Olhou no espelho, não se reconheceu.
Desde quando havia envelhecido tanto?
Justo ela, que sempre se orgulhara de ter rosto de menina,
tinha agora no espelho um rosto duro e marcado, não de uma velha, mas de uma
mulher.
Ela não sabia dizer quando o tempo havia passado, fora
dormir menina, acordara mulher.
Soltou seu cabelo e o sentiu cair sobre as costas nuas.
Adorava essa sensação do roçar do próprio cabelo. Quando foi a última vez que
sentira isso?
As coisas que costumava fazer, a forma que tinha de pensar,
seu jeito de sorrir e até seus olhos, tudo mudara, era diferente, era outro, e
ela não reconhecia.
Aquele olhar que a encarava, não era mais doce antes?
Aqueles olhos, não vislumbravam outros sonhos?
Em que momento ela havia se perdido?
Fechou os olhos, suspirou profunda e demoradamente, mas
quando abriu os olhos ainda era aquela mulher que a encarava.
Seu corpo agora tinha muito mais marcas, o desenho parecia o
mesmo de sempre, seu quadril aumentara? Não sabia dizer.
Quem era, afinal, esta que a encarava pelo espelho? Tão
diferente em aparência e em coração da menina que ela se lembrava de ser.
Onde estava o tempo que tinha passado, correndo, na surdina,
desapercebidamente...
Onde estava o meio do caminho? O que havia acontecido aos
sonhos?
Ela não sabia, não sabia nada.
Se abraçou e assim fez aquele estranho reflexo.
Deslizou as mãos por seus braços, ao menos sua pele ainda
tinha a mesma suavidade de sempre.
Se aceitou. Sem procurar mais o que passou, aceitou ser quem
era e aceitou focar no que poderia fazer com quem era. Enfim sua alma voltou a
ter a mesma suavidade de sempre.
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