorriso, quase doentio, deforma seu rosto, sujo de sangue quando ela grita:
-Três cabeças de uma só vez, é um novo record!
E quando todos os seres mágicos estão mortos ela finalmente nota a presença de Dust com a garota desacordada, sentada no chão encarando-a embasbacada.
- Há! Eu devia saber que essas coisas tinham a ver com você, como não deduzi antes? Hahahahahahahaha
- Parsis, você continua nojenta como sempre, nós somos elfas e não ogros, consegue se lembrar?
- Óhhh, me desculpe senhorita - diz com ironia - mas a ogra aqui acabou de salvar sua pele não?
- Existiam meios menos - ela tem uma leve ânsia de vômito olhando ao redor - desagradáveis.
- Não importam os meios minha cara Dust, importa acabar com o problema. - limpa a lâmina da cimitarra com um olhar distante, quase de deleite
Neste momento Dust desmaia e a Parsis a pega antes que caia no chão. Guardando a espada ela ergue Dust no colo e sai andando da cena, sem se importar com os corpos, a sujeira e muito menos com a garota desacordada caída no centro de tudo isso.
- Está tudo bem mana, eu voltei pra cuidar de você - ela sussurra.
O Imperador
As águas sagradas não lhe aliviaram o peso de sua infância.
Com o vento frio na roupa molhada João se lembrou de seu pai, sempre tão austero e correto.
Se lembrou de como era reprimido quando lhe dizia que queria ser pintor, astronauta, jogador de futebol ou qualquer coisa que seu pai não considerasse uma carreira promissora.
Seu pai zelava pelo seu futuro, era verdade, se preocupava que o filho tivesse um bom emprego e assim, sem perceber, lhe assassinava os sonhos.
E aos poucos João desaprendeu a sonhar, e a ter vontade de ser qualquer coisa. Como boa criança ele tinha certeza que não poderia ser nada sem o apoio do pai, então de que lhe adiantava querer ser qualquer coisa que o pai não aprovasse?
Tinha sempre de ir bem na escola, e estudar em casa, além de fazer suas lições e algumas aulas extras.
-Vai ser culto meu filho, és inteligente, e com um bom estudo, serás grande na vida!
E assim João se lembra de uma infância mais fria, sentado, acumulando conhecimentos enquanto vislumbrava pela janela um sol bem forte num céu azul de um dia com brisa convidativa.
Seu pai lhe deu o que podia e o que não podia, era bem verdade, e as condições para estudar nunca lhe faltaram. João era grato, claro que era. Mas naquela época ele não queria isso, queria brincar, e ser criança, e só.
Sentiu falta de um passado que não teve.
Embora soubesse que seus o amavam, sentiu uma imensa falta de amor.
Parecia-lhe ter passado a vida mendigando pela aprovação e pelo amor dos pais, sentia-se agora tão indigno de afeto, de amor.
Ok, fora obediente e servil e talvez assim seus pais o tivessem amado, mas e as outras pessoas? Como João poderia lhes obedecer ou servir? Não era filho delas, então, como poderia ser amado?
-Ora João, os outros vão te amar por quem você é! - pensou.
E quem era João?
Ele sabia muito bem quem era o filho de dona Augusta e seu Pedro, mas não sabia quem era João.
Não sabia o que queria, quais suas idéias e ideais, como se expressar ou como tomar iniciativas. Não tinha instintos, não sabia amar e desejava clementemente ser amado.
Como poderia se sentir capaz de realizar qualquer coisa, se não sabia quem era?
Naquela tarde João notou que a muito tempo havia se perdido.
E não sabia exatamente como se encontrar, ou se reconstruir.
Naquela lama sagrada do Ganges, com o vento gelando seu rosto, e leves arrepios pelo corpo, ele se viu uma casca completamente oca, que até então havia vivido como um boneco de cordas, uma marionete, um Pinóquio que nunca ganhara vida e era meramente capricho de algum Gepeto.
Com o vento frio na roupa molhada João se lembrou de seu pai, sempre tão austero e correto.
Se lembrou de como era reprimido quando lhe dizia que queria ser pintor, astronauta, jogador de futebol ou qualquer coisa que seu pai não considerasse uma carreira promissora.
Seu pai zelava pelo seu futuro, era verdade, se preocupava que o filho tivesse um bom emprego e assim, sem perceber, lhe assassinava os sonhos.
E aos poucos João desaprendeu a sonhar, e a ter vontade de ser qualquer coisa. Como boa criança ele tinha certeza que não poderia ser nada sem o apoio do pai, então de que lhe adiantava querer ser qualquer coisa que o pai não aprovasse?
Tinha sempre de ir bem na escola, e estudar em casa, além de fazer suas lições e algumas aulas extras.
-Vai ser culto meu filho, és inteligente, e com um bom estudo, serás grande na vida!
E assim João se lembra de uma infância mais fria, sentado, acumulando conhecimentos enquanto vislumbrava pela janela um sol bem forte num céu azul de um dia com brisa convidativa.
Seu pai lhe deu o que podia e o que não podia, era bem verdade, e as condições para estudar nunca lhe faltaram. João era grato, claro que era. Mas naquela época ele não queria isso, queria brincar, e ser criança, e só.
Sentiu falta de um passado que não teve.
Embora soubesse que seus o amavam, sentiu uma imensa falta de amor.
Parecia-lhe ter passado a vida mendigando pela aprovação e pelo amor dos pais, sentia-se agora tão indigno de afeto, de amor.
Ok, fora obediente e servil e talvez assim seus pais o tivessem amado, mas e as outras pessoas? Como João poderia lhes obedecer ou servir? Não era filho delas, então, como poderia ser amado?
-Ora João, os outros vão te amar por quem você é! - pensou.
E quem era João?
Ele sabia muito bem quem era o filho de dona Augusta e seu Pedro, mas não sabia quem era João.
Não sabia o que queria, quais suas idéias e ideais, como se expressar ou como tomar iniciativas. Não tinha instintos, não sabia amar e desejava clementemente ser amado.
Como poderia se sentir capaz de realizar qualquer coisa, se não sabia quem era?
Naquela tarde João notou que a muito tempo havia se perdido.
E não sabia exatamente como se encontrar, ou se reconstruir.
Naquela lama sagrada do Ganges, com o vento gelando seu rosto, e leves arrepios pelo corpo, ele se viu uma casca completamente oca, que até então havia vivido como um boneco de cordas, uma marionete, um Pinóquio que nunca ganhara vida e era meramente capricho de algum Gepeto.
Continua em "O Hierofante"...
segunda-feira, 11 de maio de 2015
A Imperatriz
João estava levemente desnorteado, em meio a toda aquela multidão, nas margens do Ganges, se lembrava de sua mãe o educando quando criança.
Enquanto era massivamente empurrado e solavancada pelas pessoas, ainda se preocupava em pedir com licença e dizer me desculpe.
Sua mãe sempre o ensinara os bons modos, a responsabilidade, a temer a Deus e ser cortês.
Ela não deixava João se levantar da mesa a não ser que tivesse comido tudo, não aceitava quando ele dizia não porque ela, como mãe, era quem sabia o que João deveria ou não querer, poder, sentir e tudo mais.
Ele lhe era muito grato, é claro, e a amava de todo coração, mas tinha de enxergar que sua mãe, no intuito de protegê-lo, não havia deixado que experimentasse a vida, nas suas minúcias, e tivesse vontades próprias.
Cresceu para ser um bom menino, cresceu para obedecer, era o que melhor sabia fazer, e por isso conformava-se com sua vida patética, seu emprego medíocre, sua namorada dominadora e mandona.
"Sim senhora"
Ele era um ótimo robô, fiel, leal, jamais contrariava.
E se surgisse a oportunidade, qualquer que fosse, de ser livre por um instante, ele se perdia. De certa forma era por isso que se sentia tão desnorteado nessa viagem. Não sabia tomar decisões por conta própria. Isso nunca lhe fora ensinado, permitido, requisitado.
João sentia uma raiva muito grande em seu peito.
De repente viu todas as vezes com as quais não concordara com a situação, com as quais sua opinião era divergente, com as quais queria ter escolhida já que podia.
Sentia raiva de não ter tomado sua vida nas mãos nessas situações, sentia raiva de não ter se expressado, sentia raiva de não ter discordado, de não ter negado.
Sentia raiva de não poder se expressar.
Sentiu raiva de sua mãe, por quando ela não o deixou discordar do tema daquela festa, do destino de viagem nas férias, da roupa que ele iria usar.
Sentiu raiva de sua mãe que o ensinou a baixar a cabeça e obedecer.
Sentiu raiva da mulher que lhe roubou a vontade própria e a voz.
Ele sabia que não foi por mal, sabia que não era falta de amor, muito pelo contrário, era zelo em excesso, mas por um breve instante ele sentiu raiva por as coisas terem sido assim.
Era uma raiva antiga, ele percebeu, que a muito ele vinha cultivando, de tantas submissões externas quando o coração não queria. E ele nem ao menos podia explodir, não podia gritar, não podia chorar, não podia se enfurecer, porque não foi assim que sua mãe lhe ensinara.
Por uma brevidade João temeu que sua mãe lhe amasse mais se soubesse a forma como ele pensava e tudo o que ele sentia. Vislumbrou aquelas lágrimas que ele não entendia e que lhe doíam tanto, o choro daquela mãe que ele julgou ser sua responsabilidade.
Era uma mistura de dor, abandono, raiva, mágoa e contrariedade.
João mergulhou naquela poluição, em meio a tantas outras pessoas que faziam de tudo um pouco ali e esperou que as águas do Ganges pudessem lhe lavar a alma.
Enquanto era massivamente empurrado e solavancada pelas pessoas, ainda se preocupava em pedir com licença e dizer me desculpe.
Sua mãe sempre o ensinara os bons modos, a responsabilidade, a temer a Deus e ser cortês.
Ela não deixava João se levantar da mesa a não ser que tivesse comido tudo, não aceitava quando ele dizia não porque ela, como mãe, era quem sabia o que João deveria ou não querer, poder, sentir e tudo mais.
Ele lhe era muito grato, é claro, e a amava de todo coração, mas tinha de enxergar que sua mãe, no intuito de protegê-lo, não havia deixado que experimentasse a vida, nas suas minúcias, e tivesse vontades próprias.
Cresceu para ser um bom menino, cresceu para obedecer, era o que melhor sabia fazer, e por isso conformava-se com sua vida patética, seu emprego medíocre, sua namorada dominadora e mandona.
"Sim senhora"
Ele era um ótimo robô, fiel, leal, jamais contrariava.
E se surgisse a oportunidade, qualquer que fosse, de ser livre por um instante, ele se perdia. De certa forma era por isso que se sentia tão desnorteado nessa viagem. Não sabia tomar decisões por conta própria. Isso nunca lhe fora ensinado, permitido, requisitado.
João sentia uma raiva muito grande em seu peito.
De repente viu todas as vezes com as quais não concordara com a situação, com as quais sua opinião era divergente, com as quais queria ter escolhida já que podia.
Sentia raiva de não ter tomado sua vida nas mãos nessas situações, sentia raiva de não ter se expressado, sentia raiva de não ter discordado, de não ter negado.
Sentia raiva de não poder se expressar.
Sentiu raiva de sua mãe, por quando ela não o deixou discordar do tema daquela festa, do destino de viagem nas férias, da roupa que ele iria usar.
Sentiu raiva de sua mãe que o ensinou a baixar a cabeça e obedecer.
Sentiu raiva da mulher que lhe roubou a vontade própria e a voz.
Ele sabia que não foi por mal, sabia que não era falta de amor, muito pelo contrário, era zelo em excesso, mas por um breve instante ele sentiu raiva por as coisas terem sido assim.
Era uma raiva antiga, ele percebeu, que a muito ele vinha cultivando, de tantas submissões externas quando o coração não queria. E ele nem ao menos podia explodir, não podia gritar, não podia chorar, não podia se enfurecer, porque não foi assim que sua mãe lhe ensinara.
Por uma brevidade João temeu que sua mãe lhe amasse mais se soubesse a forma como ele pensava e tudo o que ele sentia. Vislumbrou aquelas lágrimas que ele não entendia e que lhe doíam tanto, o choro daquela mãe que ele julgou ser sua responsabilidade.
Era uma mistura de dor, abandono, raiva, mágoa e contrariedade.
João mergulhou naquela poluição, em meio a tantas outras pessoas que faziam de tudo um pouco ali e esperou que as águas do Ganges pudessem lhe lavar a alma.
Continua em "O Imperador"...
domingo, 10 de maio de 2015
Fantasias
As portas da taberna se abriram e, sob os olhares curiosos de bêbados, arruaceiros, e alguns viajantes, suas botas a guiaram até o balcão:
-Eu quero uma garrafa de Rum.
-Acredito que queira uma dose - replicou o garçom.
-Eu disse uma garrafa
-Uma dose dupla então - Fez mais uma tentativa.
-Seu patife desgraçado, eu lhe pedi uma garrafa, e a menos que queira perder as mãos agora mesmo é exatamente o que vai me servir - Ela disse entre dentes pondo o dinheiro no balcão para lhe garantir que tinha como pagar.
E assim, depois de um logo gole, direto do gargalo, pode finalmente se sentir revigorada de sua longa viagem.
"É bom estar de volta",
pensou enquanto girava em seu banco para pode observar o restante da taberna e apoiava sua cimitarra no chão para aliviar o peso.
- Que bom a que a senhorita chegou, estamos desesperados, não sabemos o que aconteceu, mas ela está flutuando a quase meia hora, nesse, não sei, transe?
Ela parou observando aquela cena: a garota flutuava no ar, braços abertos, olhos orbitando, nenhum sinal de consciência,uma luz cinza chumbo contornando seu corpo. Um livro caído no chão, tinha muitas páginas rasgadas, um pouco de sangue manchava o assoalho e uma pena negra flutuava com a tensão de tudo.
Arrumou seus óculos pelo aro central, recolocou a mecha de cabelo que escapara do coque atrás da orelha, pigarreou, e com a mão apoiada no queixo, como quem observa algo muito peculiar, disse:
-Estamos lidando com magia negra das fortes aqui, acho melhor o senhor e sua esposa deixarem o recinto por alguns instantes, não vou poder evitar que meus poderes os afetem enquanto tento contornar a situação.
-A senhora salvará minha filha? - choramingou a mulher, que até então estava encolhido no canto do quarto.
- Farei o meu melhor senhora.
Começou a recitar seu encantamento e palavras élficas foram se escrevendo no ar em um tom azul claro, ela começou a flutuar e quando estava frente a frente com a jovem seu poder explodiu como uma super nova de luz azulada
-Eu quero uma garrafa de Rum.
-Acredito que queira uma dose - replicou o garçom.
-Eu disse uma garrafa
-Uma dose dupla então - Fez mais uma tentativa.
-Seu patife desgraçado, eu lhe pedi uma garrafa, e a menos que queira perder as mãos agora mesmo é exatamente o que vai me servir - Ela disse entre dentes pondo o dinheiro no balcão para lhe garantir que tinha como pagar.
E assim, depois de um logo gole, direto do gargalo, pode finalmente se sentir revigorada de sua longa viagem.
"É bom estar de volta",
pensou enquanto girava em seu banco para pode observar o restante da taberna e apoiava sua cimitarra no chão para aliviar o peso.
- Que bom a que a senhorita chegou, estamos desesperados, não sabemos o que aconteceu, mas ela está flutuando a quase meia hora, nesse, não sei, transe?
