Existem pessoas que são como Tizius, pequenas, frágeis, delicadas.
Essas pessoas nós temos vontade de proteger, de cuidar.
Elas não sobreviveriam no mundo cruel e vil, não sozinhas, então, na melhor das intenções, no intuito de zelar, nós as colocamos em gaiolas.
As grades as mantém seguras, elas ficam sempre por perto, podemos apreciar sua beleza, sua delicadeza, sua doçura, estarão sempre ali, sempre precisarão de nós.
Já outras pessoas são como harpias, são grandes, altivas, fortes e magnânimas.
Essas, se colocássemos enclausuradas morreriam. Não podemos forçá-las a estar ao nosso lado, não podemos controlar suas qualidades nem apreciar sua beleza ao nosso bel prazer, mas quando elas resolvem pousar ao nosso lado, nem que seja por um minuto, nos sentimos honrados com a graça de sua presença.
As temos na liberdade, amamos elas sem poder possuí-las.
São diferentes pessoas, tem diferentes características, marcam por diferentes qualidades.
Mas tal qual como pássaros, tenho dó de manter pessoas presas somente para ter sua beleza e doçura ao meu alcance.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
Fim
Trilha sonora para acompanhar a leitura, ou somente para criar o clima.
O amor existia, era imenso e intenso, mas não bastava.
Estavam juntos, quase sempre, e ainda assim faltava alguma coisa.
Tentavam, argumentavam, se desgastavam, se torturavam, e o calor um do outro ainda lhes era fundamental.
Foram acusações, culpas, responsabilidades e ciúmes. Impaciência permanente, idealização, expectativa, frustração.
"Eu cobro que você seja uma pessoa diferente do que você é"
"Você é egoísta"
"Eu posso viver com isso, eu posso tentar mudar"
"Nós precisamos ser parceiros, o que preciso de você é uma aliança, mas assim não dá"
"E se não for amor de verdade?"
Frases ditas, não com raiva, escutadas, não na defensiva, tudo tão calmo, no meio de um abraço quente, o último.
Lágrimas pesadas rolavam incessantemente, o coração parecia querer sair do peito, a cabeça latejava.
E se fossem almas gêmeas?
E se realmente fossem um fracasso juntos?
E se fossem ser felizes?
E se não fossem?
E se, e se, e se, e se, e se.....
"Preciso cuidar de mim mesmo, não posso ficar com alguém que ainda tem dúvidas"
Era só o que tinha, dúvidas!
Um futuro tão inimaginado pela frente, uma imensa interrogação.
Se sentia segura, se sentia sufocada, se sentia infantil, se sentia a vontade pra ser ela mesma, se sentia presa e se sentia livre.
"E o que eu faço com todo esse amor?"
Teria que descobrir sozinha.
E a sensação de perder doía, perder um amigo, perder uma amparo, perder uma amor, perder alguém que era parte de sua vida, como arrancar um membro, ou perder um órgão, era impossível se ver sem.
Era impossível ver qualquer coisa, não queria mais ouvir nada.
O estupor não passaria, e cada velho hábito ou lembrança ainda ia doer muito.
E se tiver se tornado só o hábito de ter você ao meu lado? E se eu estiver apenas com medo de ficar sozinha?
A dúvida torturava, iria torturar por muito tempo, talvez para sempre.
O fato era que ali acabava, ali seu coração deixava partir um pedaço de si, ali ela ainda desejava que não sofresse, ali ela não era incapaz de implorar que ficasse, não implorou.
Na chuva o deixou partir, apenas olhando, sempre sem saber o que fazer, mas sentindo muito bem aquela dor.
"Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava"
(Se puder sem medo)
O amor existia, era imenso e intenso, mas não bastava.
Estavam juntos, quase sempre, e ainda assim faltava alguma coisa.
Tentavam, argumentavam, se desgastavam, se torturavam, e o calor um do outro ainda lhes era fundamental.
Foram acusações, culpas, responsabilidades e ciúmes. Impaciência permanente, idealização, expectativa, frustração.
"Eu cobro que você seja uma pessoa diferente do que você é"
"Você é egoísta"
"Eu posso viver com isso, eu posso tentar mudar"
"Nós precisamos ser parceiros, o que preciso de você é uma aliança, mas assim não dá"
"E se não for amor de verdade?"
