Hoje eu o vi novamente.
Dessa vez estava tudo bem, porque eu planejei o encontro, eu o esperava, ouso dizer que estava pronta para ele.
Ele me atacou, como sempre faz, como eu sabia que faria.
E confesso que numa tentativa mal calculada de esquiva minha ele chegou a me esbarrar de leve e me desestabilizou um pouco, mas eu não caí.
Ele investiu novamente e dessa vez eu não precisei olhar para desviar.
Na sua terceira investida eu o agarrei e dançamos.
Era uma dança estranha, na qual ele se dividia entre querer fugir e querer me derrubar e eu, para meu espanto, queria abraçá-lo.
Depois desse belíssimo duelo em valsa consegui, enfim, o abraçar bem forte, apertado contra o peito!
E então meu medo deixou de ser medo, ele se transformou num autoconhecimento, numa paz de simplesmente saber o que não se quer, mas saber também que se irá sobreviver aquilo caso não o possa evitar.
E eu pude controlá-lo, e mais ainda, respeitá-lo.
E é assim que nossos encontros serão daqui por diante: Ele não mais me ameaçará, eu não mais fugirei dele. Ele me tocará docemente e eu o entenderei.
sábado, 23 de maio de 2015
domingo, 17 de maio de 2015
EU
Eu não me importo em perder noite de sono por bons motivos (recorde de 3 seguidas),
mas também adoro dormir 12h por dia se eu puder.
Eu prefiro doce a salgado,
mas meu corpo me cobra o sódio.
Eu amo flores, irei farejá-las, e quando as encontrar, apreciar por um longo tempo,
tocar suas pétalas e sorrir como se tivesse descoberto o mundo inteiro.
Eu amo comer, não gosto de queijo nem muito de frios e nem de frutas cristalizadas ou passas,
mas a única coisa que não como nem por decreto é coco.
Eu sou estupidamente tímida, insegura, medrosa e tenho ares de arrogante,
mas se me der uma chance, vou te conquistar e te dar carinho por pelo puro prazer de te ver sorrir.
Eu nunca vivi nesta vida,
mas sobrevivi o suficiente pra ter algumas histórias.
Eu arrisco dizer que sei ver corações,
e que meu amor é ilimitado.
Eu não sei quem sou e não sei se gosto de mim,
mas estou disposta a descobrir.
Eu não sou muito boa em nada que faço,
mas sei fazer muitas coisas.
Meu sonho é ter um sonho nesta vida.
Eu conheço a morte melhor do que gostaria.
Tenho sangue frio e coração fechado, mas isso dura tão pouco...
Eu prefiro ouvir a falar,
mas as vezes abro a matraca e não fecho mais.
Eu me sinto boba a maior parte do tempo.
Eu sou fraca para bebida e para carinhos e afetos.
Eu tenho crises de pânico mas me acalmo com música.
Tenho mais livros que sapatos, ou roupas ou espaço para guardar tudo isso.
Vivo com vontade de fugir
Quando fujo morro de vontade de voltar.
Sou rebelde sem causa.
Sou minha mais cruel carcereira e vivo na prisão do julgamento (no geral o próprio).
Sou refém do meu coração e escrava da razão.
Sou, faço, gosto, sinto
Humana
mas também adoro dormir 12h por dia se eu puder.
Eu prefiro doce a salgado,
mas meu corpo me cobra o sódio.
Eu amo flores, irei farejá-las, e quando as encontrar, apreciar por um longo tempo,
tocar suas pétalas e sorrir como se tivesse descoberto o mundo inteiro.
Eu amo comer, não gosto de queijo nem muito de frios e nem de frutas cristalizadas ou passas,
mas a única coisa que não como nem por decreto é coco.
Eu sou estupidamente tímida, insegura, medrosa e tenho ares de arrogante,
mas se me der uma chance, vou te conquistar e te dar carinho por pelo puro prazer de te ver sorrir.
Eu nunca vivi nesta vida,
mas sobrevivi o suficiente pra ter algumas histórias.
Eu arrisco dizer que sei ver corações,
e que meu amor é ilimitado.
Eu não sei quem sou e não sei se gosto de mim,
mas estou disposta a descobrir.
Eu não sou muito boa em nada que faço,
mas sei fazer muitas coisas.
Meu sonho é ter um sonho nesta vida.
Eu conheço a morte melhor do que gostaria.
Tenho sangue frio e coração fechado, mas isso dura tão pouco...
Eu prefiro ouvir a falar,
mas as vezes abro a matraca e não fecho mais.
Eu me sinto boba a maior parte do tempo.
Eu sou fraca para bebida e para carinhos e afetos.
Eu tenho crises de pânico mas me acalmo com música.
Tenho mais livros que sapatos, ou roupas ou espaço para guardar tudo isso.
Vivo com vontade de fugir
Quando fujo morro de vontade de voltar.
Sou rebelde sem causa.
Sou minha mais cruel carcereira e vivo na prisão do julgamento (no geral o próprio).
Sou refém do meu coração e escrava da razão.
Sou, faço, gosto, sinto
Humana
quarta-feira, 13 de maio de 2015
O Hierofante
Um oco João vagava pelas ruas, não mais da Índia, mas agora do Nepal.
Berço de Sidarta Gautama, fazia com que ele entendesse o que leva um príncipe a abandonar sua realeza. A miséria, a dor, o sofrimento e a morte que este jovem havia visto, e que o levaram a peregrinar e eventualmente encontrar o nirvana, estavam estampados nos rostos de cada cidadão, estavam expressos em cada olhar.
Um lugar tão pobre, uma gente tão sofrida que fizeram o oco João questionar onde estava a justiça divina.
Abatido, desesperançado, e perdido interiormente, ali, no meio daquela praça, sentado no chão, ele procurou por qualquer coisa superior que pudesse explicar aquilo tudo.
Pensou em tudo que aprendeu na primeira comunhão, e que sua mãe sempre lhe dizia. Eram pecadores, mereciam o inferno na terra em que vivam. Mas aquelas pessoas não lhe pareciam ter cometido pecado maior do que viver.
Então eram meros sofredores e no dia do juízo final seriam merecedores do reino dos céus. Mas se tal reino não existisse e se tal dia nunca chegasse seriam apenas sofredores. E qual o sentido de viver meramente para sofrer?
João percebeu então que a imagem de Deus que ele tinha não era boa, nem ao menos era dele, era uma imagem vendida, pela única religião que ele conhecia, como um produto num comercial de TV.
Se você fizer isso e aquilo, se rezar e for a missa, se for um bom cristão merecerá a benevolência divina! Aproveite, somente nessa semana santa com alguns jejuns de desconto.
Isso lhe soou absolutamente ridículo. E ali, rindo sozinho, ele enxergou alguma coisa que talvez traduzisse Deus.
Eram belíssimos olhos negros, amendoados, que o fitavam com interesse. Uma mulher, curiosa e receosa, o observava.
Ele se surpreendeu ao achá-la bonita. Como ele poderia achar aquela nepalês bonita?
Não era loira, nem alta, sua pele não era clara nem cuidadosamente adouradada do sol, não usava maquiagem nem saltos.