Ela parou observando aquela cena: a garota flutuava no ar, braços abertos, olhos orbitando, nenhum sinal de consciência,uma luz cinza chumbo contornando seu corpo. Um livro caído no chão, tinha muitas páginas rasgadas, um pouco de sangue manchava o assoalho e uma pena negra flutuava com a tensão de tudo.
Arrumou seus óculos pelo aro central, recolocou a mecha de cabelo que escapara do coque atrás da orelha, pigarreou, e com a mão apoiada no queixo, como quem observa algo muito peculiar, disse:
-Estamos lidando com magia negra das fortes aqui, acho melhor o senhor e sua esposa deixarem o recinto por alguns instantes, não vou poder evitar que meus poderes os afetem enquanto tento contornar a situação.
-A senhora salvará minha filha? - choramingou a mulher, que até então estava encolhido no canto do quarto.
- Farei o meu melhor senhora.
Começou a recitar seu encantamento e palavras élficas foram se escrevendo no ar em um tom azul claro, ela começou a flutuar e quando estava frente a frente com a jovem seu poder explodiu como uma super nova de luz azulada
sexta-feira, 8 de maio de 2015
hoje eu queria
Hoje eu queria ouvir uma história, sobre algum reino distante, com seres mágicos e algum enredo empolgante, levemente assustador, que desse certo no final
Hoje eu queria cantarolar uma música, dessas que deixam a alma mais leve a cada palavra
Hoje eu queria abraçar alguém, bem apertadinho, pra aquecer o coração
Hoje eu queria comer um doce, desses que desmancham na boca e preenchem todos os nossos sensores
Hoje eu queria sentir um perfume que tivesse um quê de conhecido, misturando saudade com esperança
Hoje eu queria dar uma gargalhada, dessas que arrancam lágrimas e fazem doer a barriga
Hoje eu queria que alguém secasse meu cabelo, pra eu sentir um toque de cuidado comigo
Hoje eu queria respirar uma brisa gelada, que me trouxesse aquela tensão do ar antes de tempestades
Hoje eu queria me arrepiar, daqueles arrepios bons que acompanham um beijo
Hoje eu queria deitar sob a grama, fechar meus olhos e sentir a imensidão do céu acima de mim
Hoje eu queria ter um sonho bonito, daqueles que fazem a gente não querer acordar
Hoje eu queria brincar com um filhote, ver toda a meiguice de quem está aprendendo a vida
Hoje eu queria sentir desejo, instintivamente, com todo o deleite e a embriaguez que ele traz
Hoje eu queria ler um poema, e poder sentir que ele é quem está me lendo
Hoje eu queria não querer nada, por estar plenamente realizada
Hoje eu queria cantarolar uma música, dessas que deixam a alma mais leve a cada palavra
Hoje eu queria abraçar alguém, bem apertadinho, pra aquecer o coração
Hoje eu queria comer um doce, desses que desmancham na boca e preenchem todos os nossos sensores
Hoje eu queria sentir um perfume que tivesse um quê de conhecido, misturando saudade com esperança
Hoje eu queria dar uma gargalhada, dessas que arrancam lágrimas e fazem doer a barriga
Hoje eu queria que alguém secasse meu cabelo, pra eu sentir um toque de cuidado comigo
Hoje eu queria respirar uma brisa gelada, que me trouxesse aquela tensão do ar antes de tempestades
Hoje eu queria me arrepiar, daqueles arrepios bons que acompanham um beijo
Hoje eu queria deitar sob a grama, fechar meus olhos e sentir a imensidão do céu acima de mim
Hoje eu queria ter um sonho bonito, daqueles que fazem a gente não querer acordar
Hoje eu queria brincar com um filhote, ver toda a meiguice de quem está aprendendo a vida
Hoje eu queria sentir desejo, instintivamente, com todo o deleite e a embriaguez que ele traz
Hoje eu queria ler um poema, e poder sentir que ele é quem está me lendo
Hoje eu queria não querer nada, por estar plenamente realizada
terça-feira, 5 de maio de 2015
Cartas que nunca foram enviadas VI e última
Você me conquistou por suas não promessas.
Nunca prometeu nada, nunca se comprometeu, e nunca ninguém foi tão honesto comigo.
Ah, tantas coisas simples me conquistam...
Você não me deu afeto, não de forma direta, seu afeto vinha dos seus deslizes, incrivelmente sutis que eu amava perceber.
E por outro lado vinha escrachado em palavras e gestos tão comuns, que em teoria a gente faz pra todo mundo, mas que em sonho eram só pra mim.
Sabe o que me mata em você?
Eu não consigo te ler.
Sempre foi fácil pra mim entender as pessoas, principalmente o que elas não dizem, sempre foi fácil ler, não mentes, mas corações.
Seu coração só pode estar em outra língua.
Você nem ao menos não diz, quero dizer, está tudo sempre dito, claro, objetivo e direto. Então porque ainda cismo que li uma nesga diferente da que você disse?
Esperança? Pode ser, sou eu tipo de tola.
E aí embarquei nessa montanha russa que eu mesma criei, mesmo tendo medo de altura, e pior de tudo, embarquei sozinha.
E ela sobe quando acho que desvendei alguma coisa em você que indica que você gosta de mim, e desce vertiginosamente quando você me escracha o contrário e deixa claro que não passo de uma reles conhecida, nem no posto de amiga cheguei.
E sobe de novo quando penso que então eu devo apostar todas as fichas e deixar as coisas claras, e cai a noventa graus quando você me dá um fora indireto.
Estou vomitando sentimentos, é fato.
Acho até que eu ficaria feliz se pudesse ser só sua amiga, mas nem isso você deixa, sua vida e mente são impenetráveis, principalmente pra mim que tenho medo de tentar.
Mentira, não iria ajudar, eu só me apaixonaria mais ainda por você.
E eu tão criança e perdida, com tanto sentimento nas mãos, não sei o que fazer. Se te entrego e você o deita ao chão, meu coração vai se partir. Se não te entrego fico pra sempre nesse mar de dúvida e esperança que me sufoca.
Pensei seriamente em fugir de você então, te excluir da minha vida e te esquecer pra sempre. Gargalhei alto quando concluí o pensamento. Te esquecer é impossível.
Estou ficando cansada desse subir e descer, afastar e puxar, ter esperança e me desiludir. Estou ficando cansada de dançar sozinha.
E sou eu mesma quem não te convida pra dançar.
Como eu disse, tola.
Talvez o sentimento se desgaste e morra daqui a algum tempo, ou se transforme, ou não, eu não tenho como saber.
Por enquanto isso é só o que tenho, e já nem sei como lidar.
Nunca prometeu nada, nunca se comprometeu, e nunca ninguém foi tão honesto comigo.
Ah, tantas coisas simples me conquistam...
Você não me deu afeto, não de forma direta, seu afeto vinha dos seus deslizes, incrivelmente sutis que eu amava perceber.
E por outro lado vinha escrachado em palavras e gestos tão comuns, que em teoria a gente faz pra todo mundo, mas que em sonho eram só pra mim.
Sabe o que me mata em você?
Eu não consigo te ler.
Sempre foi fácil pra mim entender as pessoas, principalmente o que elas não dizem, sempre foi fácil ler, não mentes, mas corações.
Seu coração só pode estar em outra língua.
Você nem ao menos não diz, quero dizer, está tudo sempre dito, claro, objetivo e direto. Então porque ainda cismo que li uma nesga diferente da que você disse?
Esperança? Pode ser, sou eu tipo de tola.
E aí embarquei nessa montanha russa que eu mesma criei, mesmo tendo medo de altura, e pior de tudo, embarquei sozinha.
E ela sobe quando acho que desvendei alguma coisa em você que indica que você gosta de mim, e desce vertiginosamente quando você me escracha o contrário e deixa claro que não passo de uma reles conhecida, nem no posto de amiga cheguei.
E sobe de novo quando penso que então eu devo apostar todas as fichas e deixar as coisas claras, e cai a noventa graus quando você me dá um fora indireto.
Estou vomitando sentimentos, é fato.
Acho até que eu ficaria feliz se pudesse ser só sua amiga, mas nem isso você deixa, sua vida e mente são impenetráveis, principalmente pra mim que tenho medo de tentar.
Mentira, não iria ajudar, eu só me apaixonaria mais ainda por você.
E eu tão criança e perdida, com tanto sentimento nas mãos, não sei o que fazer. Se te entrego e você o deita ao chão, meu coração vai se partir. Se não te entrego fico pra sempre nesse mar de dúvida e esperança que me sufoca.
Pensei seriamente em fugir de você então, te excluir da minha vida e te esquecer pra sempre. Gargalhei alto quando concluí o pensamento. Te esquecer é impossível.
Estou ficando cansada desse subir e descer, afastar e puxar, ter esperança e me desiludir. Estou ficando cansada de dançar sozinha.
E sou eu mesma quem não te convida pra dançar.
Como eu disse, tola.
Talvez o sentimento se desgaste e morra daqui a algum tempo, ou se transforme, ou não, eu não tenho como saber.
Por enquanto isso é só o que tenho, e já nem sei como lidar.
segunda-feira, 4 de maio de 2015
Cartas que nunca foram enviadas V
Você é meu amor de outras vidas.
Tenho absoluta certeza, sinto com cada poro que já te amei em vidas passadas, que te amo nesta e que te amarei em tantas outras vidas futuras.
Você é uma de minhas almas gêmeas.
E no entanto, por mais que doa, só amor não basta.
Eu quis te fazer feliz, eu não menti quando te disse que não queria ser eu a quebrar seu coração. Mas acho que era inevitável, eu iria te machucar de qualquer forma.
"Qual é o peso da culpa que eu carrego nos braços
Me entorta as costas e dá um cansaço"
Meu amor nunca vai acabar, minguar ou se transformar, eu até tentei, mas é impossível te odiar.
A saudade que sinto machuca tanto, e seu cheiro, seu calor, seu corpo, sua personalidade, absolutamente tudo de você está impresso em mim, está por dentro, por fora, na mente.
Você disse que jamais me perdoaria, você disse que queria que eu sumisse da sua vida para sempre e isso dói, bem mais do que você poderia imaginar ao proferir essas tolas palavras nas quais eu acho que não acredita.
"Eu sei que fiz você chorar
E luto tanto pra esquecer"
Mas eu acreditei, e acatei.
Não vou mais te procurar, por mais que queira.
Eu tive de aceitar muitas coisas de nós dois, caramba, eu até nos vi em tantas canções e eu descobri que aceitar dói.
Mas se eu não aceitar, vai doer é em você. Então aceito, sempre fui mais forte que você, fazer o que?
Na verdade, eu tenho esperança de você no futuro, não importa quão distante ele seja.
Um dia ainda vou poder ser feliz contigo, te dar todo meu amor que há tanto represo. Nosso destino é esse, e nós sabemos.
"No fundo eu te espero em outra vida
Também não vejo outra saída
E já nem é a primeira vez
Cê sabe, eu já te conhecia"
Tenho absoluta certeza, sinto com cada poro que já te amei em vidas passadas, que te amo nesta e que te amarei em tantas outras vidas futuras.
Você é uma de minhas almas gêmeas.
E no entanto, por mais que doa, só amor não basta.
Eu quis te fazer feliz, eu não menti quando te disse que não queria ser eu a quebrar seu coração. Mas acho que era inevitável, eu iria te machucar de qualquer forma.
"Qual é o peso da culpa que eu carrego nos braços
Me entorta as costas e dá um cansaço"
Meu amor nunca vai acabar, minguar ou se transformar, eu até tentei, mas é impossível te odiar.
A saudade que sinto machuca tanto, e seu cheiro, seu calor, seu corpo, sua personalidade, absolutamente tudo de você está impresso em mim, está por dentro, por fora, na mente.
Você disse que jamais me perdoaria, você disse que queria que eu sumisse da sua vida para sempre e isso dói, bem mais do que você poderia imaginar ao proferir essas tolas palavras nas quais eu acho que não acredita.
"Eu sei que fiz você chorar
E luto tanto pra esquecer"
Mas eu acreditei, e acatei.
Não vou mais te procurar, por mais que queira.
Eu tive de aceitar muitas coisas de nós dois, caramba, eu até nos vi em tantas canções e eu descobri que aceitar dói.
Mas se eu não aceitar, vai doer é em você. Então aceito, sempre fui mais forte que você, fazer o que?
Na verdade, eu tenho esperança de você no futuro, não importa quão distante ele seja.
Um dia ainda vou poder ser feliz contigo, te dar todo meu amor que há tanto represo. Nosso destino é esse, e nós sabemos.
"No fundo eu te espero em outra vida
Também não vejo outra saída
E já nem é a primeira vez
Cê sabe, eu já te conhecia"
domingo, 3 de maio de 2015
Bons sonhos
Existem diferentes formas de pegar no sono.
A que mais gosto é aquela em que se está em repouso e relaxamento e os pensamentos, em geral doces, começam a fugir de leve e você sente que está amolecendo e penetrando no mundo dos sonhos e resiste de leve, pelo simples fato de quando deixa de resistir a entrega é ainda mais deliciosa.
A que menos gosto é aquela em que a cabeça, em turbilhão, depois do que parece ser uma verdadeira guerra, desliga de pura exaustão e você geralmente tem pesadelos ou um sono conturbado.
A que mais me assusta é essa, na qual se deita e sente como se seu corpo caísse através da cama, a cabeça ultrapassando o travesseiro e antes que se possa sentir o baque com o chão se acorda depois de invisíveis horas de sono que se acaba considerando satisfatórias.
É óbvio que aqui considero apenas a situação de se estar dormindo só em uma cama.
As formas furtivas são de alguma forma esplêndidas, não há sono mais reparador do que aquele que se tem durante uma aula ou palestra.
O sono, ao longo de um filme que se queria ver é frustrante.
E o sono, ao teu lado, depois de muito sexo é aquele que ainda almejo experimentar, mas tem ares de ser rejuvenescedor.
A que mais gosto é aquela em que se está em repouso e relaxamento e os pensamentos, em geral doces, começam a fugir de leve e você sente que está amolecendo e penetrando no mundo dos sonhos e resiste de leve, pelo simples fato de quando deixa de resistir a entrega é ainda mais deliciosa.
A que menos gosto é aquela em que a cabeça, em turbilhão, depois do que parece ser uma verdadeira guerra, desliga de pura exaustão e você geralmente tem pesadelos ou um sono conturbado.
A que mais me assusta é essa, na qual se deita e sente como se seu corpo caísse através da cama, a cabeça ultrapassando o travesseiro e antes que se possa sentir o baque com o chão se acorda depois de invisíveis horas de sono que se acaba considerando satisfatórias.
É óbvio que aqui considero apenas a situação de se estar dormindo só em uma cama.
As formas furtivas são de alguma forma esplêndidas, não há sono mais reparador do que aquele que se tem durante uma aula ou palestra.
O sono, ao longo de um filme que se queria ver é frustrante.
E o sono, ao teu lado, depois de muito sexo é aquele que ainda almejo experimentar, mas tem ares de ser rejuvenescedor.
Cartas que nunca foram enviadas IV
Confesso, você não foi amor nem paixão.
Foi pura carência.
E no entanto durou mais que os outros, e no entanto doeu tanto quanto você resolveu me apunhalar.
Foi comodidade, foi conforto, foi praticidade e interesse.
