segunda-feira, 30 de março de 2015

Rosa alma

Me lembro de nossa primeira trombada, por assim dizer. Eu, criança, aprendendo a andar de bicicleta, ela já uma jovem senhora, cheia de mistérios, perigos e encantos.

Num desequilíbrio em cima de duas rodas fui parar em cima dela, fiquei presa e só com ajuda de minha mãe e minha avó foi que consegui sair.
Toda arranhada e sangrando um pouco, perguntei sem sentir dor alguma :
-Que planta é essa mamãe?
-É uma roseira minha filha, mas tome cuidado, ela tem espinhos, veja como você está arranhada.

Me aproximei e observei uma de suas rosas, cor de rosa claro, linda, delicada, toda dobrada.
Foi paixão!

Depois desse dia ainda caí e fiquei presa nela diversas vezes, de bicicleta, escalando a grade, ou simplesmente lhe dando um abraço.

Todos os dias dedicava um tempo a lhe apreciar, quando era dia de fazer jardim sempre me dedicava a podar-lhe os galhos mais rebeldes e tirar-lhe as flores despetaladas e as folhas mortas.
Cresci respeitando aquela senhora que insistia em me cortar ou espetar diariamente.

Um dia notei suas flores, outrora rosas, ficarem esbranquiçadas. Suas folhas, sempre de um verde tão escuro, ficarem claras e amareladas.

E eu vi minha tão preciosa paixão morrer de velhice, coisa raríssima para plantas como uma roseira.
Estava lá no dia em que foi arrancada e chorei tudo que ela merecia.

Tenho fotos, desenhos e cicatrizes que me fazem sempre lembrar dela.

Não suportei o vazio e pedi a minha mãe que plantasse outra roseira.

Ela me deixou escolher, entre tantas cores e modelos.
E pesquisando a fundo tive uma segunda paixão, chama-se Príncipe Negro, e é até hoje meu amor mais platônico.
Nunca consegui fazer com que vingasse, não importa quantas mudas tenha tentado (e não foram muitas, ela é difícil de encontrar)

Desiludida e rejeitada por este amor, fui surpreendida belo dia quando vi, naquele buraco em meu peito, uma nova roseira plantada.

Era tímida e franzina, uma criança ainda, e me cativou como toda criança faz.
Demorou muito a florir e requereu cuidados e atenção especiais

Depois de sua adolescência virou uma louca desvairada, revelou-se uma roseira-trepadeira, e chegou até o teto da casa!

Floresce em qualquer estação do ano, com suas rosas pink tão forte que chega a ser um misto de vinho. Pétalas dobradas e curvas, sensuais e descaradas.

Me espetou tanto quanto a outra, mas com bem menos delicadeza, e sempre se mostrou rainha soberana.

Hoje a rainha é destronada, no auge de sua juventude, por ultrapassar limites que nenhuma outra jamais ousou.
Hoje acabou seu reinado por sua ousadia.

Não mais irei me espetar, me cortar nem me machucar nela, não mais terei seu perfume, suas flores, e sua maestria em contornar os obstáculos.

Hoje, desde aquela queda, não mais terei uma roseira em minha vida.


Àquelas duas, tão diferentes em altivez e estilo, tão distintas e ainda assim tão apreciáveis, meu muitíssimo obrigada por me ensinar a ter rosa alma!

sexta-feira, 27 de março de 2015

Ela

Ela cresceu recebendo duas informações

1 - Mulheres tem de fazer joguinhos no amor.

Era sempre isso que sua mãe, suas tias e qualquer mulher mais velha lhe ensinava.
Regras de ouro, básicas, como:
  • ·         Não puxe assunto para não parecer fácil;
  • ·         diga que está saindo com outro, deixe ele enciumado;
  • ·         Ignore por pelo menos 3 dias depois que se virem;

E por aí vai, mas existia uma, que era o supra sumo, o mantra a ser fielmente repetido e aplicado e idolatrado

Não deixe ele saber que você gosta dele!

2 - Você não é ninguém.

Exatamente, viviam dizendo para ela, indiretamente é claro, que ela não era bonita, não era inteligente, não era legal, não era desejável, enfim, entre mídia, pessoas maldosas e pais exigentes ela aprendeu que nada nela era bom

Ela não gostava de nada disso, mas se lhe diziam, devia ser verdade.
E assim, quando conheceu ele, e se apaixonou fortemente, ela simplesmente não soube o que fazer.

De acordo com a regra de ouro, ela não podia deixar ele saber de seus sentimentos. Como diabos esperavam que ele percebesse e retribuísse seu amor se ela não podia dizer a ele que o amava?
Bom, as velhas sábias diriam "Deixe-o deslumbrado por você, mostre tudo de bom que você tem e faça com que ele se apaixone e se declare"

Até aí, seguindo um a lógica racional, tudo bem, fazia sentido. 
Mas existia um imenso porém, ela não era apaixonante.
Ela não era nada nem ninguém.