E no entanto era genuinamente magnífica. E João se deu a liberdade de ter uma opinião não consumida pronta pela primeira vez na vida.
Estava farto de gente lhe dizendo o que fazer, o que achar, como agir. Percebera que, além de seus pais, foi submisso a uma sociedade com padrões porcos e mal construídos, sem base ou humanidade.
João não queria mais seguir ninguém, e se deu ao direito de sorrir pela primeira vez na vida, de verdade, ao achar aquela mulher bonita.
Para sua surpresa, ela lhe sorriu de volta.
Continua em " Os Enamorados"...
terça-feira, 12 de maio de 2015
Fantasia #1
Quando já estava na metade da garrafa de rum, algumas pessoas entraram correndo desesperadas na taberna:
- Demônios, demônios vindo nessa direção, escondam-se!!!
Parsis ergueu uma sobrancelha, colocou a cimitarra novamente nas costas e foi até um dos afobados que gritava, agarrando seu colarinho:
- Demônios você diz, de qual espécie?
- Eu não sei moça, são pequenos, negros, e explodem as coisas só de tocar.
- Hum, diabretes então, de onde vieram?
- Pelamordosdeuses, eu não sei moça, só sei que quero ir na outra direção!!! - bradou o homem apavorado tentando se livrar da mão da elfa negra.
- Há, patife! - Ela bradou soltando-o em um solavanco. Depois de dar mais um longo e demorado gole da garrafa ela a atirou no chão e saiu com um sorriso de orelha a orelha:
- É por isso que eu amo este lugar, nunca falta diversão!
Dust tinha a garota desacordada em seus braços e matinha um campo de força esférico que as protegia dos diabretes.
- Mas que droga, como eu poderia saber que quebrar a possessão liberaria estas peste? O que eu vou fazer agora? São muitos e eu estou cansada, não consigo conjurar mais nenhuma magia além dessa de proteção!
Dito isso o campo de força deu uma diminuída e algumas gotas de suor lhe escorreram do rosto.
De repente o foco mágico que libertava os diabretes aumentou e muitos mais saíram de lá antes que ele se fechasse. As pestes se reuniram em torno do campo mágico de Dust e começaram a tentar quebrá-lo, explodindo pequenas porções do campo e subindo em cima dele.
Ela já estava absolutamente desesperada, o campo quase reduzido ao contorno das duas e aquele verdadeiro enxame de seres mágicos ao redor delas deixando toda a vista negra.
Então, de repente, eles começam a sumir, um por um, puxados por cima e o restante desvia seu foco do campo de força para atacar aquilo que os ataca. Quando Dust consegue ter visão da situação se surpreende com o que vê.
Parsis está rodeada de demoniozinhos e se diverte dando golpes certeiros de cimitarra que lhes cortam fora as cabeças. Ela desvia de seus toques para não se machucar, já tinha um explodida em seu ombro esquerdo e outra na canela direita e não queria deixar que isso atrapalhasse sua diversão.
Seu sorriso, quase doentio, deforma seu rosto, sujo de sangue quando ela grita:
-Três cabeças de uma só vez, é um novo record!
E quando todos os seres mágicos estão mortos ela finalmente nota a presença de Dust com a garota desacordada, sentada no chão encarando-a embasbacada.
- Há! Eu devia saber que essas coisas tinham a ver com você, como não deduzi antes? Hahahahahahahaha
- Parsis, você continua nojenta como sempre, nós somos elfas e não ogros, consegue se lembrar?
- Óhhh, me desculpe senhorita - diz com ironia - mas a ogra aqui acabou de salvar sua pele não?
- Existiam meios menos - ela tem uma leve ânsia de vômito olhando ao redor - desagradáveis.
- Não importam os meios minha cara Dust, importa acabar com o problema. - limpa a lâmina da cimitarra com um olhar distante, quase de deleite
Neste momento Dust desmaia e a Parsis a pega antes que caia no chão. Guardando a espada ela ergue Dust no colo e sai andando da cena, sem se importar com os corpos, a sujeira e muito menos com a garota desacordada caída no centro de tudo isso.
- Está tudo bem mana, eu voltei pra cuidar de você - ela sussurra.
- Demônios, demônios vindo nessa direção, escondam-se!!!
Parsis ergueu uma sobrancelha, colocou a cimitarra novamente nas costas e foi até um dos afobados que gritava, agarrando seu colarinho:
- Demônios você diz, de qual espécie?
- Eu não sei moça, são pequenos, negros, e explodem as coisas só de tocar.
- Hum, diabretes então, de onde vieram?
- Pelamordosdeuses, eu não sei moça, só sei que quero ir na outra direção!!! - bradou o homem apavorado tentando se livrar da mão da elfa negra.
- Há, patife! - Ela bradou soltando-o em um solavanco. Depois de dar mais um longo e demorado gole da garrafa ela a atirou no chão e saiu com um sorriso de orelha a orelha:
- É por isso que eu amo este lugar, nunca falta diversão!
Dust tinha a garota desacordada em seus braços e matinha um campo de força esférico que as protegia dos diabretes.
- Mas que droga, como eu poderia saber que quebrar a possessão liberaria estas peste? O que eu vou fazer agora? São muitos e eu estou cansada, não consigo conjurar mais nenhuma magia além dessa de proteção!
Dito isso o campo de força deu uma diminuída e algumas gotas de suor lhe escorreram do rosto.
De repente o foco mágico que libertava os diabretes aumentou e muitos mais saíram de lá antes que ele se fechasse. As pestes se reuniram em torno do campo mágico de Dust e começaram a tentar quebrá-lo, explodindo pequenas porções do campo e subindo em cima dele.
Ela já estava absolutamente desesperada, o campo quase reduzido ao contorno das duas e aquele verdadeiro enxame de seres mágicos ao redor delas deixando toda a vista negra.
Então, de repente, eles começam a sumir, um por um, puxados por cima e o restante desvia seu foco do campo de força para atacar aquilo que os ataca. Quando Dust consegue ter visão da situação se surpreende com o que vê.
Parsis está rodeada de demoniozinhos e se diverte dando golpes certeiros de cimitarra que lhes cortam fora as cabeças. Ela desvia de seus toques para não se machucar, já tinha um explodida em seu ombro esquerdo e outra na canela direita e não queria deixar que isso atrapalhasse sua diversão.
Seu sorriso, quase doentio, deforma seu rosto, sujo de sangue quando ela grita:
-Três cabeças de uma só vez, é um novo record!
E quando todos os seres mágicos estão mortos ela finalmente nota a presença de Dust com a garota desacordada, sentada no chão encarando-a embasbacada.
- Há! Eu devia saber que essas coisas tinham a ver com você, como não deduzi antes? Hahahahahahahaha
- Parsis, você continua nojenta como sempre, nós somos elfas e não ogros, consegue se lembrar?
- Óhhh, me desculpe senhorita - diz com ironia - mas a ogra aqui acabou de salvar sua pele não?
- Existiam meios menos - ela tem uma leve ânsia de vômito olhando ao redor - desagradáveis.