Frases ditas, não com raiva, escutadas, não na defensiva, tudo tão calmo, no meio de um abraço quente, o último.
Lágrimas pesadas rolavam incessantemente, o coração parecia querer sair do peito, a cabeça latejava.
E se fossem almas gêmeas?
E se realmente fossem um fracasso juntos?
E se fossem ser felizes?
E se não fossem?
E se, e se, e se, e se, e se.....
"Preciso cuidar de mim mesmo, não posso ficar com alguém que ainda tem dúvidas"
Era só o que tinha, dúvidas!
Um futuro tão inimaginado pela frente, uma imensa interrogação.
Se sentia segura, se sentia sufocada, se sentia infantil, se sentia a vontade pra ser ela mesma, se sentia presa e se sentia livre.
"E o que eu faço com todo esse amor?"
Teria que descobrir sozinha.
E a sensação de perder doía, perder um amigo, perder uma amparo, perder uma amor, perder alguém que era parte de sua vida, como arrancar um membro, ou perder um órgão, era impossível se ver sem.
Era impossível ver qualquer coisa, não queria mais ouvir nada.
O estupor não passaria, e cada velho hábito ou lembrança ainda ia doer muito.
E se tiver se tornado só o hábito de ter você ao meu lado? E se eu estiver apenas com medo de ficar sozinha?
A dúvida torturava, iria torturar por muito tempo, talvez para sempre.
O fato era que ali acabava, ali seu coração deixava partir um pedaço de si, ali ela ainda desejava que não sofresse, ali ela não era incapaz de implorar que ficasse, não implorou.
Na chuva o deixou partir, apenas olhando, sempre sem saber o que fazer, mas sentindo muito bem aquela dor.
"Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava"
(Se puder sem medo)
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Fronteiras do coração
Ela finalmente havia entendido. Acabava de encontrar o exato momento em que tudo acaba, e não estava feliz por isso.
Sempre se perguntava como funciona a lógica de se apaixonar e a do amor acabar, se apaixonar era fácil, fazia isso aos montes, encontrava pessoas encantadoras, conviva tempo o suficiente para se deixar envolver completamente. Ela nunca teve barreiras para o encantamento e nunca soube dizer não ao seus envolvimentos. Ainda não havia descoberto sensação mais deliciosa no mundo e não queria se privar dela.
Nem sempre desfrutava do sentimento da reciprocidade e raramente conseguia tornar carnal tudo aquilo que sentia. Para ela, que era regida pelo medo, ainda era um mundo de amores platônicos. E era tão bom assim que ela imaginava que se tivesse coragem de se entregar por completa, explodiria de tanto contentamento e prazer.
Mas depois de um tempo, intimidade, convivência, relacionamento, ela sabia que isso acabava, e não ficava triste, não era ruim, apenas diferente.
Era o carinho, o cuidado, os mimos de todos os dias, era se lembrar da música predileta e evitar aquele restaurante que ele não gostava porque o garçom era grosso.
Era a forma que ela tinha de demonstrar seu afeto, era nos detalhes, na condução do cotidiano, nas concessões que fazia de bom grado.
Mas com as brigas, descobriu ela, vinha o que de pior podia ter em um relacionamento.
Palavras tão afiadas, tão cruéis quanto possível fosse serem, atacando os erros e deslizes, escancarando os defeitos, carregadas de culpas e cobranças.
Era possível superá-las e seguir em frente, e se doar de novo, e tentar mais uma vez, mais duas, mais três, mais dez.
Qual era o limite desse tentar?
Era quando algumas dessas tão bem amoladas palavras eram maldosamente atiradas contra seu coração aberto, de forma a rachá-lo.
Não se tratava de um coração esfacelado, esmigalhado, transformado em pó. Era uma pequena rachadura, que tinha sua parcela de dor, e dava aquela estranha sensação de que alguma coisa se quebrou dentro do peito, mas não se sabe bem o que.
Mas tal rachadurinha tinha sua importância. Quando tentou se dar por completo de novo viu que não tinha como, que não encaixava, que não funcionava mais.
