sábado, 27 de agosto de 2016

Indigente sentimental

Seu maior medo era morrer como indigente e ser enterrado em lápide sem nome.

Mal percebia que tinha coisa muito pior que isso,

Pior era morrer calado, cercado de gente, sem ninguém notar.

Triste mesmo era ser apagado do mundo lentamente,e tudo continuar como se jamais tivesse existido.

Assustador de verdade era morrer no coração daqueles que tanto amava.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Princesinha da mamãe

Mãe, me desculpa, eu não sou quem você queria.

Desculpa mãe, por não ser mais paciente como você desejava, por não estar milionária, como você sonhava, por não realizar todos os seus desejos, como você ainda quer.

Desculpa mãe, por não te dar o tempo do mundo, não dedicar a ti todos os meus esforços, e por não ver mais em você a super heroína que eu via antes.

Sabe o que é mãe, eu cresci, e teus sapatos já ficam pequenos nos meus pés, tuas roupas chiques não combinam com meu cabelo desgrenhado, teus sonhos para meu futuro ficaram no meu passado.

Você tinha razão ,mãe, meu jeito nunca foi o de moça direita, virei engenheira, atleta, lutadora, aventureira, e ainda assim costuro melhor que a senhora.

Os saltos me caem bem, mãe, é verdade, mas me cansam, prefiro as botas. 

Os vestidos são lindos também, combinam com os palavrões fofos que eu gosto de falar. As gírias? Hahahaha, você ainda se importa com isso?

Eu não sou, mãe, a princesinha que você queria que eu fosse, eu virei a mulher que sempre dei indícios de que seria, uma mistura poética e caótica de tudo, virei metade da sua boneca e metade do moleque que você nunca teve.

Extrapolei, mãe, no linguajar, nos doces, na ousadia, na desobediência, na vontade própria.

Fugi mãe, com todas as forças, da imensa sombra que você deixou para mim. Não tenho como ser sua miniatura, é um fardo que não encaixa no meu ombro.

Me defini mãe, como a mais indefinida das criaturas, não sei o que sou, só sei o que não sou.

E não sou mãe, nem nunca serei, limitada, como tua arrogância, tão cedo, me desenhou.


Desculpa, mãe, por não sentir culpa nenhuma por isso.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Egoísmo

Existe uma linha tão tênue, entre a alegria e a tristeza. 

E nós, nesse ímpeto egoísta de estar sempre certos, espizinhamos essa linha. Nós não nos contentamos em atravessá-la, precisamos ir a tiro para o outro lado, e depois arrancá-la e erguer sobre nossas cabeças gritando sempre "eu" "eu" "eu"

Atacamos, ferimos, magoamos, e cada vez que fazemos isso ao outro, sem notar, estamos fazendo em dobro a nós.

No fundo uma vozinha tímida e abafada grita para pararmos, grita que na verdade ele está meio certo, grita que o ama, e nós a ignoramos e continuamos a arrancar lágrimas daquele que está a nossa frente.

As vezes, num arroubo de sanidade, nos contemos, escutamos, damos lugar a razão e mais ainda, em meio a fúria, a dor e ao egoísmo, damos lugar a empatia e a humildade. Abaixamos a cabeça, dizemos que erramos, pedimos perdão e quem sabe uma segunda chance.

 Tão instável essa bomba, tão frágil fica nessa hora, basta muitíssimo pouco para que se rompa, e então tudo fica bem pior.

Falamos coisas, magoamos, mas agora já não é aquela mágoa que sai entre uma explicação e uma cobrança, é aquela em lança, armada, arquitetada e planejada para ser mágoa bem fincada no coração.
 
O arrependimento se finca no nosso assim que a mágoa perfura o amor a nossa frente. Mas já não tem mais volta.

Quão frágeis somos, quão egoístas.


Nós morremos, brigas morrem, momentos morrem, amores morrem, mágoas morrem? 

Esperamos que sim.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

do amor

Perdi o meu chão e o meu não,

Insisti, resisti, desisti

Fui, talvez longe demais,

Conquistei, detonei, me enfadei,

tirei a máscara

vi, vivi, entrevi

me entreguei, te aceitei

me despi

de alma

de corpo

de coração

nua

tão pura, tão tua

amor


amei, te amei