- Não importam os meios minha cara Dust, importa acabar com o problema. - limpa a lâmina da cimitarra com um olhar distante, quase de deleite
Neste momento Dust desmaia e a Parsis a pega antes que caia no chão. Guardando a espada ela ergue Dust no colo e sai andando da cena, sem se importar com os corpos, a sujeira e muito menos com a garota desacordada caída no centro de tudo isso.
- Está tudo bem mana, eu voltei pra cuidar de você - ela sussurra.
O Imperador
As águas sagradas não lhe aliviaram o peso de sua infância.
Com o vento frio na roupa molhada João se lembrou de seu pai, sempre tão austero e correto.
Se lembrou de como era reprimido quando lhe dizia que queria ser pintor, astronauta, jogador de futebol ou qualquer coisa que seu pai não considerasse uma carreira promissora.
Seu pai zelava pelo seu futuro, era verdade, se preocupava que o filho tivesse um bom emprego e assim, sem perceber, lhe assassinava os sonhos.
E aos poucos João desaprendeu a sonhar, e a ter vontade de ser qualquer coisa. Como boa criança ele tinha certeza que não poderia ser nada sem o apoio do pai, então de que lhe adiantava querer ser qualquer coisa que o pai não aprovasse?
Tinha sempre de ir bem na escola, e estudar em casa, além de fazer suas lições e algumas aulas extras.
-Vai ser culto meu filho, és inteligente, e com um bom estudo, serás grande na vida!
E assim João se lembra de uma infância mais fria, sentado, acumulando conhecimentos enquanto vislumbrava pela janela um sol bem forte num céu azul de um dia com brisa convidativa.
Seu pai lhe deu o que podia e o que não podia, era bem verdade, e as condições para estudar nunca lhe faltaram. João era grato, claro que era. Mas naquela época ele não queria isso, queria brincar, e ser criança, e só.
Sentiu falta de um passado que não teve.
Embora soubesse que seus o amavam, sentiu uma imensa falta de amor.
Parecia-lhe ter passado a vida mendigando pela aprovação e pelo amor dos pais, sentia-se agora tão indigno de afeto, de amor.
Ok, fora obediente e servil e talvez assim seus pais o tivessem amado, mas e as outras pessoas? Como João poderia lhes obedecer ou servir? Não era filho delas, então, como poderia ser amado?
-Ora João, os outros vão te amar por quem você é! - pensou.
E quem era João?
Ele sabia muito bem quem era o filho de dona Augusta e seu Pedro, mas não sabia quem era João.
Não sabia o que queria, quais suas idéias e ideais, como se expressar ou como tomar iniciativas. Não tinha instintos, não sabia amar e desejava clementemente ser amado.
Como poderia se sentir capaz de realizar qualquer coisa, se não sabia quem era?
Naquela tarde João notou que a muito tempo havia se perdido.
E não sabia exatamente como se encontrar, ou se reconstruir.
Naquela lama sagrada do Ganges, com o vento gelando seu rosto, e leves arrepios pelo corpo, ele se viu uma casca completamente oca, que até então havia vivido como um boneco de cordas, uma marionete, um Pinóquio que nunca ganhara vida e era meramente capricho de algum Gepeto.
Com o vento frio na roupa molhada João se lembrou de seu pai, sempre tão austero e correto.
Se lembrou de como era reprimido quando lhe dizia que queria ser pintor, astronauta, jogador de futebol ou qualquer coisa que seu pai não considerasse uma carreira promissora.
Seu pai zelava pelo seu futuro, era verdade, se preocupava que o filho tivesse um bom emprego e assim, sem perceber, lhe assassinava os sonhos.
E aos poucos João desaprendeu a sonhar, e a ter vontade de ser qualquer coisa. Como boa criança ele tinha certeza que não poderia ser nada sem o apoio do pai, então de que lhe adiantava querer ser qualquer coisa que o pai não aprovasse?
Tinha sempre de ir bem na escola, e estudar em casa, além de fazer suas lições e algumas aulas extras.
-Vai ser culto meu filho, és inteligente, e com um bom estudo, serás grande na vida!
E assim João se lembra de uma infância mais fria, sentado, acumulando conhecimentos enquanto vislumbrava pela janela um sol bem forte num céu azul de um dia com brisa convidativa.
Seu pai lhe deu o que podia e o que não podia, era bem verdade, e as condições para estudar nunca lhe faltaram. João era grato, claro que era. Mas naquela época ele não queria isso, queria brincar, e ser criança, e só.
Sentiu falta de um passado que não teve.
Embora soubesse que seus o amavam, sentiu uma imensa falta de amor.
Parecia-lhe ter passado a vida mendigando pela aprovação e pelo amor dos pais, sentia-se agora tão indigno de afeto, de amor.
Ok, fora obediente e servil e talvez assim seus pais o tivessem amado, mas e as outras pessoas? Como João poderia lhes obedecer ou servir? Não era filho delas, então, como poderia ser amado?
-Ora João, os outros vão te amar por quem você é! - pensou.
E quem era João?
Ele sabia muito bem quem era o filho de dona Augusta e seu Pedro, mas não sabia quem era João.
Não sabia o que queria, quais suas idéias e ideais, como se expressar ou como tomar iniciativas. Não tinha instintos, não sabia amar e desejava clementemente ser amado.
Como poderia se sentir capaz de realizar qualquer coisa, se não sabia quem era?
Naquela tarde João notou que a muito tempo havia se perdido.
E não sabia exatamente como se encontrar, ou se reconstruir.
Naquela lama sagrada do Ganges, com o vento gelando seu rosto, e leves arrepios pelo corpo, ele se viu uma casca completamente oca, que até então havia vivido como um boneco de cordas, uma marionete, um Pinóquio que nunca ganhara vida e era meramente capricho de algum Gepeto.
Continua em "O Hierofante"...
segunda-feira, 11 de maio de 2015
A Imperatriz
João estava levemente desnorteado, em meio a toda aquela multidão, nas margens do Ganges, se lembrava de sua mãe o educando quando criança.
Enquanto era massivamente empurrado e solavancada pelas pessoas, ainda se preocupava em pedir com licença e dizer me desculpe.
Sua mãe sempre o ensinara os bons modos, a responsabilidade, a temer a Deus e ser cortês.
Ela não deixava João se levantar da mesa a não ser que tivesse comido tudo, não aceitava quando ele dizia não porque ela, como mãe, era quem sabia o que João deveria ou não querer, poder, sentir e tudo mais.
Ele lhe era muito grato, é claro, e a amava de todo coração, mas tinha de enxergar que sua mãe, no intuito de protegê-lo, não havia deixado que experimentasse a vida, nas suas minúcias, e tivesse vontades próprias.
Cresceu para ser um bom menino, cresceu para obedecer, era o que melhor sabia fazer, e por isso conformava-se com sua vida patética, seu emprego medíocre, sua namorada dominadora e mandona.
"Sim senhora"
Ele era um ótimo robô, fiel, leal, jamais contrariava.
E se surgisse a oportunidade, qualquer que fosse, de ser livre por um instante, ele se perdia. De certa forma era por isso que se sentia tão desnorteado nessa viagem. Não sabia tomar decisões por conta própria. Isso nunca lhe fora ensinado, permitido, requisitado.