E no entanto também foi um choque de realidade.
Quando terminamos eu tive de te alertar pra esse seu orgulho tão imbecil, mas falei isso enxergando o meu.
A diferença?
Você se arrependeu, eu não.
Foi pura carência.
E no entanto durou mais que os outros, e no entanto doeu tanto quanto você resolveu me apunhalar.
Foi comodidade, foi conforto, foi praticidade e interesse.
E no entanto também foi um choque de realidade.
Quando terminamos eu tive de te alertar pra esse seu orgulho tão imbecil, mas falei isso enxergando o meu.
A diferença?
Você se arrependeu, eu não.
sábado, 2 de maio de 2015
Cartas que nunca foram enviadas III
"Como são extraordinárias as pessoas que não conhecemos bem"
Será que eu não te conhecia bem amore?
Creio que era o oposto, eu sempre fui a que melhor te conheceu.
No começo eu conhecia seus Pokémons prediletos e suas estratégias de jogo, depois conheci sua letra torta e conheci um garoto que escrevia em papel de carta, com canetas coloridas e perfumadas, não porque ele gostasse disso, mas porque sabia que a menina que as recebia adorava.
Ainda imagino você comprando os papéis de carta e as canetas.
Depois conheci sua família aos poucos, pai (óh, tínhamos problemas em comum), mãe, avó, cachorros, pássaros e o peixe.
Conheci um garoto que cuidava de mim, você me mandou todas as figurinhas BRILHANTES. Não sabe como isso foi importante para mim, as que não colei no álbum eu ainda tenho guardadas.
E aí te perdi
Porque? Você simplesmente desapareceu
Mas naquela época eu era nova demais, e tinha amigos de mais para me importar, fiquei magoada, mas fiquei com raiva e resolvi te deixar para lá.
E aí, aí eu achei tuas cartas, todas cuidadosamente guardadas e senti saudade. E escrevi. E você respondeu. Estávamos juntos de novo, nem um ano havia se passado no nosso mundo do papel.
E eu conheci o garoto bom, que caçava pessoas para ajudar na rua, que sonhava com um emprego melhor e em se formar na faculdade, que queria que a namorada estivesse mais perto, e que queria trabalhar na Disney nas férias de verão.
Seu gosto musical era totalmente diferente do meu e ainda assim trocávamos canções, strani amore, e seguíamos assim amore, você me convenceu a ir pra Disney, estávamos todos os dias na mesma estação de metro, quase a mesma hora, e nunca nos encontrávamos.
E eu conheci sua tristeza, seus medos, sua solidão sempre tão acompanhada.
"E quando eu lhe dizia: - me apaixono todo dia, é sempre a pessoa errada.
Você sorriu e disse: - gosto de você também"
E você cuidava das minhas dores de amor, e ria da minha ingenuidade. Nosso kit em comum de recorte e cole estava sempre pronto. Corações costurados, colados, presos por durex ou grampeados.
Seguíamos, lado a lado como podíamos.
-Todays Fortune: Your life will end soon
-So my life will end soon too.
-S2
E você não me respondeu mais nada a respeito disso
E alguns dias passaram, mas você estava normal
-Cuida desse seu coraçãozinho pra mim?
Como eu poderia cuidar do meu coração pra você amore? Você levou ele embora!!!
E foi assim que meu coração se foi, as dúvidas ficaram e eu aprendi a lição
"Cause I've lost loved ones in my life
Será que eu não te conhecia bem amore?
Creio que era o oposto, eu sempre fui a que melhor te conheceu.
No começo eu conhecia seus Pokémons prediletos e suas estratégias de jogo, depois conheci sua letra torta e conheci um garoto que escrevia em papel de carta, com canetas coloridas e perfumadas, não porque ele gostasse disso, mas porque sabia que a menina que as recebia adorava.
Ainda imagino você comprando os papéis de carta e as canetas.
Depois conheci sua família aos poucos, pai (óh, tínhamos problemas em comum), mãe, avó, cachorros, pássaros e o peixe.
Conheci um garoto que cuidava de mim, você me mandou todas as figurinhas BRILHANTES. Não sabe como isso foi importante para mim, as que não colei no álbum eu ainda tenho guardadas.
E aí te perdi
Porque? Você simplesmente desapareceu
Mas naquela época eu era nova demais, e tinha amigos de mais para me importar, fiquei magoada, mas fiquei com raiva e resolvi te deixar para lá.
E aí, aí eu achei tuas cartas, todas cuidadosamente guardadas e senti saudade. E escrevi. E você respondeu. Estávamos juntos de novo, nem um ano havia se passado no nosso mundo do papel.
E eu conheci o garoto bom, que caçava pessoas para ajudar na rua, que sonhava com um emprego melhor e em se formar na faculdade, que queria que a namorada estivesse mais perto, e que queria trabalhar na Disney nas férias de verão.
Seu gosto musical era totalmente diferente do meu e ainda assim trocávamos canções, strani amore, e seguíamos assim amore, você me convenceu a ir pra Disney, estávamos todos os dias na mesma estação de metro, quase a mesma hora, e nunca nos encontrávamos.
E eu conheci sua tristeza, seus medos, sua solidão sempre tão acompanhada.
"E quando eu lhe dizia: - me apaixono todo dia, é sempre a pessoa errada.
Você sorriu e disse: - gosto de você também"
E você cuidava das minhas dores de amor, e ria da minha ingenuidade. Nosso kit em comum de recorte e cole estava sempre pronto. Corações costurados, colados, presos por durex ou grampeados.
Seguíamos, lado a lado como podíamos.
-Todays Fortune: Your life will end soon
-So my life will end soon too.
-S2
E você não me respondeu mais nada a respeito disso
E alguns dias passaram, mas você estava normal
-Cuida desse seu coraçãozinho pra mim?
Como eu poderia cuidar do meu coração pra você amore? Você levou ele embora!!!
E foi assim que meu coração se foi, as dúvidas ficaram e eu aprendi a lição
"Cause I've lost loved ones in my life
Who never knew how much I loved them
Now I live with the regret
That my true feelings for them
never were revealed"
Now I live with the regret
That my true feelings for them
never were revealed"
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Certa vez
Certa vez me apaixonei por uma mulher.
Era linda, fofa, inteligente, engraçada, meiga e decidida.
Ela se achava uma verdadeira fortaleza e assim tentava se afirmar pra quem quisesse ouvir. Forte, decidida, independente, mulher livre, do tipo que intimida qualquer um.
Mas depois de um tempo de convivência e intimidade, qualquer um poderia ver que era menina insegura, carente, perdida.
Não sei qual das duas facetas mais me encantava, ou melhor, das 3, a que eu via, a que ela tentava mostrar ou a que de fato era.
Eu me perdia em seu mundo e suas personalidades.
Certa vez me confessara que tinha épocas em que se abatia, em que a mente a torturava e ela fazia de um quase tudo para não pensar.
Era avessa a drogas e álcool (tenho imensa facilidade e propensão a vícios-dizia-não posso dar chance a eles) e por isso assistia filmes, um, dois, três, quatro num dia, ou olhava redes sociais desesperadamente, esperando que aquilo a abobalhasse. Ou, em última instância, tomava um remédio importado para dormir, ela não sabia o que era, acreditava ser fitoterápico, e então dormia por 9h, 10h, 13h ou 15h. Não adiantava muito, seus pensamentos tomavam formas em seus sonhos e ela acordava completamente desgastada.
Em seus momentos mais cruéis tinhas ataques de pânico, chorava compulsivamente e mal conseguia respirar, nestes casos abusa de música, alta, em fones de ouvidos e se obrigava a cantar junto até adormecer de exaustão
Certa vez -me disse- cansada de tudo isso peguei um canivete, afiei e levei ao pulso. Cortei o direito, não fundo o suficiente, porque descobri que é difícil cortar a carne humana. Quando fui cortar o esquerdo, tremia de medo, dor, e uma espécie de arrependimento. Ganhei marcas, mas ninguém nota, as pessoas são cegas ao sofrimento alheio.
Ela me narrava tudo com um sorriso no rosto. Nunca um sorriso me doeu tanto.
Era só uma menina, ela não queria morrer, só não queira ficar sozinha. Depois de viver uma vida inteira sozinha, ela queria alguém que a ouvisse.
Ela não precisava de remédios, precisava de um colo no qual pudesse chorar suas inseguranças e seus medos, e que mesmo sem ter respostas, lhe diria que estava ali.
Ela não precisava ser forte como ela mesma julgava, precisava justamente o oposto, se mostrar genuinamente frágil.
Ouso dizer que ela precisava apenas de um amigo. Alguém que a deixasse entrar em sua vida, para que ela o deixasse entrar na dela.
Mas eu não queria ser apenas amigo, queria ser seu amante também, me apaixonei por suas fraquezas e sua força em enfrentá-las sozinha, por sua solidão e sua desesperada busca por companhia, me apaixonei por sua inteligência que sumia quando seu coração a dominava, me apaixonei por seu sorriso triste que ela não negava a ninguém.
Ela era tão densa e tão leve que eu não sabia o que poderia fazer por ela.
Mas me dominou de tal forma que eu já não sabia mais o que fazer sem ela.
Era linda, fofa, inteligente, engraçada, meiga e decidida.
Ela se achava uma verdadeira fortaleza e assim tentava se afirmar pra quem quisesse ouvir. Forte, decidida, independente, mulher livre, do tipo que intimida qualquer um.
Mas depois de um tempo de convivência e intimidade, qualquer um poderia ver que era menina insegura, carente, perdida.
Não sei qual das duas facetas mais me encantava, ou melhor, das 3, a que eu via, a que ela tentava mostrar ou a que de fato era.
Eu me perdia em seu mundo e suas personalidades.
Certa vez me confessara que tinha épocas em que se abatia, em que a mente a torturava e ela fazia de um quase tudo para não pensar.
Era avessa a drogas e álcool (tenho imensa facilidade e propensão a vícios-dizia-não posso dar chance a eles) e por isso assistia filmes, um, dois, três, quatro num dia, ou olhava redes sociais desesperadamente, esperando que aquilo a abobalhasse. Ou, em última instância, tomava um remédio importado para dormir, ela não sabia o que era, acreditava ser fitoterápico, e então dormia por 9h, 10h, 13h ou 15h. Não adiantava muito, seus pensamentos tomavam formas em seus sonhos e ela acordava completamente desgastada.
Em seus momentos mais cruéis tinhas ataques de pânico, chorava compulsivamente e mal conseguia respirar, nestes casos abusa de música, alta, em fones de ouvidos e se obrigava a cantar junto até adormecer de exaustão
Certa vez -me disse- cansada de tudo isso peguei um canivete, afiei e levei ao pulso. Cortei o direito, não fundo o suficiente, porque descobri que é difícil cortar a carne humana. Quando fui cortar o esquerdo, tremia de medo, dor, e uma espécie de arrependimento. Ganhei marcas, mas ninguém nota, as pessoas são cegas ao sofrimento alheio.
Ela me narrava tudo com um sorriso no rosto. Nunca um sorriso me doeu tanto.
Era só uma menina, ela não queria morrer, só não queira ficar sozinha. Depois de viver uma vida inteira sozinha, ela queria alguém que a ouvisse.
Ela não precisava de remédios, precisava de um colo no qual pudesse chorar suas inseguranças e seus medos, e que mesmo sem ter respostas, lhe diria que estava ali.
Ela não precisava ser forte como ela mesma julgava, precisava justamente o oposto, se mostrar genuinamente frágil.
Ouso dizer que ela precisava apenas de um amigo. Alguém que a deixasse entrar em sua vida, para que ela o deixasse entrar na dela.
Mas eu não queria ser apenas amigo, queria ser seu amante também, me apaixonei por suas fraquezas e sua força em enfrentá-las sozinha, por sua solidão e sua desesperada busca por companhia, me apaixonei por sua inteligência que sumia quando seu coração a dominava, me apaixonei por seu sorriso triste que ela não negava a ninguém.
Ela era tão densa e tão leve que eu não sabia o que poderia fazer por ela.
Mas me dominou de tal forma que eu já não sabia mais o que fazer sem ela.
quinta-feira, 30 de abril de 2015
Saudade
Essa noite eu não consegui dormir.
Não foi nada de específico, apenas uma daquelas noites em que os pensamentos vem em altíssima velocidade e diferentes graus de importância e a gente descobre que é impossível parar de pensar, então não pára, e não dorme também.
A certa altura, já exausta e cansada, me lembrei de seus carinhos.
Aquele cafuné desleixado, bagunçando meu cabelo, como se fosse a coisa mais natural do mundo você ter meus cabelos entre seus dedos.
Sua mão no meu ombro, ou em minha cintura, leve o suficiente para não me prender, firme o suficiente para dizer um "fique aqui para sempre"
Ficávamos horas conversando assim, ou simplesmente calados, aí você me puxava, bem sutilmente, e me fazia pousar a cabeça em seu ombro.
Esse era a melhor sensação do mundo, seu cheiro inundava minhas narinas, e me deixava levemente absorta, meu cheiro favorito. O calor do seu corpo, discrepante do meu que sempre foi frio, aquecia alguma coisa dentro de mim, como se abraçasse meu coração e o confortasse.
Se você falasse alguma coisa eu ouvia sua voz por dentro, saindo do seu peito, e de certa forma era como se fôssemos um, como se estivéssemos fundidos.
E então o tempo parava, a eternidade se instava naquele delicioso instante, e era como flutuar entre o tempo e o espaço, era como estar acima de tudo, simplesmente inundada de afeto.
Ah, pensamentos podem ser muito traiçoeiros em noites insones. Certamente sentir a crueza gélida de minha cama vazia enquanto me lembro do meu lugarzinho a parte no universo não me ajudará a dormir.
Mas acho que não me importo mais com isso, já perdi tanta coisa, tão mais importante, que as horas de sono são meros detalhes.
Talvez eu encontre um afago de novo, para poder me desligar e dormir, ou talvez eu continue acordada para a realidade da vida para sempre.
Não foi nada de específico, apenas uma daquelas noites em que os pensamentos vem em altíssima velocidade e diferentes graus de importância e a gente descobre que é impossível parar de pensar, então não pára, e não dorme também.
A certa altura, já exausta e cansada, me lembrei de seus carinhos.
Aquele cafuné desleixado, bagunçando meu cabelo, como se fosse a coisa mais natural do mundo você ter meus cabelos entre seus dedos.
Sua mão no meu ombro, ou em minha cintura, leve o suficiente para não me prender, firme o suficiente para dizer um "fique aqui para sempre"
Ficávamos horas conversando assim, ou simplesmente calados, aí você me puxava, bem sutilmente, e me fazia pousar a cabeça em seu ombro.
Esse era a melhor sensação do mundo, seu cheiro inundava minhas narinas, e me deixava levemente absorta, meu cheiro favorito. O calor do seu corpo, discrepante do meu que sempre foi frio, aquecia alguma coisa dentro de mim, como se abraçasse meu coração e o confortasse.
Se você falasse alguma coisa eu ouvia sua voz por dentro, saindo do seu peito, e de certa forma era como se fôssemos um, como se estivéssemos fundidos.
E então o tempo parava, a eternidade se instava naquele delicioso instante, e era como flutuar entre o tempo e o espaço, era como estar acima de tudo, simplesmente inundada de afeto.
Ah, pensamentos podem ser muito traiçoeiros em noites insones. Certamente sentir a crueza gélida de minha cama vazia enquanto me lembro do meu lugarzinho a parte no universo não me ajudará a dormir.
