Mãe, me desculpa, eu não sou quem você queria.
Desculpa mãe, por não ser mais paciente como você desejava,
por não estar milionária, como você sonhava, por não realizar todos os seus
desejos, como você ainda quer.
Desculpa mãe, por não te dar o tempo do mundo, não dedicar a
ti todos os meus esforços, e por não ver mais em você a super heroína que eu
via antes.
Sabe o que é mãe, eu cresci, e teus sapatos já ficam
pequenos nos meus pés, tuas roupas chiques não combinam com meu cabelo desgrenhado,
teus sonhos para meu futuro ficaram no meu passado.
Você tinha razão ,mãe, meu jeito nunca foi o de moça direita,
virei engenheira, atleta, lutadora, aventureira, e ainda assim costuro melhor
que a senhora.
Os saltos me caem bem, mãe, é verdade, mas me cansam, prefiro
as botas.
Os vestidos são lindos também, combinam com os palavrões fofos que eu
gosto de falar. As gírias? Hahahaha, você ainda se importa com isso?
Eu não sou, mãe, a princesinha que você queria que eu fosse,
eu virei a mulher que sempre dei indícios de que seria, uma mistura poética e
caótica de tudo, virei metade da sua boneca e metade do moleque que você nunca
teve.
Extrapolei, mãe, no linguajar, nos doces, na ousadia, na
desobediência, na vontade própria.
Fugi mãe, com todas as forças, da imensa sombra que você
deixou para mim. Não tenho como ser sua miniatura, é um fardo que não encaixa
no meu ombro.
Me defini mãe, como a mais indefinida das criaturas, não sei
o que sou, só sei o que não sou.
E não sou mãe, nem nunca serei, limitada, como tua
arrogância, tão cedo, me desenhou.
Desculpa, mãe, por não sentir culpa nenhuma por isso.