João sentia uma raiva muito grande em seu peito.
De repente viu todas as vezes com as quais não concordara com a situação, com as quais sua opinião era divergente, com as quais queria ter escolhida já que podia.
Sentia raiva de não ter tomado sua vida nas mãos nessas situações, sentia raiva de não ter se expressado, sentia raiva de não ter discordado, de não ter negado.
Sentia raiva de não poder se expressar.
Sentiu raiva de sua mãe, por quando ela não o deixou discordar do tema daquela festa, do destino de viagem nas férias, da roupa que ele iria usar.
Sentiu raiva de sua mãe que o ensinou a baixar a cabeça e obedecer.
Sentiu raiva da mulher que lhe roubou a vontade própria e a voz.
Ele sabia que não foi por mal, sabia que não era falta de amor, muito pelo contrário, era zelo em excesso, mas por um breve instante ele sentiu raiva por as coisas terem sido assim.
Era uma raiva antiga, ele percebeu, que a muito ele vinha cultivando, de tantas submissões externas quando o coração não queria. E ele nem ao menos podia explodir, não podia gritar, não podia chorar, não podia se enfurecer, porque não foi assim que sua mãe lhe ensinara.
Por uma brevidade João temeu que sua mãe lhe amasse mais se soubesse a forma como ele pensava e tudo o que ele sentia. Vislumbrou aquelas lágrimas que ele não entendia e que lhe doíam tanto, o choro daquela mãe que ele julgou ser sua responsabilidade.
Era uma mistura de dor, abandono, raiva, mágoa e contrariedade.
João mergulhou naquela poluição, em meio a tantas outras pessoas que faziam de tudo um pouco ali e esperou que as águas do Ganges pudessem lhe lavar a alma.
Enquanto era massivamente empurrado e solavancada pelas pessoas, ainda se preocupava em pedir com licença e dizer me desculpe.
Sua mãe sempre o ensinara os bons modos, a responsabilidade, a temer a Deus e ser cortês.
Ela não deixava João se levantar da mesa a não ser que tivesse comido tudo, não aceitava quando ele dizia não porque ela, como mãe, era quem sabia o que João deveria ou não querer, poder, sentir e tudo mais.
Ele lhe era muito grato, é claro, e a amava de todo coração, mas tinha de enxergar que sua mãe, no intuito de protegê-lo, não havia deixado que experimentasse a vida, nas suas minúcias, e tivesse vontades próprias.
Cresceu para ser um bom menino, cresceu para obedecer, era o que melhor sabia fazer, e por isso conformava-se com sua vida patética, seu emprego medíocre, sua namorada dominadora e mandona.
"Sim senhora"
Ele era um ótimo robô, fiel, leal, jamais contrariava.
E se surgisse a oportunidade, qualquer que fosse, de ser livre por um instante, ele se perdia. De certa forma era por isso que se sentia tão desnorteado nessa viagem. Não sabia tomar decisões por conta própria. Isso nunca lhe fora ensinado, permitido, requisitado.
João sentia uma raiva muito grande em seu peito.
De repente viu todas as vezes com as quais não concordara com a situação, com as quais sua opinião era divergente, com as quais queria ter escolhida já que podia.
Sentia raiva de não ter tomado sua vida nas mãos nessas situações, sentia raiva de não ter se expressado, sentia raiva de não ter discordado, de não ter negado.
Sentia raiva de não poder se expressar.
Sentiu raiva de sua mãe, por quando ela não o deixou discordar do tema daquela festa, do destino de viagem nas férias, da roupa que ele iria usar.
Sentiu raiva de sua mãe que o ensinou a baixar a cabeça e obedecer.
Sentiu raiva da mulher que lhe roubou a vontade própria e a voz.
Ele sabia que não foi por mal, sabia que não era falta de amor, muito pelo contrário, era zelo em excesso, mas por um breve instante ele sentiu raiva por as coisas terem sido assim.
Era uma raiva antiga, ele percebeu, que a muito ele vinha cultivando, de tantas submissões externas quando o coração não queria. E ele nem ao menos podia explodir, não podia gritar, não podia chorar, não podia se enfurecer, porque não foi assim que sua mãe lhe ensinara.
Por uma brevidade João temeu que sua mãe lhe amasse mais se soubesse a forma como ele pensava e tudo o que ele sentia. Vislumbrou aquelas lágrimas que ele não entendia e que lhe doíam tanto, o choro daquela mãe que ele julgou ser sua responsabilidade.
Era uma mistura de dor, abandono, raiva, mágoa e contrariedade.
João mergulhou naquela poluição, em meio a tantas outras pessoas que faziam de tudo um pouco ali e esperou que as águas do Ganges pudessem lhe lavar a alma.
Continua em "O Imperador"...
domingo, 10 de maio de 2015
Fantasias
As portas da taberna se abriram e, sob os olhares curiosos de bêbados, arruaceiros, e alguns viajantes, suas botas a guiaram até o balcão:
-Eu quero uma garrafa de Rum.
-Acredito que queira uma dose - replicou o garçom.
-Eu disse uma garrafa
-Uma dose dupla então - Fez mais uma tentativa.
-Seu patife desgraçado, eu lhe pedi uma garrafa, e a menos que queira perder as mãos agora mesmo é exatamente o que vai me servir - Ela disse entre dentes pondo o dinheiro no balcão para lhe garantir que tinha como pagar.
E assim, depois de um logo gole, direto do gargalo, pode finalmente se sentir revigorada de sua longa viagem.
"É bom estar de volta",
pensou enquanto girava em seu banco para pode observar o restante da taberna e apoiava sua cimitarra no chão para aliviar o peso.
- Que bom a que a senhorita chegou, estamos desesperados, não sabemos o que aconteceu, mas ela está flutuando a quase meia hora, nesse, não sei, transe?
Ela parou observando aquela cena: a garota flutuava no ar, braços abertos, olhos orbitando, nenhum sinal de consciência,uma luz cinza chumbo contornando seu corpo. Um livro caído no chão, tinha muitas páginas rasgadas, um pouco de sangue manchava o assoalho e uma pena negra flutuava com a tensão de tudo.
Arrumou seus óculos pelo aro central, recolocou a mecha de cabelo que escapara do coque atrás da orelha, pigarreou, e com a mão apoiada no queixo, como quem observa algo muito peculiar, disse:
-Estamos lidando com magia negra das fortes aqui, acho melhor o senhor e sua esposa deixarem o recinto por alguns instantes, não vou poder evitar que meus poderes os afetem enquanto tento contornar a situação.
-A senhora salvará minha filha? - choramingou a mulher, que até então estava encolhido no canto do quarto.
- Farei o meu melhor senhora.
Começou a recitar seu encantamento e palavras élficas foram se escrevendo no ar em um tom azul claro, ela começou a flutuar e quando estava frente a frente com a jovem seu poder explodiu como uma super nova de luz azulada
-Eu quero uma garrafa de Rum.
-Acredito que queira uma dose - replicou o garçom.
-Eu disse uma garrafa
-Uma dose dupla então - Fez mais uma tentativa.