Mas acho que não me importo mais com isso, já perdi tanta coisa, tão mais importante, que as horas de sono são meros detalhes.
Talvez eu encontre um afago de novo, para poder me desligar e dormir, ou talvez eu continue acordada para a realidade da vida para sempre.
Cartas que nunca foram enviadas III
Sabe, era um rolo e tanto!
Você gostava da 1, a 2 gostava de você, éramos todos amigos e no final, mesmo te amando, resolvi ficar de fora dessa ciranda.
Dava forças para você ir atrás da 1, incentivava a 2 a ir atrás de você e tudo isso me machucava, mas era o que eu tinha de fazer.
Te amei por muito tempo assim, sempre ouvindo suas dores de outro amor, sempre ouvindo as dores dela em relação ao seu amor, sempre sentindo as minhas, até que sabe, o amor virou carinho.
Um carinho tão gostoso de sentir, tão bem assentado no coração, que acho até que ficou melhor assim.
Não sei dizer se foi de fato platônico, tempos depois, se não me equivoco, você se interessou por mim. Ou será que apenas finalmente estava livre para me ver?
Isso não importa, o fato é que o amor já tinha virado carinho, e eu jamais arriscaria nossa amizade por qualquer espécie de saudosismo ou vaidade.
Serei sempre sua admiradora, uma espécie de fã, e você vai sempre poder cotar comigo porque eu te adoro muito.
Alguns amores devem mesmo ser para sempre platônicos, só assim conquistamos pessoas especiais.
Você gostava da 1, a 2 gostava de você, éramos todos amigos e no final, mesmo te amando, resolvi ficar de fora dessa ciranda.
Dava forças para você ir atrás da 1, incentivava a 2 a ir atrás de você e tudo isso me machucava, mas era o que eu tinha de fazer.
Te amei por muito tempo assim, sempre ouvindo suas dores de outro amor, sempre ouvindo as dores dela em relação ao seu amor, sempre sentindo as minhas, até que sabe, o amor virou carinho.
Um carinho tão gostoso de sentir, tão bem assentado no coração, que acho até que ficou melhor assim.
Não sei dizer se foi de fato platônico, tempos depois, se não me equivoco, você se interessou por mim. Ou será que apenas finalmente estava livre para me ver?
Isso não importa, o fato é que o amor já tinha virado carinho, e eu jamais arriscaria nossa amizade por qualquer espécie de saudosismo ou vaidade.
Serei sempre sua admiradora, uma espécie de fã, e você vai sempre poder cotar comigo porque eu te adoro muito.
Alguns amores devem mesmo ser para sempre platônicos, só assim conquistamos pessoas especiais.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Eu te amo
Você tem medo de dizer "Eu te amo"?
Eu tenho, morro de medo, mas não pelos motivos talvez imaginados.
Eu tenho medo que mal interpretem meu amor.
Quando eu digo que amo não estou dizendo que quero um relacionamento, que quero juras, fidelidades, ou seja lá o que for.
Meu "Eu te amo" significa que te adoro, admiro, quero muito que você seja feliz e adoraria poder, eventualmente, te fazer feliz, que quero entrar no teu mundo, que quero te dar um pedaço do meu.
Quero sim, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a eternidade de nosso relacionamento termine.
Eu deveria ter medo disso?
Eu amo tanto, e meu amor sempre só cresce, mas eu não posso falar, mas eu não posso demonstrar, porque eu posso de repente perder os seres amados por dizer isso.
Eu não quero te prender, nem ser exclusiva, eu nem ao menos quero que você me ame de volta (embora eu vá adorar se você amar), eu só quero a liberdade de te amar.
De repente eu me descubro em uma sociedade onde amar é tabu. E possessão é legal.
Vivo num mundo onde contratos de convivência são bem vindos, mas o amor é temido.
Eu escondo meu amor, eu amo sem falar, eu engulo essa parte minha, mas eu sonho, sonho com o dia em que eu vou poder dizer a todos o quanto os amo e o quanto quero conhecê-los melhor.
Há quem chame de poli amor, pra mim amor já é uma palavra plural.
Há quem diga que amor é um sentimento exclusivo de relacionamentos românticos, quão tolos, isso é paixão e desejo, amor você sempre sente.
Dizer "Eu te amo" não deveria ser uma coisa tão escolhida, tão comedida, tão reservada.
Essa frase deveria ser dita todos os dias, a muitas pessoas, com sinceridade.
O amor, ao meu ver, é o sentimento mais mal compreendido do mundo.
Que pena, porque é o melhor dos sentimentos!
Eu tenho, morro de medo, mas não pelos motivos talvez imaginados.
Eu tenho medo que mal interpretem meu amor.
Quando eu digo que amo não estou dizendo que quero um relacionamento, que quero juras, fidelidades, ou seja lá o que for.
Meu "Eu te amo" significa que te adoro, admiro, quero muito que você seja feliz e adoraria poder, eventualmente, te fazer feliz, que quero entrar no teu mundo, que quero te dar um pedaço do meu.
Quero sim, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a eternidade de nosso relacionamento termine.
Eu deveria ter medo disso?
Eu amo tanto, e meu amor sempre só cresce, mas eu não posso falar, mas eu não posso demonstrar, porque eu posso de repente perder os seres amados por dizer isso.
Eu não quero te prender, nem ser exclusiva, eu nem ao menos quero que você me ame de volta (embora eu vá adorar se você amar), eu só quero a liberdade de te amar.
De repente eu me descubro em uma sociedade onde amar é tabu. E possessão é legal.
Vivo num mundo onde contratos de convivência são bem vindos, mas o amor é temido.
Eu escondo meu amor, eu amo sem falar, eu engulo essa parte minha, mas eu sonho, sonho com o dia em que eu vou poder dizer a todos o quanto os amo e o quanto quero conhecê-los melhor.
Há quem chame de poli amor, pra mim amor já é uma palavra plural.
Há quem diga que amor é um sentimento exclusivo de relacionamentos românticos, quão tolos, isso é paixão e desejo, amor você sempre sente.
Dizer "Eu te amo" não deveria ser uma coisa tão escolhida, tão comedida, tão reservada.
Essa frase deveria ser dita todos os dias, a muitas pessoas, com sinceridade.
O amor, ao meu ver, é o sentimento mais mal compreendido do mundo.
Que pena, porque é o melhor dos sentimentos!
domingo, 26 de abril de 2015
Cartas que nunca foram enviadas II
"De cada amor tu herdarás só o cinismo"
Foi exatamente o que herdei do teu amor
Foi exatamente o que herdei do teu amor
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Cartas que nunca foram enviadas I
Sabe, você se aproveitou de mim.
Eu gostava de você e você sabia disso, ficou comigo por puro interesse.
Roubou meu primeiro beijo, meu amor, meus sonhos e uma boa parte da minha alegria.
Mas tudo bem!
Você era lindo, eu era ingênua, ia acontecer, mais cedo ou mais tarde eu ia me magoar.
O que eu nunca entendi foi o porque você sempre se desculpou tanto depois.
Foi peso na consciência por ter me traído?
Foi culpa por me fazer de palhaça?
Foi arrependimento por me perder?
Você sempre foi sincero, isso eu pude ver em seus olhos. Mas eu nunca tive coragem de te perguntar.
Mesmo hoje, se seu olhar focar o meu, se você me encarar, minhas pernas vão tremer e eu vou me desnortear.
É engraçado, com você eu sempre vou ser aquela criança/mulher quase num transe, sabe, quando as mãos tremes e a cabeça fica repetindo um "haja naturalmente" de forma quase suplicante?
Enfim, por esse motivo nunca consegui conversar com você e perguntar qual o motivo de suas desculpas.
Se te serve de consolo ou acalanto, eu te desculpo. Já desculpei a tanto tempo.
É bem verdade que me magoei, mas também é verdade que foram momentos lindos, gostosos, de um mundo que era novo. Eu fui feliz.
Então, acho que fomos só adolescentes, e que foi normal. E que ninguém tem culpa.
Não vou agradecer, só vou pedir que, se algum dia me encontrar de novo, não se desculpe.
PS: Nem me fite nos olhos, eu não saberia o que fazer.
Eu gostava de você e você sabia disso, ficou comigo por puro interesse.
Roubou meu primeiro beijo, meu amor, meus sonhos e uma boa parte da minha alegria.
Mas tudo bem!
Você era lindo, eu era ingênua, ia acontecer, mais cedo ou mais tarde eu ia me magoar.
O que eu nunca entendi foi o porque você sempre se desculpou tanto depois.
Foi peso na consciência por ter me traído?
Foi culpa por me fazer de palhaça?
Foi arrependimento por me perder?
Você sempre foi sincero, isso eu pude ver em seus olhos. Mas eu nunca tive coragem de te perguntar.
Mesmo hoje, se seu olhar focar o meu, se você me encarar, minhas pernas vão tremer e eu vou me desnortear.
É engraçado, com você eu sempre vou ser aquela criança/mulher quase num transe, sabe, quando as mãos tremes e a cabeça fica repetindo um "haja naturalmente" de forma quase suplicante?
Enfim, por esse motivo nunca consegui conversar com você e perguntar qual o motivo de suas desculpas.
Se te serve de consolo ou acalanto, eu te desculpo. Já desculpei a tanto tempo.
É bem verdade que me magoei, mas também é verdade que foram momentos lindos, gostosos, de um mundo que era novo. Eu fui feliz.
Então, acho que fomos só adolescentes, e que foi normal. E que ninguém tem culpa.
Não vou agradecer, só vou pedir que, se algum dia me encontrar de novo, não se desculpe.
PS: Nem me fite nos olhos, eu não saberia o que fazer.
terça-feira, 21 de abril de 2015
A Sacerdotiza
João desembarcou no aeroporto da Índia meio cansado da viagem, com algumas dores no corpo mais cheio de euforia.
Quando saiu porta a fora rumo a uma aventura se deparou com uma coisa que para ele se assemelhava ao caos. Muito barulho, muita gente, andando em todos os sentidos, e as cores, fortes e vibrantes, presentes em tudo que via, agrediam seu olhar.
Chegou ao hotel com uma espécie de exaustão, em apenas 20 minutos de táxi tinha a impressão de ter visto uma outra vida inteira passar diante de seus olhos.
Pela primeira vez, desde que teve a ideia da viagem, João percebeu que talvez não fosse tudo tão mágico quanto ele imaginou.
Depois de 2 dias João sentia uma espécie de arrependimento, não conseguia entender o que as pessoas falavam, tinha dificuldade para pedir comida, não conseguia ler nada, era impossível andar nas ruas sem ser atropelado por algum carro, tuk tuk, moto, bicicleta ou pedestre, as vestes e os adornos eram excessivos, uma cultura tão discrepante.
Num mundo totalmente a parte do seu, numa realidade totalmente diferente, João começou a se questionar quanto as razões que o levaram a sair de sua cultura, de sua casa, do seu conhecido.
Aquele impulso de mudar e explorar estava agora estremecido e João tentava entender o porque abandonou de bom grado sua zona de conforto.
Por outro lado ainda era um universo a se descobrir, e João queria descobri-lo.
Entender como as pessoas evoluem e convivem em uma sociedade diferente, entender suas crenças e sua fé, sua espiritualidade.
Naquele país louco e caótico, de uma estrutura totalmente falha, as almas pareciam mais salvas, ou pelo menos menos atormentadas.
Um povo com uma espiritualidade elevada, com crenças estruturadas, não totalmente lógicas, mas sólidas o suficiente para em algumas semanas fazerem um homem refletir quanto a sua própria espiritualidade.
Não se tratava de uma religião, de budismo, de hinduísmo, se tratava apenas de saber a alma que se tem por dentro, entender o que se faz nesse mundo e o porque.
Ele percebeu que passou uma vida inteira sem saber quem quera e o que de fato queria, conquistas momentâneas ele tinha e objetivos de curto prazo também, mas nada que pudesse saciar uma vida, nada que levasse tempo o suficiente para distrair uma mente.
Sua viagem, logo de cara, lhe servira para perceber isso. Então ele decidiu que ela poderia servir de busca, e quem sabe poderia ser surpreendente.
Quando saiu porta a fora rumo a uma aventura se deparou com uma coisa que para ele se assemelhava ao caos. Muito barulho, muita gente, andando em todos os sentidos, e as cores, fortes e vibrantes, presentes em tudo que via, agrediam seu olhar.
Chegou ao hotel com uma espécie de exaustão, em apenas 20 minutos de táxi tinha a impressão de ter visto uma outra vida inteira passar diante de seus olhos.
Pela primeira vez, desde que teve a ideia da viagem, João percebeu que talvez não fosse tudo tão mágico quanto ele imaginou.
Depois de 2 dias João sentia uma espécie de arrependimento, não conseguia entender o que as pessoas falavam, tinha dificuldade para pedir comida, não conseguia ler nada, era impossível andar nas ruas sem ser atropelado por algum carro, tuk tuk, moto, bicicleta ou pedestre, as vestes e os adornos eram excessivos, uma cultura tão discrepante.
Num mundo totalmente a parte do seu, numa realidade totalmente diferente, João começou a se questionar quanto as razões que o levaram a sair de sua cultura, de sua casa, do seu conhecido.
Aquele impulso de mudar e explorar estava agora estremecido e João tentava entender o porque abandonou de bom grado sua zona de conforto.
Por outro lado ainda era um universo a se descobrir, e João queria descobri-lo.
Entender como as pessoas evoluem e convivem em uma sociedade diferente, entender suas crenças e sua fé, sua espiritualidade.
Naquele país louco e caótico, de uma estrutura totalmente falha, as almas pareciam mais salvas, ou pelo menos menos atormentadas.
Um povo com uma espiritualidade elevada, com crenças estruturadas, não totalmente lógicas, mas sólidas o suficiente para em algumas semanas fazerem um homem refletir quanto a sua própria espiritualidade.
Não se tratava de uma religião, de budismo, de hinduísmo, se tratava apenas de saber a alma que se tem por dentro, entender o que se faz nesse mundo e o porque.
Ele percebeu que passou uma vida inteira sem saber quem quera e o que de fato queria, conquistas momentâneas ele tinha e objetivos de curto prazo também, mas nada que pudesse saciar uma vida, nada que levasse tempo o suficiente para distrair uma mente.
Sua viagem, logo de cara, lhe servira para perceber isso. Então ele decidiu que ela poderia servir de busca, e quem sabe poderia ser surpreendente.
Continua em "A Imperatriz"...
quinta-feira, 9 de abril de 2015
O Mago
Estava tudo reservado, João já sabia todas as providências que tinha que tomar e agora só faltava a parte burocrática da coisa.
Em algumas semanas João estará embarcando para Indonésia, e de lá depois de algum tempo Vietnã, Tailândia,Índia, Tanzânia, Moçambique, Madagascar...Ele não sabia quando iria voltar, nem se iria voltar.
Pela primeira vez na vida não estava ansioso com o futuro, nem preocupado com o dinheiro, ele só esperava pacientemente a hora de embarcar, de coração e mente completamente abertos, para aprender aquelas coisas que ninguém põe nos livros do colégio.
Queria aprender culturas, ver povos, entender costumes. Queria se perder no mundo para ver se assim encontraria a si mesmo.
Sempre ouviu falar de pessoas que viajaram para estes países e tiveram alguma espécie de revelação espiritual, semi atingiram o nirvana, visualizaram um ente superior ou mais do que tudo isso, finalmente se entenderam e souberam plenamente o que queriam de suas vidas.