Então se lembrou da pequena fenda e entendeu, não funcionaria como antes mesmo, uma peça vital estava quebrada, não tinha como funcionar.
Ela acabava de presenciar o que se pode considerar a morte de um grande amor, não é que se deixe de amar, só não se consegue mais funcionar junto como o organismo que era.
Um novo amor não colaria seu coração, apenas se encaixaria nela de forma que aquele defeito não atrapalhasse o novo funcionamento.
Era tão simples, tão lógico, tão fácil de ver.
Um risco, uma fronteira, um limite, depois do qual não há mais volta, por mais que se queira voltar.
Ela entendeu com sua própria dor como funcionava a razão de um coração.
Sempre se perguntava como funciona a lógica de se apaixonar e a do amor acabar, se apaixonar era fácil, fazia isso aos montes, encontrava pessoas encantadoras, conviva tempo o suficiente para se deixar envolver completamente. Ela nunca teve barreiras para o encantamento e nunca soube dizer não ao seus envolvimentos. Ainda não havia descoberto sensação mais deliciosa no mundo e não queria se privar dela.
Nem sempre desfrutava do sentimento da reciprocidade e raramente conseguia tornar carnal tudo aquilo que sentia. Para ela, que era regida pelo medo, ainda era um mundo de amores platônicos. E era tão bom assim que ela imaginava que se tivesse coragem de se entregar por completa, explodiria de tanto contentamento e prazer.
Mas depois de um tempo, intimidade, convivência, relacionamento, ela sabia que isso acabava, e não ficava triste, não era ruim, apenas diferente.
Era o carinho, o cuidado, os mimos de todos os dias, era se lembrar da música predileta e evitar aquele restaurante que ele não gostava porque o garçom era grosso.
Era a forma que ela tinha de demonstrar seu afeto, era nos detalhes, na condução do cotidiano, nas concessões que fazia de bom grado.
Mas com as brigas, descobriu ela, vinha o que de pior podia ter em um relacionamento.
Palavras tão afiadas, tão cruéis quanto possível fosse serem, atacando os erros e deslizes, escancarando os defeitos, carregadas de culpas e cobranças.
Era possível superá-las e seguir em frente, e se doar de novo, e tentar mais uma vez, mais duas, mais três, mais dez.
Qual era o limite desse tentar?
Era quando algumas dessas tão bem amoladas palavras eram maldosamente atiradas contra seu coração aberto, de forma a rachá-lo.
Não se tratava de um coração esfacelado, esmigalhado, transformado em pó. Era uma pequena rachadura, que tinha sua parcela de dor, e dava aquela estranha sensação de que alguma coisa se quebrou dentro do peito, mas não se sabe bem o que.
Mas tal rachadurinha tinha sua importância. Quando tentou se dar por completo de novo viu que não tinha como, que não encaixava, que não funcionava mais.
Então se lembrou da pequena fenda e entendeu, não funcionaria como antes mesmo, uma peça vital estava quebrada, não tinha como funcionar.
Ela acabava de presenciar o que se pode considerar a morte de um grande amor, não é que se deixe de amar, só não se consegue mais funcionar junto como o organismo que era.
Um novo amor não colaria seu coração, apenas se encaixaria nela de forma que aquele defeito não atrapalhasse o novo funcionamento.
Era tão simples, tão lógico, tão fácil de ver.
Um risco, uma fronteira, um limite, depois do qual não há mais volta, por mais que se queira voltar.
Ela entendeu com sua própria dor como funcionava a razão de um coração.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Que máscara você usa?
Lembro-me perfeitamente bem o dia em que tive o prazer de descobrir que usava máscaras.
Um professor de literatura, revoltado com uma situação, desabafou com nossa turma na aula:
"Existem dois tipos de pessoas, as éticas, que tem seus propósitos e ideais e que são fiéis a eles até o fim, e as escrotas, que vestem a uma máscara diferente a cada situação."
Passei o restante da aula refletindo, ao meu ver, se adaptar as situações era opção mais prática, mais fácil, a mais óbvia de ser eleita, e foi então que sorri ao entender, sou escrota.
Este foi o primeiro dia em que tomei a máscara nas mãos e a pus conscientemente. Ela se adaptou perfeitamente, serviu como se fosse feita sob medida.