-Seu patife desgraçado, eu lhe pedi uma garrafa, e a menos que queira perder as mãos agora mesmo é exatamente o que vai me servir - Ela disse entre dentes pondo o dinheiro no balcão para lhe garantir que tinha como pagar.
E assim, depois de um logo gole, direto do gargalo, pode finalmente se sentir revigorada de sua longa viagem.
"É bom estar de volta",
pensou enquanto girava em seu banco para pode observar o restante da taberna e apoiava sua cimitarra no chão para aliviar o peso.
- Que bom a que a senhorita chegou, estamos desesperados, não sabemos o que aconteceu, mas ela está flutuando a quase meia hora, nesse, não sei, transe?
Ela parou observando aquela cena: a garota flutuava no ar, braços abertos, olhos orbitando, nenhum sinal de consciência,uma luz cinza chumbo contornando seu corpo. Um livro caído no chão, tinha muitas páginas rasgadas, um pouco de sangue manchava o assoalho e uma pena negra flutuava com a tensão de tudo.
Arrumou seus óculos pelo aro central, recolocou a mecha de cabelo que escapara do coque atrás da orelha, pigarreou, e com a mão apoiada no queixo, como quem observa algo muito peculiar, disse:
-Estamos lidando com magia negra das fortes aqui, acho melhor o senhor e sua esposa deixarem o recinto por alguns instantes, não vou poder evitar que meus poderes os afetem enquanto tento contornar a situação.
-A senhora salvará minha filha? - choramingou a mulher, que até então estava encolhido no canto do quarto.
- Farei o meu melhor senhora.
Começou a recitar seu encantamento e palavras élficas foram se escrevendo no ar em um tom azul claro, ela começou a flutuar e quando estava frente a frente com a jovem seu poder explodiu como uma super nova de luz azulada
sexta-feira, 8 de maio de 2015
hoje eu queria
Hoje eu queria ouvir uma história, sobre algum reino distante, com seres mágicos e algum enredo empolgante, levemente assustador, que desse certo no final
Hoje eu queria cantarolar uma música, dessas que deixam a alma mais leve a cada palavra
Hoje eu queria abraçar alguém, bem apertadinho, pra aquecer o coração
Hoje eu queria comer um doce, desses que desmancham na boca e preenchem todos os nossos sensores
Hoje eu queria sentir um perfume que tivesse um quê de conhecido, misturando saudade com esperança
Hoje eu queria dar uma gargalhada, dessas que arrancam lágrimas e fazem doer a barriga
Hoje eu queria que alguém secasse meu cabelo, pra eu sentir um toque de cuidado comigo
Hoje eu queria respirar uma brisa gelada, que me trouxesse aquela tensão do ar antes de tempestades
Hoje eu queria me arrepiar, daqueles arrepios bons que acompanham um beijo
Hoje eu queria deitar sob a grama, fechar meus olhos e sentir a imensidão do céu acima de mim
Hoje eu queria ter um sonho bonito, daqueles que fazem a gente não querer acordar
Hoje eu queria brincar com um filhote, ver toda a meiguice de quem está aprendendo a vida
Hoje eu queria sentir desejo, instintivamente, com todo o deleite e a embriaguez que ele traz
Hoje eu queria ler um poema, e poder sentir que ele é quem está me lendo
Hoje eu queria não querer nada, por estar plenamente realizada
Hoje eu queria cantarolar uma música, dessas que deixam a alma mais leve a cada palavra
Hoje eu queria abraçar alguém, bem apertadinho, pra aquecer o coração
Hoje eu queria comer um doce, desses que desmancham na boca e preenchem todos os nossos sensores
Hoje eu queria sentir um perfume que tivesse um quê de conhecido, misturando saudade com esperança
Hoje eu queria dar uma gargalhada, dessas que arrancam lágrimas e fazem doer a barriga
Hoje eu queria que alguém secasse meu cabelo, pra eu sentir um toque de cuidado comigo
Hoje eu queria respirar uma brisa gelada, que me trouxesse aquela tensão do ar antes de tempestades
Hoje eu queria me arrepiar, daqueles arrepios bons que acompanham um beijo
Hoje eu queria deitar sob a grama, fechar meus olhos e sentir a imensidão do céu acima de mim
Hoje eu queria ter um sonho bonito, daqueles que fazem a gente não querer acordar
Hoje eu queria brincar com um filhote, ver toda a meiguice de quem está aprendendo a vida
Hoje eu queria sentir desejo, instintivamente, com todo o deleite e a embriaguez que ele traz
Hoje eu queria ler um poema, e poder sentir que ele é quem está me lendo
Hoje eu queria não querer nada, por estar plenamente realizada
terça-feira, 5 de maio de 2015
Cartas que nunca foram enviadas VI e última
Você me conquistou por suas não promessas.
Nunca prometeu nada, nunca se comprometeu, e nunca ninguém foi tão honesto comigo.
Ah, tantas coisas simples me conquistam...
Você não me deu afeto, não de forma direta, seu afeto vinha dos seus deslizes, incrivelmente sutis que eu amava perceber.
E por outro lado vinha escrachado em palavras e gestos tão comuns, que em teoria a gente faz pra todo mundo, mas que em sonho eram só pra mim.
Sabe o que me mata em você?
Eu não consigo te ler.
Sempre foi fácil pra mim entender as pessoas, principalmente o que elas não dizem, sempre foi fácil ler, não mentes, mas corações.
Seu coração só pode estar em outra língua.
Você nem ao menos não diz, quero dizer, está tudo sempre dito, claro, objetivo e direto. Então porque ainda cismo que li uma nesga diferente da que você disse?
Esperança? Pode ser, sou eu tipo de tola.
E aí embarquei nessa montanha russa que eu mesma criei, mesmo tendo medo de altura, e pior de tudo, embarquei sozinha.
E ela sobe quando acho que desvendei alguma coisa em você que indica que você gosta de mim, e desce vertiginosamente quando você me escracha o contrário e deixa claro que não passo de uma reles conhecida, nem no posto de amiga cheguei.
E sobe de novo quando penso que então eu devo apostar todas as fichas e deixar as coisas claras, e cai a noventa graus quando você me dá um fora indireto.
Estou vomitando sentimentos, é fato.
Acho até que eu ficaria feliz se pudesse ser só sua amiga, mas nem isso você deixa, sua vida e mente são impenetráveis, principalmente pra mim que tenho medo de tentar.
Mentira, não iria ajudar, eu só me apaixonaria mais ainda por você.
E eu tão criança e perdida, com tanto sentimento nas mãos, não sei o que fazer. Se te entrego e você o deita ao chão, meu coração vai se partir. Se não te entrego fico pra sempre nesse mar de dúvida e esperança que me sufoca.
Pensei seriamente em fugir de você então, te excluir da minha vida e te esquecer pra sempre. Gargalhei alto quando concluí o pensamento. Te esquecer é impossível.
Estou ficando cansada desse subir e descer, afastar e puxar, ter esperança e me desiludir. Estou ficando cansada de dançar sozinha.
E sou eu mesma quem não te convida pra dançar.
Como eu disse, tola.