João não tinha a menor dúvida de que era o que precisava fazer. Já havia levado seu carro a algumas concessionárias para orçar, já havia chamado corretores para avaliarem seu apartamento e já havia publicado a maioria de suas coisas em sites de venda, afinal, ele não precisaria de uma bicicleta num templo budista.
Ele estava inundado de uma excitação quase mágica, recheado da certeza de que tudo daria certo e empolgado como uma criança.
Já havia checado toda a documentação e vacinas necessárias, já havia estipulado um prazo para vender tudo o que podia, e este ato não era nenhum desapego religioso/espiritual, era apenas um sonho de algo tão maior que João não conseguia exprimir em palavras.
Desde sua infância ele não se sentia dessa forma, parecia que estava a uma noite da excursão anual do colégio, estava empolgado, energético, fascinado.
João estava pronto para encontrar seu destino, como se ele fosse uma pessoa, como se, chegando em algum ponto do caminho, eles fossem ser apresentados um ao outro, se tornariam melhores amigos e seriam inseparáveis.
-Ah, João, João, você há de ser feliz meu caro! - falava sozinho com constância agora.
-A apenas algumas horas, em algum país mágico, tudo vai acontecer e sua vida vai guinar.
João mal cabia em si de tantas esperanças, sonhos e belas ilusões de um futuro bem mais palpável do que jamais foi em sua vida.
Dois meses depois João entrava no aeroporto com os olhos brilhando mais que os sinaleiros da pista.
Estava adiantado, sabia disso, mas não se importava. Fora daquelas portas não havia mais nada pra ele, seus bens estavam todos na mala que ele puxava e seu futuro em algum lugar além continente.
Check in feito, mala despachada, algumas horas e o tão ansiado embarque.
Acomodado na poltrona de classe econômica João se sentia voando em uma nuvem, rumo ao mais alto do céu.
Em algumas semanas João estará embarcando para Indonésia, e de lá depois de algum tempo Vietnã, Tailândia,Índia, Tanzânia, Moçambique, Madagascar...Ele não sabia quando iria voltar, nem se iria voltar.
Pela primeira vez na vida não estava ansioso com o futuro, nem preocupado com o dinheiro, ele só esperava pacientemente a hora de embarcar, de coração e mente completamente abertos, para aprender aquelas coisas que ninguém põe nos livros do colégio.
Queria aprender culturas, ver povos, entender costumes. Queria se perder no mundo para ver se assim encontraria a si mesmo.
Sempre ouviu falar de pessoas que viajaram para estes países e tiveram alguma espécie de revelação espiritual, semi atingiram o nirvana, visualizaram um ente superior ou mais do que tudo isso, finalmente se entenderam e souberam plenamente o que queriam de suas vidas.
João não tinha a menor dúvida de que era o que precisava fazer. Já havia levado seu carro a algumas concessionárias para orçar, já havia chamado corretores para avaliarem seu apartamento e já havia publicado a maioria de suas coisas em sites de venda, afinal, ele não precisaria de uma bicicleta num templo budista.
Ele estava inundado de uma excitação quase mágica, recheado da certeza de que tudo daria certo e empolgado como uma criança.
Já havia checado toda a documentação e vacinas necessárias, já havia estipulado um prazo para vender tudo o que podia, e este ato não era nenhum desapego religioso/espiritual, era apenas um sonho de algo tão maior que João não conseguia exprimir em palavras.
Desde sua infância ele não se sentia dessa forma, parecia que estava a uma noite da excursão anual do colégio, estava empolgado, energético, fascinado.
João estava pronto para encontrar seu destino, como se ele fosse uma pessoa, como se, chegando em algum ponto do caminho, eles fossem ser apresentados um ao outro, se tornariam melhores amigos e seriam inseparáveis.
-Ah, João, João, você há de ser feliz meu caro! - falava sozinho com constância agora.
-A apenas algumas horas, em algum país mágico, tudo vai acontecer e sua vida vai guinar.
João mal cabia em si de tantas esperanças, sonhos e belas ilusões de um futuro bem mais palpável do que jamais foi em sua vida.
Dois meses depois João entrava no aeroporto com os olhos brilhando mais que os sinaleiros da pista.
Estava adiantado, sabia disso, mas não se importava. Fora daquelas portas não havia mais nada pra ele, seus bens estavam todos na mala que ele puxava e seu futuro em algum lugar além continente.
Check in feito, mala despachada, algumas horas e o tão ansiado embarque.
Acomodado na poltrona de classe econômica João se sentia voando em uma nuvem, rumo ao mais alto do céu.
Continua em "A Sacerdotisa"...
quarta-feira, 8 de abril de 2015
O Louco
Naquela manhã tudo estava igual, mas havia algo no ar.
João se levantou, seguiu sua rotina matinal e depois do café da manhã, durante sua corrida, sentiu aquela onda estranha aumentar dentro dele.
Estava inquieto, estava insatisfeito, estava frustrado.
Foi para seu trabalho, para a mesmice e a burocracia de seus papéis, a cara emburrada e a grosseria de seu chefe e alguns colegas que, por mais que tentassem, sucumbiam ao peso da vida tanto quanto ele.
Durante o almoço tal sentimento se avolumara tanto em seu peito que ele mal conseguia engolir a comida.
Era o mesmo restaurante de sempre, o que ele adorava, e ainda assim estava ruim.
Tudo estava cinzento e incômodo.
João não aguentava mais as mesmas pessoas, o mesmo trabalho, a mesma vida morna.
Exatamente isso, não aguentava mais uma vida morna, nem fria o suficiente para se dizer que era ruim (afinal, ele tinha um emprego que o sustentava, casa própria, uma namorada bonita, uma família cuidadosa) mas também não era quente o suficiente para ferver o coração.
A quanto tempo ele não sentia seu coração bater mais forte? A quanto tempo não se empolgava por algo ou alguém? Aonde estavam as paixões da vida?
O telefone tocou despertando-o desse furacão de pensamentos:
-Amorzinho, você vai me levar ao cinema hoje?
-Amanda, nós já filmes em cartaz.
-Claro que não, faltou "simplesmente acontece", lembra?
-Lembro que te falei que não quero ver esse filme.
-Ah, mas eu quero tanto. Estamos combinados, você me pega depois do trabalho, mal posso esperar!
Antes que ele pudesse contestar Amanda já havia desligado e ele estava, novamente, a mercê das vontades dela.
No meio da tarde seu chefe o chamou, era uma demanda nova, exigiria a leitura de inúmeros contratos e algumas cláusulas legai, muito empenho e inúmeras horas extras.
-E então João, o que me diz? Eu poderia passar essa demanda ao André, mas seu trabalho é mais detalhado e essa é uma excelente oportunidade de crescimento para você, além de mostrar seu comprometimento com a empresa.
João se lembrou do dia em que entrou na faculdade, curso que seu pai queria que ele fizesse, se lembrou de quando se formou, tão cansado que sentia que nunca mais queria fazer nada daquilo, de todos os seus empregos até agora, de cada hora extra, de cada noite não dormida, de cada chefe rico enquanto ele continuava pobre.
-João? espero uma resposta meu caro!
Aquele sentimento já era maior que João, estava inquieto, queria algo diferente, novo, impetuoso.
-João?
-Me demito!
-Oi? o que disse?
-Me demito!
-Meu caro, não quer a nova demanda tudo bem, passo ao André, mas realmente acredito que...
-Não importa a demanda, eu não quero mais nada disso, eu me demito. Chega, estou farto dessa merda de emprego.
-Rapaz..
-Não é nada com o senhor, eu só quero fazer o que eu quero, e eu não quero mais nada disso.
Quando saiu do escritório, carregando seus livros, João estava mais aliviado. Ainda não estava bem, mas havia melhorado.
Depois de deixar suas coisas e pensar um pouco no que iria fazer agora, João foi se encontrar com Amanda.
-Você chegou cedo, então, em qual cinema vamos?
-Amanda, não vamos ao cinema.
-Ah, por favor João, eu quero ver esse filme, já combinamos, você não vai fazer as vontades da sua namorada?
-Não
-Como assim não?
-Eu vou fazer as minhas vontades e eu não tenho mais namorada!
-O que você está insinuando João?
-Não estou insinuando, estou afirmando, chega Amanda! Você perdeu o seu boneco, eu cansei!!!
-Nada disso, eu não aceito isso, que boneco? João, você não vai fazer isso comigo!!!
-Eu acabei de fazer Amanda.
Dizendo isso João se virou e saiu andando. Por um bom tempo ainda pode ouvir os berros de Amanda, suas pragas, sua raiva. Achou patético a forma como ela não aceitava perder algo que era seu.
João estava feliz, terrivelmente feliz. Quase leve. Mas ainda tinha alguma coisa, algo que João não sabia o que era.
De noite, andando de um canto ao outro de seu apartamento ele tentava entender. Que sensação era aquela? Era como se ele tivesse que procurar algo, como se tivesse se esquecido de algo, era perturbador, era impossível ficar parado, ele tinha que fazer alguma coisa.
João sentou de frente a seu computador, pensou em usar a internet para distrair um pouco a cabeça e, em uma notícia, encontrou um caminho, algo que podia fazer.
Agora João já tinha uma ideia, e iria apostar todas as suas fichas nela.
João se levantou, seguiu sua rotina matinal e depois do café da manhã, durante sua corrida, sentiu aquela onda estranha aumentar dentro dele.
Estava inquieto, estava insatisfeito, estava frustrado.
Foi para seu trabalho, para a mesmice e a burocracia de seus papéis, a cara emburrada e a grosseria de seu chefe e alguns colegas que, por mais que tentassem, sucumbiam ao peso da vida tanto quanto ele.
Durante o almoço tal sentimento se avolumara tanto em seu peito que ele mal conseguia engolir a comida.
Era o mesmo restaurante de sempre, o que ele adorava, e ainda assim estava ruim.
Tudo estava cinzento e incômodo.
João não aguentava mais as mesmas pessoas, o mesmo trabalho, a mesma vida morna.
Exatamente isso, não aguentava mais uma vida morna, nem fria o suficiente para se dizer que era ruim (afinal, ele tinha um emprego que o sustentava, casa própria, uma namorada bonita, uma família cuidadosa) mas também não era quente o suficiente para ferver o coração.
A quanto tempo ele não sentia seu coração bater mais forte? A quanto tempo não se empolgava por algo ou alguém? Aonde estavam as paixões da vida?
O telefone tocou despertando-o desse furacão de pensamentos:
-Amorzinho, você vai me levar ao cinema hoje?
-Amanda, nós já filmes em cartaz.
-Claro que não, faltou "simplesmente acontece", lembra?
-Lembro que te falei que não quero ver esse filme.
-Ah, mas eu quero tanto. Estamos combinados, você me pega depois do trabalho, mal posso esperar!
Antes que ele pudesse contestar Amanda já havia desligado e ele estava, novamente, a mercê das vontades dela.
No meio da tarde seu chefe o chamou, era uma demanda nova, exigiria a leitura de inúmeros contratos e algumas cláusulas legai, muito empenho e inúmeras horas extras.
-E então João, o que me diz? Eu poderia passar essa demanda ao André, mas seu trabalho é mais detalhado e essa é uma excelente oportunidade de crescimento para você, além de mostrar seu comprometimento com a empresa.
João se lembrou do dia em que entrou na faculdade, curso que seu pai queria que ele fizesse, se lembrou de quando se formou, tão cansado que sentia que nunca mais queria fazer nada daquilo, de todos os seus empregos até agora, de cada hora extra, de cada noite não dormida, de cada chefe rico enquanto ele continuava pobre.
-João? espero uma resposta meu caro!
Aquele sentimento já era maior que João, estava inquieto, queria algo diferente, novo, impetuoso.
-João?
-Me demito!
-Oi? o que disse?
-Me demito!
-Meu caro, não quer a nova demanda tudo bem, passo ao André, mas realmente acredito que...
-Não importa a demanda, eu não quero mais nada disso, eu me demito. Chega, estou farto dessa merda de emprego.
-Rapaz..
-Não é nada com o senhor, eu só quero fazer o que eu quero, e eu não quero mais nada disso.
Quando saiu do escritório, carregando seus livros, João estava mais aliviado. Ainda não estava bem, mas havia melhorado.
Depois de deixar suas coisas e pensar um pouco no que iria fazer agora, João foi se encontrar com Amanda.
-Você chegou cedo, então, em qual cinema vamos?
-Amanda, não vamos ao cinema.
-Ah, por favor João, eu quero ver esse filme, já combinamos, você não vai fazer as vontades da sua namorada?
-Não
-Como assim não?
-Eu vou fazer as minhas vontades e eu não tenho mais namorada!
-O que você está insinuando João?
-Não estou insinuando, estou afirmando, chega Amanda! Você perdeu o seu boneco, eu cansei!!!
-Nada disso, eu não aceito isso, que boneco? João, você não vai fazer isso comigo!!!
-Eu acabei de fazer Amanda.
Dizendo isso João se virou e saiu andando. Por um bom tempo ainda pode ouvir os berros de Amanda, suas pragas, sua raiva. Achou patético a forma como ela não aceitava perder algo que era seu.
João estava feliz, terrivelmente feliz. Quase leve. Mas ainda tinha alguma coisa, algo que João não sabia o que era.
De noite, andando de um canto ao outro de seu apartamento ele tentava entender. Que sensação era aquela? Era como se ele tivesse que procurar algo, como se tivesse se esquecido de algo, era perturbador, era impossível ficar parado, ele tinha que fazer alguma coisa.
João sentou de frente a seu computador, pensou em usar a internet para distrair um pouco a cabeça e, em uma notícia, encontrou um caminho, algo que podia fazer.
Agora João já tinha uma ideia, e iria apostar todas as suas fichas nela.
Continua em "O Mago"...
terça-feira, 7 de abril de 2015
Cartas em jogo
Pela septuagésima oitava vez era Amanda quem estava ligando. João sabia muito bem o que ela queria, e ele estava adiando isso. Sim, adiando, porque com Amanda era impossível evitar, ela sempre conseguia o que queria.
Irritado com o toque do celular e vencido pelo cansaço ele atendeu:
-Alo - disse num tom emburrado
-Caramba João, até parece que está me evitando
-Amanda, eu
-Nada de eu coisíssima nenhuma, eu não liguei pra perguntar se você vai ou não, só pra saber a que horas te encontro - Era típico dela determinar pelos outros
-Amanda, eu não gosto dessas coisas exotéricas, não acredito, não quero passar uma noite vendo charlatões vestidos de ciganos roubarem meu dinheiro!
-Mas eu acredito, custa você respeitar minhas crenças e vontades? - Ah, o exímio poder de reverter o jogo
-Está bem Amanda, as 20h então, mas não me peça para sorrir e nem para pagar por nada
-Ah amor, você vai sorrir sim, quando as cartas revelarem nosso maravilhoso futuro juntos.
-Até de noite Amanda
-Até!
Ele estava completamente drenado, porque namorava um monstro controlador?
Não se lembrava mais do motivo de ter se apaixonado por ela, talvez nunca tivesse, mas o fato é que agora estavam juntos, e conhecendo ela, daria muito trabalho terminar. Ele não queria ter de passar por isso, era mais fácil ser arrastado a toda sorte de lugares como um boneco.