Desde esse dia eu fui aperfeiçoando minhas máscaras, polindo, limpando, pintando, tornando-as atrativas.
Quando saio de casa de manhã, ponho a máscara da rigidez, fico séria e até meio altiva, para que ninguém me incomode em meu trajeto. Ao chegar ao meu destino costumo trocar pela máscara da simpatia, com sorrisos falsos. Eventualmente me sirvo da máscara da doçura, quando a pessoa assim precisa, e por vezes a máscara da competência também se faz presente. Abuso da máscara de desinteresse, é uma das mais divertidas de usar, combina com os momentos descontraídos, bem como a máscara de preguiça.
As mais raras, que devem ser vestidas com parcimônia, são a máscara da paixão, e a máscara do cuidado. São frágeis e delicadas, e pior que isso, corre-se o risco de lhe grudarem na face e incorporarem na alma por breves períodos de tempo.
Existem porém aqueles momentos, em que não sei qual máscara usar, em que não encontro a adequação, aqueles momentos tão terríveis em que me exponho sem máscara alguma. São nesses momentos em que tenho medo que me olhem nos olhos, em que tenho medo que ouçam minha voz, em que tenho medo que simplesmente me vejam.
Que terrível imaginar que depois de tantos anos e tantas máscaras cuidadosamente polidas alguém ainda pode me ver de verdade.
Se isso algum dia acontecer, temo que as máscaras não caberão mais, não encaixaram, pelo menos não diante dessa pessoa, e então farei o que?
A muito tempo vesti uma máscara, talvez fosse a errada, mas foi como me conheci, e se tiver de tirá-la, se não mais me couber, não passarei de uma mentira, tão irreal e invisível à mim mesma que deixarei de existir ao mundo.
Um professor de literatura, revoltado com uma situação, desabafou com nossa turma na aula:
"Existem dois tipos de pessoas, as éticas, que tem seus propósitos e ideais e que são fiéis a eles até o fim, e as escrotas, que vestem a uma máscara diferente a cada situação."
Passei o restante da aula refletindo, ao meu ver, se adaptar as situações era opção mais prática, mais fácil, a mais óbvia de ser eleita, e foi então que sorri ao entender, sou escrota.
Este foi o primeiro dia em que tomei a máscara nas mãos e a pus conscientemente. Ela se adaptou perfeitamente, serviu como se fosse feita sob medida.
Desde esse dia eu fui aperfeiçoando minhas máscaras, polindo, limpando, pintando, tornando-as atrativas.
Quando saio de casa de manhã, ponho a máscara da rigidez, fico séria e até meio altiva, para que ninguém me incomode em meu trajeto. Ao chegar ao meu destino costumo trocar pela máscara da simpatia, com sorrisos falsos. Eventualmente me sirvo da máscara da doçura, quando a pessoa assim precisa, e por vezes a máscara da competência também se faz presente. Abuso da máscara de desinteresse, é uma das mais divertidas de usar, combina com os momentos descontraídos, bem como a máscara de preguiça.
As mais raras, que devem ser vestidas com parcimônia, são a máscara da paixão, e a máscara do cuidado. São frágeis e delicadas, e pior que isso, corre-se o risco de lhe grudarem na face e incorporarem na alma por breves períodos de tempo.
Existem porém aqueles momentos, em que não sei qual máscara usar, em que não encontro a adequação, aqueles momentos tão terríveis em que me exponho sem máscara alguma. São nesses momentos em que tenho medo que me olhem nos olhos, em que tenho medo que ouçam minha voz, em que tenho medo que simplesmente me vejam.
Que terrível imaginar que depois de tantos anos e tantas máscaras cuidadosamente polidas alguém ainda pode me ver de verdade.
Se isso algum dia acontecer, temo que as máscaras não caberão mais, não encaixaram, pelo menos não diante dessa pessoa, e então farei o que?
A muito tempo vesti uma máscara, talvez fosse a errada, mas foi como me conheci, e se tiver de tirá-la, se não mais me couber, não passarei de uma mentira, tão irreal e invisível à mim mesma que deixarei de existir ao mundo.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Reflexo
Olhou no espelho, não se reconheceu.