Talvez o sentimento se desgaste e morra daqui a algum tempo, ou se transforme, ou não, eu não tenho como saber.
Por enquanto isso é só o que tenho, e já nem sei como lidar.
Nunca prometeu nada, nunca se comprometeu, e nunca ninguém foi tão honesto comigo.
Ah, tantas coisas simples me conquistam...
Você não me deu afeto, não de forma direta, seu afeto vinha dos seus deslizes, incrivelmente sutis que eu amava perceber.
E por outro lado vinha escrachado em palavras e gestos tão comuns, que em teoria a gente faz pra todo mundo, mas que em sonho eram só pra mim.
Sabe o que me mata em você?
Eu não consigo te ler.
Sempre foi fácil pra mim entender as pessoas, principalmente o que elas não dizem, sempre foi fácil ler, não mentes, mas corações.
Seu coração só pode estar em outra língua.
Você nem ao menos não diz, quero dizer, está tudo sempre dito, claro, objetivo e direto. Então porque ainda cismo que li uma nesga diferente da que você disse?
Esperança? Pode ser, sou eu tipo de tola.
E aí embarquei nessa montanha russa que eu mesma criei, mesmo tendo medo de altura, e pior de tudo, embarquei sozinha.
E ela sobe quando acho que desvendei alguma coisa em você que indica que você gosta de mim, e desce vertiginosamente quando você me escracha o contrário e deixa claro que não passo de uma reles conhecida, nem no posto de amiga cheguei.
E sobe de novo quando penso que então eu devo apostar todas as fichas e deixar as coisas claras, e cai a noventa graus quando você me dá um fora indireto.
Estou vomitando sentimentos, é fato.
Acho até que eu ficaria feliz se pudesse ser só sua amiga, mas nem isso você deixa, sua vida e mente são impenetráveis, principalmente pra mim que tenho medo de tentar.
Mentira, não iria ajudar, eu só me apaixonaria mais ainda por você.
E eu tão criança e perdida, com tanto sentimento nas mãos, não sei o que fazer. Se te entrego e você o deita ao chão, meu coração vai se partir. Se não te entrego fico pra sempre nesse mar de dúvida e esperança que me sufoca.
Pensei seriamente em fugir de você então, te excluir da minha vida e te esquecer pra sempre. Gargalhei alto quando concluí o pensamento. Te esquecer é impossível.
Estou ficando cansada desse subir e descer, afastar e puxar, ter esperança e me desiludir. Estou ficando cansada de dançar sozinha.
E sou eu mesma quem não te convida pra dançar.
Como eu disse, tola.
Talvez o sentimento se desgaste e morra daqui a algum tempo, ou se transforme, ou não, eu não tenho como saber.
Por enquanto isso é só o que tenho, e já nem sei como lidar.
segunda-feira, 4 de maio de 2015
Cartas que nunca foram enviadas V
Você é meu amor de outras vidas.
Tenho absoluta certeza, sinto com cada poro que já te amei em vidas passadas, que te amo nesta e que te amarei em tantas outras vidas futuras.
Você é uma de minhas almas gêmeas.
E no entanto, por mais que doa, só amor não basta.
Eu quis te fazer feliz, eu não menti quando te disse que não queria ser eu a quebrar seu coração. Mas acho que era inevitável, eu iria te machucar de qualquer forma.
"Qual é o peso da culpa que eu carrego nos braços
Me entorta as costas e dá um cansaço"
Meu amor nunca vai acabar, minguar ou se transformar, eu até tentei, mas é impossível te odiar.
A saudade que sinto machuca tanto, e seu cheiro, seu calor, seu corpo, sua personalidade, absolutamente tudo de você está impresso em mim, está por dentro, por fora, na mente.
Você disse que jamais me perdoaria, você disse que queria que eu sumisse da sua vida para sempre e isso dói, bem mais do que você poderia imaginar ao proferir essas tolas palavras nas quais eu acho que não acredita.
"Eu sei que fiz você chorar
E luto tanto pra esquecer"
Mas eu acreditei, e acatei.
Não vou mais te procurar, por mais que queira.
Eu tive de aceitar muitas coisas de nós dois, caramba, eu até nos vi em tantas canções e eu descobri que aceitar dói.
Mas se eu não aceitar, vai doer é em você. Então aceito, sempre fui mais forte que você, fazer o que?
Na verdade, eu tenho esperança de você no futuro, não importa quão distante ele seja.
Um dia ainda vou poder ser feliz contigo, te dar todo meu amor que há tanto represo. Nosso destino é esse, e nós sabemos.
"No fundo eu te espero em outra vida
Também não vejo outra saída
E já nem é a primeira vez
Cê sabe, eu já te conhecia"
Tenho absoluta certeza, sinto com cada poro que já te amei em vidas passadas, que te amo nesta e que te amarei em tantas outras vidas futuras.
Você é uma de minhas almas gêmeas.
E no entanto, por mais que doa, só amor não basta.
Eu quis te fazer feliz, eu não menti quando te disse que não queria ser eu a quebrar seu coração. Mas acho que era inevitável, eu iria te machucar de qualquer forma.
"Qual é o peso da culpa que eu carrego nos braços
Me entorta as costas e dá um cansaço"
Meu amor nunca vai acabar, minguar ou se transformar, eu até tentei, mas é impossível te odiar.
A saudade que sinto machuca tanto, e seu cheiro, seu calor, seu corpo, sua personalidade, absolutamente tudo de você está impresso em mim, está por dentro, por fora, na mente.
Você disse que jamais me perdoaria, você disse que queria que eu sumisse da sua vida para sempre e isso dói, bem mais do que você poderia imaginar ao proferir essas tolas palavras nas quais eu acho que não acredita.
"Eu sei que fiz você chorar
E luto tanto pra esquecer"
Mas eu acreditei, e acatei.
Não vou mais te procurar, por mais que queira.
Eu tive de aceitar muitas coisas de nós dois, caramba, eu até nos vi em tantas canções e eu descobri que aceitar dói.
Mas se eu não aceitar, vai doer é em você. Então aceito, sempre fui mais forte que você, fazer o que?
Na verdade, eu tenho esperança de você no futuro, não importa quão distante ele seja.
Um dia ainda vou poder ser feliz contigo, te dar todo meu amor que há tanto represo. Nosso destino é esse, e nós sabemos.
"No fundo eu te espero em outra vida
Também não vejo outra saída
E já nem é a primeira vez
Cê sabe, eu já te conhecia"
domingo, 3 de maio de 2015
Bons sonhos
Existem diferentes formas de pegar no sono.
A que mais gosto é aquela em que se está em repouso e relaxamento e os pensamentos, em geral doces, começam a fugir de leve e você sente que está amolecendo e penetrando no mundo dos sonhos e resiste de leve, pelo simples fato de quando deixa de resistir a entrega é ainda mais deliciosa.
A que menos gosto é aquela em que a cabeça, em turbilhão, depois do que parece ser uma verdadeira guerra, desliga de pura exaustão e você geralmente tem pesadelos ou um sono conturbado.