E naquela noite, as 20h, ele estava parado na porta de um pavilhão, com frio, com fome, querendo tomar um banho e curtir um filme em sua cama, esperando por aquela que não era a mulher da sua vida.
Ouvia ao longe aquela música, que não sabia dizer se era espanhola, tipo um flamenco, ou se era cigana, mas que de fato era alegre e parecia ter guizos e batidas de pé ao fundo.
Amanda chegou atrasada como de costume, com uma ansiedade que não permitiu a João nem lhe dar um boa noite. Já foi logo arrastando-no para dentro do pavilhão, fazendo-o pagar as entradas, e mergulhando-o em um mundo de cores, cheiros, música alta, e muita confusão visual e sonora.
João estava aturdido, se sentia praticamente atacado por outra cultura, e mal teve tempo de processar o forte cheiro de incenso que ardia em suas narinas já se viu sentado diante de uma mesa, com pano preto, um bolo de cartas, e uma mulher de cabelos bem negros, sorriso torto, que lhe pedia a mão esquerda.
Aquilo foi demais para ele, levantou num baque, com uma raiva incontrolável
-Amanda, eu te falei que não quero isso!!!- falou berrando, em parte pela raiva, em parte porque a música o exigia.
-Você não quer saber do nosso futuro juntos? Você não se preocupa com meus sentimentos e minhas aflições?
-Se são SEUS sentimentos e SUAS aflições faça a leitura você, eu já fiz demais em vir aqui! Vou dar uma volta.
Saiu andando sem esperar uma resposta e sem olhar para trás. Sabia que devia ter terminado, naquele momento, com a desculpa perfeita, com uma frase de efeito, uma saída triunfal. Mas se limitou a dar uma volta, sabia que quando ela o encontrasse na multidão ele ainda teria de pagar a tal leitura, ele não suportava mais aquela situação.
Estava tão imerso em tais pensamentos que não percebeu quando a moça pousou a mão em seu ombro e precisou que ela o chamasse para que ele voltasse ao lugar e ao momento em que se encontrava.
-Você está bem?
-Estou sim, obrigado, só um pouco confuso com todo esse exoterismo.
-Não gosta do oculto?
-Não acredito, só isso. E hoje em especial o acho barulhento, fedido e com cores demais.
Ela sorriu um riso largo, tinha uma boca bonita pintada de um batom vinho, que contrastava com sua pele clara e seus cabelos castanhos.
-Você pode se surpreender com o que você não entende. Tudo isso que você não acredita pode lhe proporcionar uma jornada pessoal inesquecível.
João ficou mudo, não queria mais discutir sobre isso, nem com Amanda, nem com a bela jovem desconhecida.
-Bom, você não precisa acreditar, mas porque não transforma todo esse mau humor em positividade e, já que está aqui mesmo, não transforma o barulho em música, o fedor em perfume e as cores num arco iris?
-Mas como posso fazer isso?
-Venha dançar comigo.
E antes que João pudesse responder qualquer coisa a jovem o conduziu com a maior leveza do mundo ao centro de um espaço reservado para os dançarinos e o embalou num ritmo diferente, embalando-o com o perfume de seu cabelo e o rodar de sua saia.
Dançaram por uma eternidade, João não conseguia precisar o tempo que estivera ali, estava em um torpor magnífico do qual só despertou quando a jovem sussurrou em seu ouvido:
-Tenha bons sonhos João!
De repente João se viu atirado de volta a realidade, parado, sozinho naquela pista de dança. Se sentia mais perdido do que quando chegou naquele espaço. Ouviu os berros de Amanda na beirada da pista e se dirigiu até ela.
-Por onde você esteve? Eu estava te procurando feito uma louca. Vamos, você precisa pagar a cartomante. Nosso futuro será maravilhoso, se lhe interessa saber, casaremos em um ano, e eu vou fazer uma viagem que vai mudar minha vida, teremos um cachorro e dois gatos, ah, aqui estamos, são cem reais querido, moça, desculpe a demora, eu não o encontrava.
João pagou a cartomante, e mais alguns brincos, incensos, um vestido, um livro. Já não se importava mais, estava exausto. Foi como despertar de um lindo sonho para uma terrível realidade. Na volta para casa Amanda não parava de tagarelar sobre o futuro dos dois e João sentia arrepios todo vez que ouvia "filhos", "para sempre" ou "nós".
Depois de deixar Amanda em casa e seguir para sua própria casa ele roboticamente tomou um banho e foi se deitar ignorando qualquer fome que sentia. Estava desesperado por poder dormir e tentar se refazer daquela estranha noite.
Quando estava quase pegando no sono a voz da moça de lábios cor de vinho ecoou em sua cabeça
E seu último pensamento, quase forçado, antes de apagar por completo foi - Como ela sabia meu nome?
Irritado com o toque do celular e vencido pelo cansaço ele atendeu:
-Alo - disse num tom emburrado
-Caramba João, até parece que está me evitando
-Amanda, eu
-Nada de eu coisíssima nenhuma, eu não liguei pra perguntar se você vai ou não, só pra saber a que horas te encontro - Era típico dela determinar pelos outros
-Amanda, eu não gosto dessas coisas exotéricas, não acredito, não quero passar uma noite vendo charlatões vestidos de ciganos roubarem meu dinheiro!
-Mas eu acredito, custa você respeitar minhas crenças e vontades? - Ah, o exímio poder de reverter o jogo
-Está bem Amanda, as 20h então, mas não me peça para sorrir e nem para pagar por nada
-Ah amor, você vai sorrir sim, quando as cartas revelarem nosso maravilhoso futuro juntos.
-Até de noite Amanda
-Até!
Ele estava completamente drenado, porque namorava um monstro controlador?
Não se lembrava mais do motivo de ter se apaixonado por ela, talvez nunca tivesse, mas o fato é que agora estavam juntos, e conhecendo ela, daria muito trabalho terminar. Ele não queria ter de passar por isso, era mais fácil ser arrastado a toda sorte de lugares como um boneco.
E naquela noite, as 20h, ele estava parado na porta de um pavilhão, com frio, com fome, querendo tomar um banho e curtir um filme em sua cama, esperando por aquela que não era a mulher da sua vida.
Ouvia ao longe aquela música, que não sabia dizer se era espanhola, tipo um flamenco, ou se era cigana, mas que de fato era alegre e parecia ter guizos e batidas de pé ao fundo.
Amanda chegou atrasada como de costume, com uma ansiedade que não permitiu a João nem lhe dar um boa noite. Já foi logo arrastando-no para dentro do pavilhão, fazendo-o pagar as entradas, e mergulhando-o em um mundo de cores, cheiros, música alta, e muita confusão visual e sonora.
João estava aturdido, se sentia praticamente atacado por outra cultura, e mal teve tempo de processar o forte cheiro de incenso que ardia em suas narinas já se viu sentado diante de uma mesa, com pano preto, um bolo de cartas, e uma mulher de cabelos bem negros, sorriso torto, que lhe pedia a mão esquerda.
Aquilo foi demais para ele, levantou num baque, com uma raiva incontrolável
-Amanda, eu te falei que não quero isso!!!- falou berrando, em parte pela raiva, em parte porque a música o exigia.
-Você não quer saber do nosso futuro juntos? Você não se preocupa com meus sentimentos e minhas aflições?
-Se são SEUS sentimentos e SUAS aflições faça a leitura você, eu já fiz demais em vir aqui! Vou dar uma volta.
Saiu andando sem esperar uma resposta e sem olhar para trás. Sabia que devia ter terminado, naquele momento, com a desculpa perfeita, com uma frase de efeito, uma saída triunfal. Mas se limitou a dar uma volta, sabia que quando ela o encontrasse na multidão ele ainda teria de pagar a tal leitura, ele não suportava mais aquela situação.
Estava tão imerso em tais pensamentos que não percebeu quando a moça pousou a mão em seu ombro e precisou que ela o chamasse para que ele voltasse ao lugar e ao momento em que se encontrava.
-Você está bem?
-Estou sim, obrigado, só um pouco confuso com todo esse exoterismo.
-Não gosta do oculto?
-Não acredito, só isso. E hoje em especial o acho barulhento, fedido e com cores demais.
Ela sorriu um riso largo, tinha uma boca bonita pintada de um batom vinho, que contrastava com sua pele clara e seus cabelos castanhos.
-Você pode se surpreender com o que você não entende. Tudo isso que você não acredita pode lhe proporcionar uma jornada pessoal inesquecível.
João ficou mudo, não queria mais discutir sobre isso, nem com Amanda, nem com a bela jovem desconhecida.
-Bom, você não precisa acreditar, mas porque não transforma todo esse mau humor em positividade e, já que está aqui mesmo, não transforma o barulho em música, o fedor em perfume e as cores num arco iris?
-Mas como posso fazer isso?
-Venha dançar comigo.
E antes que João pudesse responder qualquer coisa a jovem o conduziu com a maior leveza do mundo ao centro de um espaço reservado para os dançarinos e o embalou num ritmo diferente, embalando-o com o perfume de seu cabelo e o rodar de sua saia.
Dançaram por uma eternidade, João não conseguia precisar o tempo que estivera ali, estava em um torpor magnífico do qual só despertou quando a jovem sussurrou em seu ouvido:
-Tenha bons sonhos João!
De repente João se viu atirado de volta a realidade, parado, sozinho naquela pista de dança. Se sentia mais perdido do que quando chegou naquele espaço. Ouviu os berros de Amanda na beirada da pista e se dirigiu até ela.
-Por onde você esteve? Eu estava te procurando feito uma louca. Vamos, você precisa pagar a cartomante. Nosso futuro será maravilhoso, se lhe interessa saber, casaremos em um ano, e eu vou fazer uma viagem que vai mudar minha vida, teremos um cachorro e dois gatos, ah, aqui estamos, são cem reais querido, moça, desculpe a demora, eu não o encontrava.
João pagou a cartomante, e mais alguns brincos, incensos, um vestido, um livro. Já não se importava mais, estava exausto. Foi como despertar de um lindo sonho para uma terrível realidade. Na volta para casa Amanda não parava de tagarelar sobre o futuro dos dois e João sentia arrepios todo vez que ouvia "filhos", "para sempre" ou "nós".
Depois de deixar Amanda em casa e seguir para sua própria casa ele roboticamente tomou um banho e foi se deitar ignorando qualquer fome que sentia. Estava desesperado por poder dormir e tentar se refazer daquela estranha noite.
Quando estava quase pegando no sono a voz da moça de lábios cor de vinho ecoou em sua cabeça
"Tenha bons sonhos João"
E seu último pensamento, quase forçado, antes de apagar por completo foi - Como ela sabia meu nome?
Continua em "O Louco"...
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Primeiro Ato
A música suave estava tocando, o vinho, já aberto, fora meticulosamente escolhido, as cortinas abertas revelavam uma noite clara e mística.
Ela estava ansiosa, bebericava em sua taça, repassando todos os detalhes mentalmente.
Fizera o convite de forma insinuante, tomara um banho caprichado e usava seu melhor perfume, a lingerie era nova, extremamente sexy, o vinho frutado e suave era convidativo, tudo perfeito.
Ela sabia muito bem, a única coisa que faltava era ela colocar seu olhar mais pernicioso, provocativo e safado, morder de leve o canto do lábio e voilá, teria uma noite incrível.
Mas estava ansiosa, a muito tempo não usava esse olhar, a muito tempo não tinha uma noite incrível, a muito tempo não desejava um homem como desejava aquele homem.
A campainha tocou arrepiando todos os pelos de seu corpo, ela conferiu o cabelo, o batom e o sorriso e foi abrir a porta.
Ele estava lindo, simples, com aquele jeito de sempre e aquele sorriso de cafa que era parte do charme dele.
Trocaram algumas palavras, perguntas banais sobre o dia, não importa, ela não estava ouvindo mesmo. Suas mãos suavam e seu coração acelerava quando ela mirava aqueles lindos olhos, os lábios, ombros, braços...
Colocou seu olhar, serviu-lhe vinho e depois do brinde, antes de tomar o gole que lhe era devido, deu a mordidinha no canto do lábio.
Mas algum papo, tremedeira, arrepios, taquicardia e um olhar sustentado. Depois de 20 minutos já estavam se atracando no sofá, com volúpia, desejo, impulsos.
As roupas fugiam dos corpos enquanto esses rolavam para o chão.
Tanto instinto, suor, gemidos, despudores, gozos.
Uma dança dessincronizada, improvisada, apreciada. Bailarinos do prazer, contorciam seus corpos ao som rouco que fugia de suas gargantas enquanto entregavam suas almas um ao outro por uma noite apenas.
Ela pensava se deveria se declarar, pedir mais uma noite ou somente dar um tchau enquanto ele dormia. Quando acordou na manhã seguinte ela não estava mais lá. Não havia bilhete, nem café na cama, nem romance.
Só havia a certeza de que bastaria um telefonema e um olhar para que o espetáculo se repetisse.
Ela estava ansiosa, bebericava em sua taça, repassando todos os detalhes mentalmente.
Fizera o convite de forma insinuante, tomara um banho caprichado e usava seu melhor perfume, a lingerie era nova, extremamente sexy, o vinho frutado e suave era convidativo, tudo perfeito.
Ela sabia muito bem, a única coisa que faltava era ela colocar seu olhar mais pernicioso, provocativo e safado, morder de leve o canto do lábio e voilá, teria uma noite incrível.
Mas estava ansiosa, a muito tempo não usava esse olhar, a muito tempo não tinha uma noite incrível, a muito tempo não desejava um homem como desejava aquele homem.
A campainha tocou arrepiando todos os pelos de seu corpo, ela conferiu o cabelo, o batom e o sorriso e foi abrir a porta.
Ele estava lindo, simples, com aquele jeito de sempre e aquele sorriso de cafa que era parte do charme dele.
Trocaram algumas palavras, perguntas banais sobre o dia, não importa, ela não estava ouvindo mesmo. Suas mãos suavam e seu coração acelerava quando ela mirava aqueles lindos olhos, os lábios, ombros, braços...
Colocou seu olhar, serviu-lhe vinho e depois do brinde, antes de tomar o gole que lhe era devido, deu a mordidinha no canto do lábio.
Mas algum papo, tremedeira, arrepios, taquicardia e um olhar sustentado. Depois de 20 minutos já estavam se atracando no sofá, com volúpia, desejo, impulsos.
As roupas fugiam dos corpos enquanto esses rolavam para o chão.
Tanto instinto, suor, gemidos, despudores, gozos.
Uma dança dessincronizada, improvisada, apreciada. Bailarinos do prazer, contorciam seus corpos ao som rouco que fugia de suas gargantas enquanto entregavam suas almas um ao outro por uma noite apenas.
Ela pensava se deveria se declarar, pedir mais uma noite ou somente dar um tchau enquanto ele dormia. Quando acordou na manhã seguinte ela não estava mais lá. Não havia bilhete, nem café na cama, nem romance.
Só havia a certeza de que bastaria um telefonema e um olhar para que o espetáculo se repetisse.
segunda-feira, 30 de março de 2015
Rosa alma
Me lembro de nossa primeira trombada, por assim dizer. Eu, criança, aprendendo a andar de bicicleta, ela já uma jovem senhora, cheia de mistérios, perigos e encantos.
Num desequilíbrio em cima de duas rodas fui parar em cima dela, fiquei presa e só com ajuda de minha mãe e minha avó foi que consegui sair.
