Lembro-me perfeitamente bem o dia em que tive o prazer de descobrir que usava máscaras.
Um professor de literatura, revoltado com uma situação, desabafou com nossa turma na aula:
"Existem dois tipos de pessoas, as éticas, que tem seus propósitos e ideais e que são fiéis a eles até o fim, e as escrotas, que vestem a uma máscara diferente a cada situação."
Passei o restante da aula refletindo, ao meu ver, se adaptar as situações era opção mais prática, mais fácil, a mais óbvia de ser eleita, e foi então que sorri ao entender, sou escrota.
Este foi o primeiro dia em que tomei a máscara nas mãos e a pus conscientemente. Ela se adaptou perfeitamente, serviu como se fosse feita sob medida.
Desde esse dia eu fui aperfeiçoando minhas máscaras, polindo, limpando, pintando, tornando-as atrativas.
Quando saio de casa de manhã, ponho a máscara da rigidez, fico séria e até meio altiva, para que ninguém me incomode em meu trajeto. Ao chegar ao meu destino costumo trocar pela máscara da simpatia, com sorrisos falsos. Eventualmente me sirvo da máscara da doçura, quando a pessoa assim precisa, e por vezes a máscara da competência também se faz presente. Abuso da máscara de desinteresse, é uma das mais divertidas de usar, combina com os momentos descontraídos, bem como a máscara de preguiça.
As mais raras, que devem ser vestidas com parcimônia, são a máscara da paixão, e a máscara do cuidado. São frágeis e delicadas, e pior que isso, corre-se o risco de lhe grudarem na face e incorporarem na alma por breves períodos de tempo.
Existem porém aqueles momentos, em que não sei qual máscara usar, em que não encontro a adequação, aqueles momentos tão terríveis em que me exponho sem máscara alguma. São nesses momentos em que tenho medo que me olhem nos olhos, em que tenho medo que ouçam minha voz, em que tenho medo que simplesmente me vejam.
Que terrível imaginar que depois de tantos anos e tantas máscaras cuidadosamente polidas alguém ainda pode me ver de verdade.
Se isso algum dia acontecer, temo que as máscaras não caberão mais, não encaixaram, pelo menos não diante dessa pessoa, e então farei o que?
A muito tempo vesti uma máscara, talvez fosse a errada, mas foi como me conheci, e se tiver de tirá-la, se não mais me couber, não passarei de uma mentira, tão irreal e invisível à mim mesma que deixarei de existir ao mundo.
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