terça-feira, 18 de novembro de 2014

Reflexo

Olhou no espelho, não se reconheceu.
Desde quando havia envelhecido tanto?
Justo ela, que sempre se orgulhara de ter rosto de menina, tinha agora no espelho um rosto duro e marcado, não de uma velha, mas de uma mulher.
Ela não sabia dizer quando o tempo havia passado, fora dormir menina, acordara mulher.
Soltou seu cabelo e o sentiu cair sobre as costas nuas. Adorava essa sensação do roçar do próprio cabelo. Quando foi a última vez que sentira isso?
As coisas que costumava fazer, a forma que tinha de pensar, seu jeito de sorrir e até seus olhos, tudo mudara, era diferente, era outro, e ela não reconhecia.
Aquele olhar que a encarava, não era mais doce antes? Aqueles olhos, não vislumbravam outros sonhos?
Em que momento ela havia se perdido?
Fechou os olhos, suspirou profunda e demoradamente, mas quando abriu os olhos ainda era aquela mulher que a encarava.
Seu corpo agora tinha muito mais marcas, o desenho parecia o mesmo de sempre, seu quadril aumentara? Não sabia dizer.
Quem era, afinal, esta que a encarava pelo espelho? Tão diferente em aparência e em coração da menina que ela se lembrava de ser.
Onde estava o tempo que tinha passado, correndo, na surdina, desapercebidamente...
Onde estava o meio do caminho? O que havia acontecido aos sonhos?
Ela não sabia, não sabia nada.
Se abraçou e assim fez aquele estranho reflexo.
Deslizou as mãos por seus braços, ao menos sua pele ainda tinha a mesma suavidade de sempre.

Se aceitou. Sem procurar mais o que passou, aceitou ser quem era e aceitou focar no que poderia fazer com quem era. Enfim sua alma voltou a ter a mesma suavidade de sempre.

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