Como fazê-lo se apaixonar por ela se ela não tinha nada de bom? Não era bonita, não era legal, não era charmosa nem inteligente....

Acreditando, mesmo que inconscientemente, em tudo isso, ela percebeu que sua única opção era matar esse amor dentro do peito
E tratou de fazer isso, mas o amor era forte, e matá-lo um pouco a cada dia a desgastava.

Um belo dia ele conheceu alguém, alguém que cresceu sem saber dessas coisas que ela sabia, alguém que falou de seus sentimentos para ele, que pecado, de fato falou.
Alguém que teve seus sentimentos retribuídos e ficou com ele

Ah, pobrezinha, como ela chorou. Aquele amor mau matado dentro dela se revoltou e a maltratou bastante, doeu terrivelmente no peito.
Ela sofreu, ela odiou, ela magoou ele, chegou até a jurar que não precisava dele e que ele não era ninguém. E tudo isso só a fez sofrer muito mais.

Então ela se odiou, se odiou por não ser ninguém, se odiou por não ser boa o suficiente para ele, se odiou por odiar ele, se odiou por amar ele, se odiou por não falar para ele que o amava, se odiou por acreditar no que cresceu aprendendo, se odiou por se odiar

E por mais que ela amasse ou odiasse, isso só acontecia dentro dela, de fora a vida seguia.

Ele terminou com este alguém, ele conheceu e ficou com muitos outros alguéns, mas nunca com ela.

E ela?
E ela descobriu que amor não morre, mas mata.


quinta-feira, 26 de março de 2015

Ecocardiograma

Eu sempre achei que o amor doía.

Não que seja um mau sentimento, muito pelo contrário, é o melhor que já experimentei.

Mas, assim como tristeza faz parte da vida, achava que aquela dor no peito e a falta de ar faziam parte do amor.

Achava que as tonturas leves eram ocasionadas pelas paixões, que o coração acelerado era sinal de estar perto de quem se gosta, e que aquela sensação de fraqueza e lassidão eram típicas de sentimento não correspondido.

Cresci acreditando nisso, sentindo isso e quase sempre fortalecendo e reafirmando essa teoria.
Que ingenuidade a minha!

Tudo não passa de um sopro no coração.

Aquele ruido não é o rugir de um sentimento avassalador, é só meu sangue se esforçando por passar numa válvula cardíaca defeituosa, as tonturas não são paixão, é falta de oxigenação no cérebro, a arritmia não é por reciprocidade, é apenas meu coração tentando compensar com velocidade o que ele deixou a desejar em força e as dores no peito não são o mais puro amor, são só indícios de um órgão imperfeito.

Como foi esclarecedora a descoberta, agora eu sei o porque amo tão errado. Como poderia amar certo um coração quebrado?

Agora me resta esperar que a digoxina possa curar as paixões não correspondidas que me remoem por dentro, e, na pior das hipóteses, que um cateterismo possa apagar as mágoas de ser descartada.

quarta-feira, 18 de março de 2015

The Ballad Of The Sad Young Men

Diego tinha um inimigo invisível, audacioso e poderoso, imbatível.

Isso o desesperava.

Todas as noites Diego saía, o destino sempre eram os bares, de preferência os mais badalados da cidade.

Ele conhecia bem aquele cenários, que embora variasse um pouco, era em sua maior parte quase o mesmo.

Tinha um belo balcão, tinham as mesas também, mas estas eram para casais ou grupos de amigos, o balcão, soberano, era para os homens como ele.
Tinha um garçom, ele sempre tinha o cuidado em ficar próximo dos mais ágeis.
Tinha uma música, ás vezes pop, noutras rock, podia ter uma banda tocando, mas ele de fato amava os que tinham jazz.
Tinha luzes, algumas vezes piscantes, noutras coloridas, quase sempre meio tom.
Tinham os drinks, um paraíso de copos e cores, misturas e sabores, álcool em formatos de diferentes sonhos.

Diego já se esquecera de como era o céu noturno e que cara tinham as estrelas, seu universo rodava em neon e ele dirigia pela cidade atrás daquilo que era quase viciante e que ele usava para se esquecer de seu inimigo.
Todas as noites ele se afogava, em seus drinks e em sua maravilhosa juventude, cantava no frio de inverno, fugia de seus medos, matava seu próprio coração, e encontrava uma belíssima jovem para lhe fazer companhia.

Sim, uma mulher, um sorriso, alguém que ele pudesse segurar por alguns instantes.
Essas pobres garotas faziam o seu melhor para satisfazê-lo, alegrá-lo e a lua assistia tudo em sua ascensão.

Todas as noites Diego brincava de fazer amor.

Diego estava morrendo, da forma mais cruel possível... envelhecendo.
Seu inimigo, o tempo, não o poupava nem um dia, e lhe ia roubando a vida e a juventude aos poucos.

Isso o desesperava.

Oh gentil, fria e cálida lua, guie o jovem e triste Diego até sua casa esta noite.

"Kiss your dreams goodbye
...
Slowly dies the heart"