Toda arranhada e sangrando um pouco, perguntei sem sentir dor alguma :
-Que planta é essa mamãe?
-É uma roseira minha filha, mas tome cuidado, ela tem espinhos, veja como você está arranhada.
Me aproximei e observei uma de suas rosas, cor de rosa claro, linda, delicada, toda dobrada.
Foi paixão!
Depois desse dia ainda caí e fiquei presa nela diversas vezes, de bicicleta, escalando a grade, ou simplesmente lhe dando um abraço.
Todos os dias dedicava um tempo a lhe apreciar, quando era dia de fazer jardim sempre me dedicava a podar-lhe os galhos mais rebeldes e tirar-lhe as flores despetaladas e as folhas mortas.
Cresci respeitando aquela senhora que insistia em me cortar ou espetar diariamente.
Um dia notei suas flores, outrora rosas, ficarem esbranquiçadas. Suas folhas, sempre de um verde tão escuro, ficarem claras e amareladas.
E eu vi minha tão preciosa paixão morrer de velhice, coisa raríssima para plantas como uma roseira.
Estava lá no dia em que foi arrancada e chorei tudo que ela merecia.
Tenho fotos, desenhos e cicatrizes que me fazem sempre lembrar dela.
Não suportei o vazio e pedi a minha mãe que plantasse outra roseira.
Ela me deixou escolher, entre tantas cores e modelos.
E pesquisando a fundo tive uma segunda paixão, chama-se Príncipe Negro, e é até hoje meu amor mais platônico.
Nunca consegui fazer com que vingasse, não importa quantas mudas tenha tentado (e não foram muitas, ela é difícil de encontrar)
Desiludida e rejeitada por este amor, fui surpreendida belo dia quando vi, naquele buraco em meu peito, uma nova roseira plantada.
Era tímida e franzina, uma criança ainda, e me cativou como toda criança faz.
Demorou muito a florir e requereu cuidados e atenção especiais
Depois de sua adolescência virou uma louca desvairada, revelou-se uma roseira-trepadeira, e chegou até o teto da casa!
Floresce em qualquer estação do ano, com suas rosas pink tão forte que chega a ser um misto de vinho. Pétalas dobradas e curvas, sensuais e descaradas.
Me espetou tanto quanto a outra, mas com bem menos delicadeza, e sempre se mostrou rainha soberana.
Hoje a rainha é destronada, no auge de sua juventude, por ultrapassar limites que nenhuma outra jamais ousou.
Hoje acabou seu reinado por sua ousadia.
Não mais irei me espetar, me cortar nem me machucar nela, não mais terei seu perfume, suas flores, e sua maestria em contornar os obstáculos.
Hoje, desde aquela queda, não mais terei uma roseira em minha vida.
Àquelas duas, tão diferentes em altivez e estilo, tão distintas e ainda assim tão apreciáveis, meu muitíssimo obrigada por me ensinar a ter rosa alma!
sexta-feira, 27 de março de 2015
Ela
Ela cresceu recebendo duas informações
1 - Mulheres tem de fazer joguinhos no amor.
Era sempre isso que sua mãe, suas tias e qualquer mulher
mais velha lhe ensinava.
Regras de ouro, básicas, como:
- · Não puxe assunto para não parecer fácil;
- · diga que está saindo com outro, deixe ele enciumado;
- · Ignore por pelo menos 3 dias depois que se virem;
E por aí vai, mas existia uma, que era o supra sumo, o
mantra a ser fielmente repetido e aplicado e idolatrado
Não deixe ele saber que você gosta dele!
2 - Você não é ninguém.
Exatamente, viviam dizendo para ela, indiretamente é claro,
que ela não era bonita, não era inteligente, não era legal, não era desejável,
enfim, entre mídia, pessoas maldosas e pais exigentes ela aprendeu que nada
nela era bom
Ela não gostava de nada disso, mas se lhe diziam, devia ser verdade.
E assim, quando conheceu ele, e se apaixonou fortemente, ela
simplesmente não soube o que fazer.
De acordo com a regra de ouro, ela não podia deixar ele
saber de seus sentimentos. Como diabos esperavam que ele percebesse e retribuísse
seu amor se ela não podia dizer a ele que o amava?
Bom, as velhas sábias diriam "Deixe-o deslumbrado por
você, mostre tudo de bom que você tem e faça com que ele se apaixone e se
declare"
Até aí, seguindo um a lógica racional, tudo bem, fazia
sentido.
Mas existia um imenso porém, ela não era apaixonante.
Ela não era nada nem ninguém.
Como fazê-lo se apaixonar por ela se ela não tinha nada de
bom? Não era bonita, não era legal, não era charmosa nem inteligente....
Acreditando, mesmo que inconscientemente, em tudo isso, ela
percebeu que sua única opção era matar esse amor dentro do peito
E tratou de fazer isso, mas o amor era forte, e matá-lo um
pouco a cada dia a desgastava.
Um belo dia ele conheceu alguém, alguém que cresceu sem
saber dessas coisas que ela sabia, alguém que falou de seus sentimentos para
ele, que pecado, de fato falou.
Alguém que teve seus sentimentos retribuídos e ficou com ele
Ah, pobrezinha, como ela chorou. Aquele amor mau matado
dentro dela se revoltou e a maltratou bastante, doeu terrivelmente no peito.
Ela sofreu, ela odiou, ela magoou ele, chegou até a jurar
que não precisava dele e que ele não era ninguém. E tudo isso só a fez sofrer
muito mais.
Então ela se odiou, se odiou por não ser ninguém, se odiou
por não ser boa o suficiente para ele, se odiou por odiar ele, se odiou por
amar ele, se odiou por não falar para ele que o amava, se odiou por acreditar
no que cresceu aprendendo, se odiou por se odiar
E por mais que ela amasse ou odiasse, isso só acontecia
dentro dela, de fora a vida seguia.
Ele terminou com este alguém, ele conheceu e ficou com
muitos outros alguéns, mas nunca com ela.
E ela?
E ela descobriu que amor não morre, mas mata.
quinta-feira, 26 de março de 2015
Ecocardiograma
Eu sempre achei que o amor doía.
Não que seja um mau sentimento, muito pelo contrário, é o melhor que já experimentei.
Mas, assim como tristeza faz parte da vida, achava que aquela dor no peito e a falta de ar faziam parte do amor.
Achava que as tonturas leves eram ocasionadas pelas paixões, que o coração acelerado era sinal de estar perto de quem se gosta, e que aquela sensação de fraqueza e lassidão eram típicas de sentimento não correspondido.
Cresci acreditando nisso, sentindo isso e quase sempre fortalecendo e reafirmando essa teoria.
Que ingenuidade a minha!
Tudo não passa de um sopro no coração.
Aquele ruido não é o rugir de um sentimento avassalador, é só meu sangue se esforçando por passar numa válvula cardíaca defeituosa, as tonturas não são paixão, é falta de oxigenação no cérebro, a arritmia não é por reciprocidade, é apenas meu coração tentando compensar com velocidade o que ele deixou a desejar em força e as dores no peito não são o mais puro amor, são só indícios de um órgão imperfeito.
Como foi esclarecedora a descoberta, agora eu sei o porque amo tão errado. Como poderia amar certo um coração quebrado?
Agora me resta esperar que a digoxina possa curar as paixões não correspondidas que me remoem por dentro, e, na pior das hipóteses, que um cateterismo possa apagar as mágoas de ser descartada.
Não que seja um mau sentimento, muito pelo contrário, é o melhor que já experimentei.
Mas, assim como tristeza faz parte da vida, achava que aquela dor no peito e a falta de ar faziam parte do amor.
Achava que as tonturas leves eram ocasionadas pelas paixões, que o coração acelerado era sinal de estar perto de quem se gosta, e que aquela sensação de fraqueza e lassidão eram típicas de sentimento não correspondido.
Cresci acreditando nisso, sentindo isso e quase sempre fortalecendo e reafirmando essa teoria.
Que ingenuidade a minha!
Tudo não passa de um sopro no coração.
Aquele ruido não é o rugir de um sentimento avassalador, é só meu sangue se esforçando por passar numa válvula cardíaca defeituosa, as tonturas não são paixão, é falta de oxigenação no cérebro, a arritmia não é por reciprocidade, é apenas meu coração tentando compensar com velocidade o que ele deixou a desejar em força e as dores no peito não são o mais puro amor, são só indícios de um órgão imperfeito.
Como foi esclarecedora a descoberta, agora eu sei o porque amo tão errado. Como poderia amar certo um coração quebrado?
Agora me resta esperar que a digoxina possa curar as paixões não correspondidas que me remoem por dentro, e, na pior das hipóteses, que um cateterismo possa apagar as mágoas de ser descartada.
quarta-feira, 18 de março de 2015
The Ballad Of The Sad Young Men
Diego tinha um inimigo invisível, audacioso e poderoso, imbatível.
Isso o desesperava.
Todas as noites Diego saía, o destino sempre eram os bares, de preferência os mais badalados da cidade.
Ele conhecia bem aquele cenários, que embora variasse um pouco, era em sua maior parte quase o mesmo.
Tinha um belo balcão, tinham as mesas também, mas estas eram para casais ou grupos de amigos, o balcão, soberano, era para os homens como ele.
Tinha um garçom, ele sempre tinha o cuidado em ficar próximo dos mais ágeis.
Tinha uma música, ás vezes pop, noutras rock, podia ter uma banda tocando, mas ele de fato amava os que tinham jazz.
Tinha luzes, algumas vezes piscantes, noutras coloridas, quase sempre meio tom.
Tinham os drinks, um paraíso de copos e cores, misturas e sabores, álcool em formatos de diferentes sonhos.
Diego já se esquecera de como era o céu noturno e que cara tinham as estrelas, seu universo rodava em neon e ele dirigia pela cidade atrás daquilo que era quase viciante e que ele usava para se esquecer de seu inimigo.
Todas as noites ele se afogava, em seus drinks e em sua maravilhosa juventude, cantava no frio de inverno, fugia de seus medos, matava seu próprio coração, e encontrava uma belíssima jovem para lhe fazer companhia.
Sim, uma mulher, um sorriso, alguém que ele pudesse segurar por alguns instantes.
Essas pobres garotas faziam o seu melhor para satisfazê-lo, alegrá-lo e a lua assistia tudo em sua ascensão.
Todas as noites Diego brincava de fazer amor.
Diego estava morrendo, da forma mais cruel possível... envelhecendo.
Seu inimigo, o tempo, não o poupava nem um dia, e lhe ia roubando a vida e a juventude aos poucos.
Isso o desesperava.
Oh gentil, fria e cálida lua, guie o jovem e triste Diego até sua casa esta noite.
"Kiss your dreams goodbye
Isso o desesperava.
Todas as noites Diego saía, o destino sempre eram os bares, de preferência os mais badalados da cidade.
Ele conhecia bem aquele cenários, que embora variasse um pouco, era em sua maior parte quase o mesmo.
Tinha um belo balcão, tinham as mesas também, mas estas eram para casais ou grupos de amigos, o balcão, soberano, era para os homens como ele.
Tinha um garçom, ele sempre tinha o cuidado em ficar próximo dos mais ágeis.
Tinha uma música, ás vezes pop, noutras rock, podia ter uma banda tocando, mas ele de fato amava os que tinham jazz.
Tinha luzes, algumas vezes piscantes, noutras coloridas, quase sempre meio tom.
Tinham os drinks, um paraíso de copos e cores, misturas e sabores, álcool em formatos de diferentes sonhos.
Diego já se esquecera de como era o céu noturno e que cara tinham as estrelas, seu universo rodava em neon e ele dirigia pela cidade atrás daquilo que era quase viciante e que ele usava para se esquecer de seu inimigo.
Todas as noites ele se afogava, em seus drinks e em sua maravilhosa juventude, cantava no frio de inverno, fugia de seus medos, matava seu próprio coração, e encontrava uma belíssima jovem para lhe fazer companhia.
Sim, uma mulher, um sorriso, alguém que ele pudesse segurar por alguns instantes.
Essas pobres garotas faziam o seu melhor para satisfazê-lo, alegrá-lo e a lua assistia tudo em sua ascensão.
Todas as noites Diego brincava de fazer amor.
Diego estava morrendo, da forma mais cruel possível... envelhecendo.
Seu inimigo, o tempo, não o poupava nem um dia, e lhe ia roubando a vida e a juventude aos poucos.
Isso o desesperava.
Oh gentil, fria e cálida lua, guie o jovem e triste Diego até sua casa esta noite.
"Kiss your dreams goodbye
...
Slowly dies the heart"
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
Limbo
Quando abriu os olhos continuou sem enxergar.
Estava num lugar tão escuro que poderia mover sua mão rente
a face que não veria nada. Era levemente úmido, o que dava uma sensação
constante de arrepio e uma leve friagem.
Ficou sentada ali por um tempo que lhe pareceu a eternidade,
não sabia onde estava, nem como havia ido parar lá, somente acordara para
aquele nada.
Resolveu buscar por qualquer coisa naquele lugar, tinha a
impressão que ao longe, próximo a linha do horizonte, havia uma erma luz, mas
para onde quer que olhasse via esse tal horizonte.
Saiu caminhando, não havia nada em que tropeçar, o piso era
plano, liso, sem nenhuma espécie de relevo, falha, ranhura.
Não haviam paredes, nem objetos, nem mais ninguém.
Gritou, um grito agudo, quase apavorado e ouviu apenas seu
eco.
Mais uma vez e mais uma e mais uma, sempre o eco.
Começou a correr, meio trôpega no começo e cada vez mais
rápido até perder o fôlego.
O nada continuava lá, como se não tivesse saído do lugar, ou
pior, saíra, mas aquele lugar era infinito.
Quando duas furtivas lágrimas lhe correram dos olhos ela
começou a ter no coração aquela imensa necessidade de procurar alguma coisa,
não sabia o que era, mas aquela necessidade foi se tornando um desespero
crescente, tinha que encontrar!!
Em meio a essa angústia continuou vagando, tateando,
caminhando e até engatinhando, onde estava, ela precisava achar!
Sua respiração foi ficando mais pesada, ou era o ar que
estava mais espesso? Se sentiu levemente sufocada e percebeu que havia uma leve
névoa no ar.
Intensificou sua procura, respirar estava um pouco mais
difícil e agora seus olhos ardiam levemente.
Foi então que ela pode ouvir, como se fosse uma canção, como
se fosse uma anunciação, e aquele som lhe arrancou lágrimas fortes, quase
violentas. Era o doce som de uma risada, não chegava a ser uma gargalhada, mas
era um riso meigo e inocente. Ela conhecia bem esse som.
O riso da pessoa que ela deveria ter amado e cuidado mais.
Como era bom de ouvir e ao mesmo tempo tremendamente
aflitivo saber que perdera aquele riso, aquela pessoa.
Agora ela sabia o que procurava, mas lhe estava tão
distante, ela nem ao menos fazia ideia de como iria encontrar tal pessoa.
No passado a amara, cuidara dela, mas foi negligente, foi
dura, áspera e algumas vezes desleal. Fustigou e maltratou tanto aquele pequeno
ser, e nem percebeu que tinha perdido essa pessoa tão especial por um tempo.
Agora seu coração doía mais que o suportável e ela chorava
convulsivamente, como pudera perdê-la? Como encontrá-la? Como ter o direito de
amá-la novamente?