Desde quando havia envelhecido tanto?
Justo ela, que sempre se orgulhara de ter rosto de menina,
tinha agora no espelho um rosto duro e marcado, não de uma velha, mas de uma
mulher.
Ela não sabia dizer quando o tempo havia passado, fora
dormir menina, acordara mulher.
Soltou seu cabelo e o sentiu cair sobre as costas nuas.
Adorava essa sensação do roçar do próprio cabelo. Quando foi a última vez que
sentira isso?
As coisas que costumava fazer, a forma que tinha de pensar,
seu jeito de sorrir e até seus olhos, tudo mudara, era diferente, era outro, e
ela não reconhecia.
Aquele olhar que a encarava, não era mais doce antes?
Aqueles olhos, não vislumbravam outros sonhos?
Em que momento ela havia se perdido?
Fechou os olhos, suspirou profunda e demoradamente, mas
quando abriu os olhos ainda era aquela mulher que a encarava.
Seu corpo agora tinha muito mais marcas, o desenho parecia o
mesmo de sempre, seu quadril aumentara? Não sabia dizer.
Quem era, afinal, esta que a encarava pelo espelho? Tão
diferente em aparência e em coração da menina que ela se lembrava de ser.
Onde estava o tempo que tinha passado, correndo, na surdina,
desapercebidamente...
Onde estava o meio do caminho? O que havia acontecido aos
sonhos?
Ela não sabia, não sabia nada.
Se abraçou e assim fez aquele estranho reflexo.
Deslizou as mãos por seus braços, ao menos sua pele ainda
tinha a mesma suavidade de sempre.
Se aceitou. Sem procurar mais o que passou, aceitou ser quem
era e aceitou focar no que poderia fazer com quem era. Enfim sua alma voltou a
ter a mesma suavidade de sempre.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Vai e vem
O que lhe chamou a atenção, em primeiro lugar, foram as pernas.
Pálidas, mais brancas que o papel, e ainda assim não exibiam nem uma nesga verde de vasinhos ou qualquer marca que fosse.
Começou a reparar então na dona de tão cândidas pernas. Era pequena, esquia, tinha um jeito decidido de andar.
Camisa florida em tons de preto e vermelho, contrastando com a cor de sua pele, solta no corpo, deixava somente a vontade de vislumbrar a silhueta de seu corpo. Sainha curta, de um rosa pálido que combinava com o tom das pernas. Batom vermelho, como se tivesse acabado de comer uma maçã do amor e o mundo fosse pequeno demais perante a imensidão de seus carnudos lábios.
Usava seus óculos de sol e levava o nariz empinado, a matreira sabia o que provocava nos outros, e se orgulhava disso.
Ele, ali, feito bobo, se perdeu no vaivém daquela saia, ora saia, ora pernas, ora saia, ora pernas...
Pálidas, mais brancas que o papel, e ainda assim não exibiam nem uma nesga verde de vasinhos ou qualquer marca que fosse.
Começou a reparar então na dona de tão cândidas pernas. Era pequena, esquia, tinha um jeito decidido de andar.
Camisa florida em tons de preto e vermelho, contrastando com a cor de sua pele, solta no corpo, deixava somente a vontade de vislumbrar a silhueta de seu corpo. Sainha curta, de um rosa pálido que combinava com o tom das pernas. Batom vermelho, como se tivesse acabado de comer uma maçã do amor e o mundo fosse pequeno demais perante a imensidão de seus carnudos lábios.
Usava seus óculos de sol e levava o nariz empinado, a matreira sabia o que provocava nos outros, e se orgulhava disso.
Ele, ali, feito bobo, se perdeu no vaivém daquela saia, ora saia, ora pernas, ora saia, ora pernas...
Valsa da vida
Era um rapaz lindo!
Ela tinha essa absoluta certeza, e era o que dizia sempre que lhe perguntavam dele.
Ela nunca tinha-no visto, mas sabia que era lindo, porque o conhecia melhor do que ninguém. Era lindo por dentro.
Tinha o sorriso de quem ama abertamente, os olhos de quem sonha, a voz de quem motiva, as mãos de quem acaricia, como poderia não ser lindo?
Mas tinha um defeito, um único defeito, era frágil, assim como todas as coisas belas.