A que mais me assusta é essa, na qual se deita e sente como se seu corpo caísse através da cama, a cabeça ultrapassando o travesseiro e antes que se possa sentir o baque com o chão se acorda depois de invisíveis horas de sono que se acaba considerando satisfatórias.
É óbvio que aqui considero apenas a situação de se estar dormindo só em uma cama.
As formas furtivas são de alguma forma esplêndidas, não há sono mais reparador do que aquele que se tem durante uma aula ou palestra.
O sono, ao longo de um filme que se queria ver é frustrante.
E o sono, ao teu lado, depois de muito sexo é aquele que ainda almejo experimentar, mas tem ares de ser rejuvenescedor.
A que mais gosto é aquela em que se está em repouso e relaxamento e os pensamentos, em geral doces, começam a fugir de leve e você sente que está amolecendo e penetrando no mundo dos sonhos e resiste de leve, pelo simples fato de quando deixa de resistir a entrega é ainda mais deliciosa.
A que menos gosto é aquela em que a cabeça, em turbilhão, depois do que parece ser uma verdadeira guerra, desliga de pura exaustão e você geralmente tem pesadelos ou um sono conturbado.
A que mais me assusta é essa, na qual se deita e sente como se seu corpo caísse através da cama, a cabeça ultrapassando o travesseiro e antes que se possa sentir o baque com o chão se acorda depois de invisíveis horas de sono que se acaba considerando satisfatórias.
É óbvio que aqui considero apenas a situação de se estar dormindo só em uma cama.
As formas furtivas são de alguma forma esplêndidas, não há sono mais reparador do que aquele que se tem durante uma aula ou palestra.
O sono, ao longo de um filme que se queria ver é frustrante.
E o sono, ao teu lado, depois de muito sexo é aquele que ainda almejo experimentar, mas tem ares de ser rejuvenescedor.
Cartas que nunca foram enviadas IV
Confesso, você não foi amor nem paixão.
Foi pura carência.
E no entanto durou mais que os outros, e no entanto doeu tanto quanto você resolveu me apunhalar.
Foi comodidade, foi conforto, foi praticidade e interesse.
E no entanto também foi um choque de realidade.
Quando terminamos eu tive de te alertar pra esse seu orgulho tão imbecil, mas falei isso enxergando o meu.
A diferença?
Você se arrependeu, eu não.
Foi pura carência.
E no entanto durou mais que os outros, e no entanto doeu tanto quanto você resolveu me apunhalar.
Foi comodidade, foi conforto, foi praticidade e interesse.
E no entanto também foi um choque de realidade.
Quando terminamos eu tive de te alertar pra esse seu orgulho tão imbecil, mas falei isso enxergando o meu.
A diferença?
Você se arrependeu, eu não.
sábado, 2 de maio de 2015
Cartas que nunca foram enviadas III
"Como são extraordinárias as pessoas que não conhecemos bem"
Será que eu não te conhecia bem amore?
Creio que era o oposto, eu sempre fui a que melhor te conheceu.
No começo eu conhecia seus Pokémons prediletos e suas estratégias de jogo, depois conheci sua letra torta e conheci um garoto que escrevia em papel de carta, com canetas coloridas e perfumadas, não porque ele gostasse disso, mas porque sabia que a menina que as recebia adorava.
Ainda imagino você comprando os papéis de carta e as canetas.
Depois conheci sua família aos poucos, pai (óh, tínhamos problemas em comum), mãe, avó, cachorros, pássaros e o peixe.
Conheci um garoto que cuidava de mim, você me mandou todas as figurinhas BRILHANTES. Não sabe como isso foi importante para mim, as que não colei no álbum eu ainda tenho guardadas.
E aí te perdi
Porque? Você simplesmente desapareceu
Mas naquela época eu era nova demais, e tinha amigos de mais para me importar, fiquei magoada, mas fiquei com raiva e resolvi te deixar para lá.
E aí, aí eu achei tuas cartas, todas cuidadosamente guardadas e senti saudade. E escrevi. E você respondeu. Estávamos juntos de novo, nem um ano havia se passado no nosso mundo do papel.
E eu conheci o garoto bom, que caçava pessoas para ajudar na rua, que sonhava com um emprego melhor e em se formar na faculdade, que queria que a namorada estivesse mais perto, e que queria trabalhar na Disney nas férias de verão.
Seu gosto musical era totalmente diferente do meu e ainda assim trocávamos canções, strani amore, e seguíamos assim amore, você me convenceu a ir pra Disney, estávamos todos os dias na mesma estação de metro, quase a mesma hora, e nunca nos encontrávamos.
E eu conheci sua tristeza, seus medos, sua solidão sempre tão acompanhada.
"E quando eu lhe dizia: - me apaixono todo dia, é sempre a pessoa errada.
Você sorriu e disse: - gosto de você também"
E você cuidava das minhas dores de amor, e ria da minha ingenuidade. Nosso kit em comum de recorte e cole estava sempre pronto. Corações costurados, colados, presos por durex ou grampeados.
Seguíamos, lado a lado como podíamos.
-Todays Fortune: Your life will end soon
-So my life will end soon too.
-S2
E você não me respondeu mais nada a respeito disso
E alguns dias passaram, mas você estava normal
-Cuida desse seu coraçãozinho pra mim?
Como eu poderia cuidar do meu coração pra você amore? Você levou ele embora!!!
E foi assim que meu coração se foi, as dúvidas ficaram e eu aprendi a lição
"Cause I've lost loved ones in my life
Será que eu não te conhecia bem amore?
Creio que era o oposto, eu sempre fui a que melhor te conheceu.
No começo eu conhecia seus Pokémons prediletos e suas estratégias de jogo, depois conheci sua letra torta e conheci um garoto que escrevia em papel de carta, com canetas coloridas e perfumadas, não porque ele gostasse disso, mas porque sabia que a menina que as recebia adorava.
Ainda imagino você comprando os papéis de carta e as canetas.
Depois conheci sua família aos poucos, pai (óh, tínhamos problemas em comum), mãe, avó, cachorros, pássaros e o peixe.
Conheci um garoto que cuidava de mim, você me mandou todas as figurinhas BRILHANTES. Não sabe como isso foi importante para mim, as que não colei no álbum eu ainda tenho guardadas.
E aí te perdi
Porque? Você simplesmente desapareceu
Mas naquela época eu era nova demais, e tinha amigos de mais para me importar, fiquei magoada, mas fiquei com raiva e resolvi te deixar para lá.
E aí, aí eu achei tuas cartas, todas cuidadosamente guardadas e senti saudade. E escrevi. E você respondeu. Estávamos juntos de novo, nem um ano havia se passado no nosso mundo do papel.
E eu conheci o garoto bom, que caçava pessoas para ajudar na rua, que sonhava com um emprego melhor e em se formar na faculdade, que queria que a namorada estivesse mais perto, e que queria trabalhar na Disney nas férias de verão.
Seu gosto musical era totalmente diferente do meu e ainda assim trocávamos canções, strani amore, e seguíamos assim amore, você me convenceu a ir pra Disney, estávamos todos os dias na mesma estação de metro, quase a mesma hora, e nunca nos encontrávamos.
E eu conheci sua tristeza, seus medos, sua solidão sempre tão acompanhada.