Ela não sabia a resposta para nenhuma dessas perguntas e
chorava mais forte a cada vez que se lembrava dos momentos de desamor, de
descaso e descarinho, cada vez que pensava em todos os momentos que poderiam
ter sido, em como tudo poderia ser diferente, em todo um futuro que elas nunca
tiveram juntas.
Sofreu pelo que foi e pelo que nunca teve a chance de ser.
Um passado consumado, um futuro natimorto.
Lembrou que um dia a atacou, a chamou de feia, de burra, de
inútil, a odiou!
E odiou tanto e por tanto tempo, um ódio crescente e genuíno.
E agora queria apenas a oportunidade de implorar seu perdão e seu amor.
Olhos embargados pelas lágrimas, mente atordoada por tudo
que se passava, ela seguiu cambaleante. Podia ter errado, mas estava disposta a
concertar, podia ter odiado, mas precisava de perdão, podia ter perdido, mas
queria muito encontrar e amar!
Seguiu procurando, aquele riso seria sua salvação, quando
finalmente conseguisse encontrar e, enfim, amar a si mesma, estaria livre do
labirinto escuro de sua alma e poderia ter novamente aquele riso nos lábios!
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Ás poesias humanas
E que atire a primeira pedra aquela que não amou intensamente!
Quem nunca se entregou totalmente, sem calcular riscos, sem
se proteger, sem nem pensar?
Quem nunca quebrou o coração e a cara por causa disso?
E depois pintou ou cortou o cabelo, usou esmalte e batom
vermelho, e saiu com os cabelos ao vento tentando se convencer de que era forte
o suficiente para superar isso?
E quando chegou em casa desabou no choro borrando o rímel
jurando que foi um engano, a forte não era ela não, que ela é aquela que
precisa de colo e cafuné?
E depois? Bom, sobreviveu a tudo isso porque era forte sim.
Seguiu com a vida, deixou o tempo passar, se apaixonou de
novo e, talvez, um pouco mais protegida, se entregou mais inúmeras vezes.
Se entregar faz parte, porque amar é arte, e no palco do drama,
os homens que me perdoem, mas nós mulheres fazemos a fama.
Corações remendados, maquiagens concertadas, nas lágrimas
seguradas e nos riscos assumidos, quantos risos largos, saltos altos, quantos
vermelhos, nas unhas, nos batons ou nos cabelos, quantos brigadeiros e bolos de
chocolate conselheiros.
É a amiga, a taróloga, a avó e o cabelereiro, é a esperança,
aquela que dança em nossos vestidos rodados. É a cabeça e a razão, que lutam
ferozmente com nosso coração, é emoção, pura, simples, transbordante.
Os hormônios, esses demônios, as carências e inocências, os
medos e arrependimentos.
Delicadas e fortes, tão frágeis e ameaçantes, detentoras de
tudo e nada, senhoras de seus destinos sem saber disso, deusas submissas,
escravas que dominam o mundo.
Flores de meiguice que florescem no deserto.
Amam como se suas vidas dependessem disso, e vivem, como se
amar dependesse disso.
Ave, Ave, deusas pagãs, perdidas em seus afãs.
Salve, Salve, o fim de um conto, tão tempestuoso,
inconstante e confuso quanto aquela que o escreveu.
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Conto de fadas
Era uma vez uma princesa.
Não, não era exatamente frágil, nem precisamente indefesa.
Mas era um tanto quanto inocente. Ela não sabia cantar, mas tinha um dom, que
era também sua maldição. Tinha um coração que aceitava todo mundo, se
apaixonava fácil, compreendia muito e confiava cegamente.
Quando essa princesa nasceu ela não foi confinada em uma
torre, nem amaldiçoada, nem feita de empregada, e muito menos foi acusada de
ser a mais bela. Ela só viveu, como qualquer outra pessoa, teve uma infância normal,
uma adolescência rebelde, uma vida adulta meio não tão adulta assim.
Pra podermos ter história, porque sem problema não tem trama
no enredo, digamos que, embora não tenha sido confinada em uma torre, a
princesa foi confinada na super proteção e amor dos pais. Ah, essa sim é uma terrível
prisão.
Tão segura do mundo ela cresceu que não sabia lidar com as
situações difíceis da vida.
Um belo dia a nossa protagonista encontrou um príncipe quase
encantado. Ela se apaixonou, porque é isso que as princesas fazem, e eles
ficaram juntos.
Não, nada de bruxa, dragão, sequestro, perda de memória,
eles só ficaram juntos mesmo, fácil assim. E foram felizes, não para sempre,
porque seria clichê, mas até a princesa se entediar.
Afinal de contas, homem mais pomposo, sem pegada, metido a
nobre e cheio de si era o príncipe. Chato, não havia palavra melhor para
descrever.
A princesa, entediada, mal comida amada, e solitária,
se apaixonou por um homem comum. Não, sem nenhum lobo mau com faixa de
aceitação de 4 a 84, era só um homem mesmo.
A princesa se aproximou desse homem, ficaram amigos,
trocaram galanteios, provocações. Tão apaixonada a princesa estava que seria
capaz até mesmo de rasgar o espartilho e chutar a coroa. Quanto ao homem, não
sabemos dizer, não cabe aos narradores saberem o que se passa na cabeça e
coração dos personagens “secundários”.
O fato é que ficaram juntos, não se pode dizer que
namoraram, porque porra, namorar uma princesa dá muito trabalho, já pensou? Tem
de aprender etiqueta, se apresentar ao rei, participar de bailes, caçadas,
eventos estúpidos e nobres, enfim, era mais fácil só ficar.
O fato é que a princesa foi feliz, porém, não foi para sempre,
de novo. – Se quer felizes para sempre procure a Disney e não me amole.
O homem, que era conhecedor do mundo e não vivia super
protegido, se cansou daquela princesa, que era até que legal, bonitinha, rica e
fogosa. Mas princesa, ainda assim, chatinha depois de um tempo. Ele caiu no
mundo, foi conhecer camponesas, e atravessar fronteiras.
Nossa princesinha sofreu tanto, pobrezinha. Só que não. Ela
se irritou muito com o fato de ter sido trocada, ela aprendeu arco e flecha,
Krav mánga, técnicas de sedução, pole dance, corte e costura e mecânica
aplicada em aeronaves.
Entrou na academia, rasgou o espartilho porque era cafona,
disse a seu pai que ele estava decadente, aconselhou-o a se aposentar – ele e a
rainha curtem a aposentadoria nas praias do Caribe, mandam postais mensalmente –
e ocupou o trono.
Se tornou rainha, soberana, imponente, piedosa e amável.
Não foi a mais linda, nem dormiu bastante, não usou sapato
de cristal nem teve cabelos longos, não viveu feliz pra sempre e ainda ama aquele
maldito homem. (o que será que ele tinha de tão encantador?), mas seguiu com a
vida, mostrou seu valor, fez o que tinha que fazer e hoje não sabemos dizer se
ficou pra titia ou não.
Moral da história: pare de procurar morais, a própria
princesa não tinha moral nenhuma.
Fim.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
Rosinha
Conheci uma menina, tão doce era
Não via maldade nas pessoas e estava sempre aberta
Sonhadora e romântica
Acreditou em tantos cânticos, acreditou em tanta gente,
acreditou em tanta coisa
Se deu de uma maneira irreparável
Pobrezinha, não sabia que nem sempre as pessoas eram flores
como ela
Descobriu a decepção, a traição, a dor
E aquela bela rosinha se despetalou
Foi então que endureceu, enrijeceu e se fortificou
Foi quando se levantou, lambeu as feridas
E ainda de peito aberto o mundo enfrentou
Coração machucado ainda amou
Gato escaldado, de cabeça na água se jogou
E vivendo sua vida sem medo
A bela rosinha espinhos criou.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Sorriso
Dois trens diferentes, parados na mesma estação.
Dois destinos, opostos talvez, dois sexos, dois seres.
Metal, vidro, borracha, espaço e mais que tudo, a vida entre eles.
Duas vidas com tudo entre elas, sem motivo nenhum para se interligarem nem por um minuto.
Mas se ligaram
Um olhar foi o começo, despretensioso, desinteressado, era mais ter um lugar para pousar os olhos do que um olhar
Mas foi notado, e correspondido, não apenas com outro olhar, mas com um riso, singelo, talvez sem graça, talvez por pura simpatia, ou porque é o que se faz quando se nota um olhar
Esse riso foi respondido com outro, meio torto, meio esquecido de como se ri
Sorriso largo foi então o que aconteceu, cheio de brilho no olhar, com alguma coisa mais do que mero passar de tempo, único e mágico, um sorriso tão lindo que arrebentou seu coração, entrou sem licença alguma e arrancou outro largo e quente sorriso em troca
Estavam então imersos em seu próprio mundo, sem distância, sem pressa, sem mais ninguém em volta, eram apenas dois sorrisos que interligavam dois corações
Os trens partiram e eles deixaram que seus sorrisos fossem lentamente deslocados até sumirem, mas naquele dia, e no outro e arrisco dizer que em mais um e depois pra sempre, sempre que olhavam para um vidro de trem, largos sorrisos se abriam pela memória de um dia terem partilhado almas.
Dois destinos, opostos talvez, dois sexos, dois seres.
Metal, vidro, borracha, espaço e mais que tudo, a vida entre eles.
Duas vidas com tudo entre elas, sem motivo nenhum para se interligarem nem por um minuto.
Mas se ligaram
Um olhar foi o começo, despretensioso, desinteressado, era mais ter um lugar para pousar os olhos do que um olhar
Mas foi notado, e correspondido, não apenas com outro olhar, mas com um riso, singelo, talvez sem graça, talvez por pura simpatia, ou porque é o que se faz quando se nota um olhar
Esse riso foi respondido com outro, meio torto, meio esquecido de como se ri
Sorriso largo foi então o que aconteceu, cheio de brilho no olhar, com alguma coisa mais do que mero passar de tempo, único e mágico, um sorriso tão lindo que arrebentou seu coração, entrou sem licença alguma e arrancou outro largo e quente sorriso em troca
Estavam então imersos em seu próprio mundo, sem distância, sem pressa, sem mais ninguém em volta, eram apenas dois sorrisos que interligavam dois corações
Os trens partiram e eles deixaram que seus sorrisos fossem lentamente deslocados até sumirem, mas naquele dia, e no outro e arrisco dizer que em mais um e depois pra sempre, sempre que olhavam para um vidro de trem, largos sorrisos se abriam pela memória de um dia terem partilhado almas.
domingo, 11 de janeiro de 2015
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Última Carta
Em primeiro lugar, quero deixar registrado que ninguém me influenciou, me forçou ou me convenceu.
Pela primeira vez na vida foi uma decisão inteiramente minha.
Eu peço desculpas por ser alguém sempre ausente. Eu me isolava, na esperança que as pessoas fossem vir atrás de mim, na carência de sentir que alguém de fato viria atrás de mim. Mas ninguém veio, eu fiquei sendo só a solitária, carente, isolada.
Peço perdão por todos os momentos em que precisaram de mim e eu não estava lá, ou estava e não fiz nada. Sabe quando você simplesmente não sabe o que fazer com as mãos ou os braços? Passei a vida sem saber o que fazer comigo.
Sinto se fui inconveniente, grudenta, chata, monótona. No final, mesmo sem ter assunto, histórias ou o que compartilhar eu só não queria estar só.
Sempre estive, levei muito tempo para entender que a solidão estava dentro de mim, e não ia passar.
Chateei muitas pessoas assim, vi muitas irem embora por causa disso, queria tê-las agarrado pelos punhos e suplicado para que ficassem, mas não quis incomodar.
Tentei ser forte, enfrentar tudo sozinha, não demonstrar, e acho que isso só me isolou mais.
Eu tentei mudar, e quando achava que estava quase lá, ou percebia que estava aceitando tudo que viesse, sem filtros, e que isso me destruía, ou aparecia alguém, com aquele certo gênio, e aquela personalidade, que só por estar no mesmo ambiente me fazia travar.
Agradeço todos os que tentaram, todos que apesar do impossível, me amaram, e principalmente aqueles que me fizeram ficar a vontade para ser eu mesma. Foram os momentos mais maravilhosos da minha vida.
Dedico a minha morte a todos os corações que quebrei. Pessoas maravilhosas, que eu, na minha incapacidade de amar, magoei.
Aos que não entenderem, é simples, tem momentos na vida em que desistimos de ser forte, qdo se tem apoio, quando se sabe quebrar a gente supera. Mas qdo se é só de alma e não se aprendeu a fraquejar, aí a gente quebra de um jeito irreversível, vira pó ao invés de caco, e não dá mais para continuar.
Sinto muitíssimo por tudo que não vivi, pelas viagens que não fiz, pelos amores que não declarei, pelos abraços que deixei de dar, os beijos que deixei de roubar, os elogios que não saíram da boca e por aquela canção que eu quis cantarolar na rua mas tive vergonha.
Que no meu epitáfio deixem gravado:
"O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso"
Pela primeira vez na vida foi uma decisão inteiramente minha.
Eu peço desculpas por ser alguém sempre ausente. Eu me isolava, na esperança que as pessoas fossem vir atrás de mim, na carência de sentir que alguém de fato viria atrás de mim. Mas ninguém veio, eu fiquei sendo só a solitária, carente, isolada.
Peço perdão por todos os momentos em que precisaram de mim e eu não estava lá, ou estava e não fiz nada. Sabe quando você simplesmente não sabe o que fazer com as mãos ou os braços? Passei a vida sem saber o que fazer comigo.
Sinto se fui inconveniente, grudenta, chata, monótona. No final, mesmo sem ter assunto, histórias ou o que compartilhar eu só não queria estar só.
Sempre estive, levei muito tempo para entender que a solidão estava dentro de mim, e não ia passar.
Chateei muitas pessoas assim, vi muitas irem embora por causa disso, queria tê-las agarrado pelos punhos e suplicado para que ficassem, mas não quis incomodar.
Tentei ser forte, enfrentar tudo sozinha, não demonstrar, e acho que isso só me isolou mais.
Eu tentei mudar, e quando achava que estava quase lá, ou percebia que estava aceitando tudo que viesse, sem filtros, e que isso me destruía, ou aparecia alguém, com aquele certo gênio, e aquela personalidade, que só por estar no mesmo ambiente me fazia travar.
Agradeço todos os que tentaram, todos que apesar do impossível, me amaram, e principalmente aqueles que me fizeram ficar a vontade para ser eu mesma. Foram os momentos mais maravilhosos da minha vida.
Dedico a minha morte a todos os corações que quebrei. Pessoas maravilhosas, que eu, na minha incapacidade de amar, magoei.
Aos que não entenderem, é simples, tem momentos na vida em que desistimos de ser forte, qdo se tem apoio, quando se sabe quebrar a gente supera. Mas qdo se é só de alma e não se aprendeu a fraquejar, aí a gente quebra de um jeito irreversível, vira pó ao invés de caco, e não dá mais para continuar.
Sinto muitíssimo por tudo que não vivi, pelas viagens que não fiz, pelos amores que não declarei, pelos abraços que deixei de dar, os beijos que deixei de roubar, os elogios que não saíram da boca e por aquela canção que eu quis cantarolar na rua mas tive vergonha.
Que no meu epitáfio deixem gravado:
"O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso"
E destaquem a última frase, ela representa minha vida, ou o tempo em que passei por ela.
Por fim, sinto pela bagunça, pela sujeira e pelo trabalho.
Prometo, foi a última vez.
Prometo, foi a última vez.
Com amor
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