Ela percebeu, ela soube, desde o começo, mas não se importou, era uma época em que ela era frágil também.
E dançaram os dois nas valsas das alegrias e dores que eles entendiam tão bem, e que ninguém mais ouvia.
Rodopiaram por todo o salão de seus sentimentos, bailaram por cada emoção, sem saber mais se aqueles pés eram de um ou de outro. Vestido e terno, cabelos e perfumes, se misturaram e entregaram e se acharam e descobriram por toda essa dança.
Se entendiam, era fato, se completavam, incontestável, se precisavam, arduamente, incontrolavelmente, fatidicamente.
O tempo passava, e a vida pesava sobre as frágeis criaturas. Os frágeis estavam em desvantagem, estavam abafados, massacrados, desesperados.
Ela o cercava de palavras doces, carinhosas, calorosas, que davam cor a sua dança e tentava protegê-lo.
Ele quebrou.
Ela chorou.
Havia sido mais forte, querendo ou não havia sido mais forte que ele, certamente menos bela, menos pura e menos doce, mas mais forte.
Descobriu que palavras não protegem ninguém.
Mas ele a protegeu, e não foi com palavras, e muito menos sendo forte, no final da valsa, a segurou e não deixou que caísse quando a reclinou para o beijo que nunca aconteceu.
Ela aprendeu a bailar com a saudade ao som da ausência e da dor.
E quando hoje, lhe perguntam dele, ela responde que era lindo, tão lindo que o mundo não merecia conviver com sua beleza e ele se foi.
"Eu não posso dizer que te amo
Porque eu não sei o que é o amor
Tudo que eu posso te dar
São lágrimas, mágoas e dores
Tudo que posso fazer é ser só a seu lado
Tudo que quero é matar-te e poder padecer contigo
Para juntos irmos ao inferno
E sermos eternamente infelizes"
(Ele)
Ela tinha essa absoluta certeza, e era o que dizia sempre que lhe perguntavam dele.
Ela nunca tinha-no visto, mas sabia que era lindo, porque o conhecia melhor do que ninguém. Era lindo por dentro.
Tinha o sorriso de quem ama abertamente, os olhos de quem sonha, a voz de quem motiva, as mãos de quem acaricia, como poderia não ser lindo?
Mas tinha um defeito, um único defeito, era frágil, assim como todas as coisas belas.
Ela percebeu, ela soube, desde o começo, mas não se importou, era uma época em que ela era frágil também.
E dançaram os dois nas valsas das alegrias e dores que eles entendiam tão bem, e que ninguém mais ouvia.
Rodopiaram por todo o salão de seus sentimentos, bailaram por cada emoção, sem saber mais se aqueles pés eram de um ou de outro. Vestido e terno, cabelos e perfumes, se misturaram e entregaram e se acharam e descobriram por toda essa dança.
Se entendiam, era fato, se completavam, incontestável, se precisavam, arduamente, incontrolavelmente, fatidicamente.
O tempo passava, e a vida pesava sobre as frágeis criaturas. Os frágeis estavam em desvantagem, estavam abafados, massacrados, desesperados.
Ela o cercava de palavras doces, carinhosas, calorosas, que davam cor a sua dança e tentava protegê-lo.
Ele quebrou.
Ela chorou.
Havia sido mais forte, querendo ou não havia sido mais forte que ele, certamente menos bela, menos pura e menos doce, mas mais forte.
Descobriu que palavras não protegem ninguém.
Mas ele a protegeu, e não foi com palavras, e muito menos sendo forte, no final da valsa, a segurou e não deixou que caísse quando a reclinou para o beijo que nunca aconteceu.
Ela aprendeu a bailar com a saudade ao som da ausência e da dor.
E quando hoje, lhe perguntam dele, ela responde que era lindo, tão lindo que o mundo não merecia conviver com sua beleza e ele se foi.
"Eu não posso dizer que te amo
Porque eu não sei o que é o amor
Tudo que eu posso te dar
São lágrimas, mágoas e dores
Tudo que posso fazer é ser só a seu lado
Tudo que quero é matar-te e poder padecer contigo
Para juntos irmos ao inferno
E sermos eternamente infelizes"
(Ele)
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