"E quando eu lhe dizia: - me apaixono todo dia, é sempre a pessoa errada.
Você sorriu e disse: - gosto de você também"
E você cuidava das minhas dores de amor, e ria da minha ingenuidade. Nosso kit em comum de recorte e cole estava sempre pronto. Corações costurados, colados, presos por durex ou grampeados.
Seguíamos, lado a lado como podíamos.
-Todays Fortune: Your life will end soon
-So my life will end soon too.
-S2
E você não me respondeu mais nada a respeito disso
E alguns dias passaram, mas você estava normal
-Cuida desse seu coraçãozinho pra mim?
Como eu poderia cuidar do meu coração pra você amore? Você levou ele embora!!!
E foi assim que meu coração se foi, as dúvidas ficaram e eu aprendi a lição
"Cause I've lost loved ones in my life
Who never knew how much I loved them
Now I live with the regret
That my true feelings for them
never were revealed"
Now I live with the regret
That my true feelings for them
never were revealed"
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Certa vez
Certa vez me apaixonei por uma mulher.
Era linda, fofa, inteligente, engraçada, meiga e decidida.
Ela se achava uma verdadeira fortaleza e assim tentava se afirmar pra quem quisesse ouvir. Forte, decidida, independente, mulher livre, do tipo que intimida qualquer um.
Mas depois de um tempo de convivência e intimidade, qualquer um poderia ver que era menina insegura, carente, perdida.
Não sei qual das duas facetas mais me encantava, ou melhor, das 3, a que eu via, a que ela tentava mostrar ou a que de fato era.
Eu me perdia em seu mundo e suas personalidades.
Certa vez me confessara que tinha épocas em que se abatia, em que a mente a torturava e ela fazia de um quase tudo para não pensar.
Era avessa a drogas e álcool (tenho imensa facilidade e propensão a vícios-dizia-não posso dar chance a eles) e por isso assistia filmes, um, dois, três, quatro num dia, ou olhava redes sociais desesperadamente, esperando que aquilo a abobalhasse. Ou, em última instância, tomava um remédio importado para dormir, ela não sabia o que era, acreditava ser fitoterápico, e então dormia por 9h, 10h, 13h ou 15h. Não adiantava muito, seus pensamentos tomavam formas em seus sonhos e ela acordava completamente desgastada.
Em seus momentos mais cruéis tinhas ataques de pânico, chorava compulsivamente e mal conseguia respirar, nestes casos abusa de música, alta, em fones de ouvidos e se obrigava a cantar junto até adormecer de exaustão
Certa vez -me disse- cansada de tudo isso peguei um canivete, afiei e levei ao pulso. Cortei o direito, não fundo o suficiente, porque descobri que é difícil cortar a carne humana. Quando fui cortar o esquerdo, tremia de medo, dor, e uma espécie de arrependimento. Ganhei marcas, mas ninguém nota, as pessoas são cegas ao sofrimento alheio.
Ela me narrava tudo com um sorriso no rosto. Nunca um sorriso me doeu tanto.
Era só uma menina, ela não queria morrer, só não queira ficar sozinha. Depois de viver uma vida inteira sozinha, ela queria alguém que a ouvisse.
Ela não precisava de remédios, precisava de um colo no qual pudesse chorar suas inseguranças e seus medos, e que mesmo sem ter respostas, lhe diria que estava ali.
Ela não precisava ser forte como ela mesma julgava, precisava justamente o oposto, se mostrar genuinamente frágil.
Ouso dizer que ela precisava apenas de um amigo. Alguém que a deixasse entrar em sua vida, para que ela o deixasse entrar na dela.
Mas eu não queria ser apenas amigo, queria ser seu amante também, me apaixonei por suas fraquezas e sua força em enfrentá-las sozinha, por sua solidão e sua desesperada busca por companhia, me apaixonei por sua inteligência que sumia quando seu coração a dominava, me apaixonei por seu sorriso triste que ela não negava a ninguém.
Ela era tão densa e tão leve que eu não sabia o que poderia fazer por ela.
Mas me dominou de tal forma que eu já não sabia mais o que fazer sem ela.
Era linda, fofa, inteligente, engraçada, meiga e decidida.
Ela se achava uma verdadeira fortaleza e assim tentava se afirmar pra quem quisesse ouvir. Forte, decidida, independente, mulher livre, do tipo que intimida qualquer um.
Mas depois de um tempo de convivência e intimidade, qualquer um poderia ver que era menina insegura, carente, perdida.
Não sei qual das duas facetas mais me encantava, ou melhor, das 3, a que eu via, a que ela tentava mostrar ou a que de fato era.
Eu me perdia em seu mundo e suas personalidades.
Certa vez me confessara que tinha épocas em que se abatia, em que a mente a torturava e ela fazia de um quase tudo para não pensar.
Era avessa a drogas e álcool (tenho imensa facilidade e propensão a vícios-dizia-não posso dar chance a eles) e por isso assistia filmes, um, dois, três, quatro num dia, ou olhava redes sociais desesperadamente, esperando que aquilo a abobalhasse. Ou, em última instância, tomava um remédio importado para dormir, ela não sabia o que era, acreditava ser fitoterápico, e então dormia por 9h, 10h, 13h ou 15h. Não adiantava muito, seus pensamentos tomavam formas em seus sonhos e ela acordava completamente desgastada.
Em seus momentos mais cruéis tinhas ataques de pânico, chorava compulsivamente e mal conseguia respirar, nestes casos abusa de música, alta, em fones de ouvidos e se obrigava a cantar junto até adormecer de exaustão
Certa vez -me disse- cansada de tudo isso peguei um canivete, afiei e levei ao pulso. Cortei o direito, não fundo o suficiente, porque descobri que é difícil cortar a carne humana. Quando fui cortar o esquerdo, tremia de medo, dor, e uma espécie de arrependimento. Ganhei marcas, mas ninguém nota, as pessoas são cegas ao sofrimento alheio.
Ela me narrava tudo com um sorriso no rosto. Nunca um sorriso me doeu tanto.
Era só uma menina, ela não queria morrer, só não queira ficar sozinha. Depois de viver uma vida inteira sozinha, ela queria alguém que a ouvisse.
Ela não precisava de remédios, precisava de um colo no qual pudesse chorar suas inseguranças e seus medos, e que mesmo sem ter respostas, lhe diria que estava ali.
Ela não precisava ser forte como ela mesma julgava, precisava justamente o oposto, se mostrar genuinamente frágil.
Ouso dizer que ela precisava apenas de um amigo. Alguém que a deixasse entrar em sua vida, para que ela o deixasse entrar na dela.
Mas eu não queria ser apenas amigo, queria ser seu amante também, me apaixonei por suas fraquezas e sua força em enfrentá-las sozinha, por sua solidão e sua desesperada busca por companhia, me apaixonei por sua inteligência que sumia quando seu coração a dominava, me apaixonei por seu sorriso triste que ela não negava a ninguém.
Ela era tão densa e tão leve que eu não sabia o que poderia fazer por ela.
Mas me dominou de tal forma que eu já não sabia mais o que fazer sem ela.
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