quinta-feira, 30 de abril de 2015

Saudade

Essa noite eu não consegui dormir.

Não foi nada de específico, apenas uma daquelas noites em que os pensamentos vem em altíssima velocidade e diferentes graus de importância e a gente descobre que é impossível parar de pensar, então não pára, e não dorme também.

A certa altura, já exausta e cansada, me lembrei de seus carinhos.

Aquele cafuné desleixado, bagunçando meu cabelo, como se fosse a coisa mais natural do mundo você ter meus cabelos entre seus dedos.
Sua mão no meu ombro, ou em minha cintura, leve o suficiente para não me prender, firme o suficiente para dizer um "fique aqui para sempre"

Ficávamos horas conversando assim, ou simplesmente calados, aí você me puxava, bem sutilmente, e me fazia pousar a cabeça em seu ombro.

Esse era a melhor sensação do mundo, seu cheiro inundava minhas narinas, e me deixava levemente absorta, meu cheiro favorito. O calor do seu corpo, discrepante do meu que sempre foi frio, aquecia alguma coisa dentro de mim, como se abraçasse meu coração e o confortasse.
Se você falasse alguma coisa eu ouvia sua voz por dentro, saindo do seu peito, e de certa forma era como se fôssemos um, como se estivéssemos fundidos.

E então o tempo parava, a eternidade se instava naquele delicioso instante, e era como flutuar entre o tempo e o espaço, era como estar acima de tudo, simplesmente inundada de afeto.

Ah, pensamentos podem ser muito traiçoeiros em noites insones. Certamente sentir a crueza gélida de minha cama vazia enquanto me lembro do meu lugarzinho a parte no universo não me ajudará a dormir.

Mas acho que não me importo mais com isso, já perdi tanta coisa, tão mais importante, que as horas de sono são meros detalhes.

Talvez eu encontre um afago de novo, para poder me desligar e dormir, ou talvez eu continue acordada para a realidade da vida para sempre.

Cartas que nunca foram enviadas III

Sabe, era um rolo e tanto!

Você gostava da 1, a 2 gostava de você, éramos todos amigos e no final, mesmo te amando, resolvi ficar de fora dessa ciranda.

Dava forças para você ir atrás da 1, incentivava a 2 a ir atrás de você e tudo isso me machucava, mas era o que eu tinha de fazer.

Te amei por muito tempo assim, sempre ouvindo suas dores de outro amor, sempre ouvindo as dores dela em relação ao seu amor, sempre sentindo as minhas, até que sabe, o amor virou carinho.

Um carinho tão gostoso de sentir, tão bem assentado no coração, que acho até que ficou melhor assim.

Não sei dizer se foi de fato platônico, tempos depois, se não me equivoco, você se interessou por mim. Ou será que apenas finalmente estava livre para me ver?

Isso não importa, o fato é que o amor já tinha virado carinho, e eu jamais arriscaria nossa amizade por qualquer espécie de saudosismo ou vaidade.

Serei sempre sua admiradora, uma espécie de fã, e você vai sempre poder cotar comigo porque eu te adoro muito.

Alguns amores devem mesmo ser para sempre platônicos, só assim conquistamos pessoas especiais.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Eu te amo

Você tem medo de dizer "Eu te amo"?

Eu tenho, morro de medo, mas não pelos motivos talvez imaginados.

Eu tenho medo que mal interpretem meu amor.
Quando eu digo que amo não estou dizendo que quero um relacionamento, que quero juras, fidelidades, ou seja lá o que for.

Meu "Eu te amo" significa que te adoro, admiro, quero muito que você seja feliz e adoraria poder, eventualmente, te fazer feliz, que quero entrar no teu mundo, que quero te dar um pedaço do meu.
Quero sim, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a eternidade de nosso relacionamento termine.

Eu deveria ter medo disso?

Eu amo tanto, e meu amor sempre só cresce, mas eu não posso falar, mas eu não posso demonstrar, porque eu posso de repente perder os seres amados por dizer isso.

Eu não quero te prender, nem ser exclusiva, eu nem ao menos quero que você me ame de volta (embora eu vá adorar se você amar), eu só quero a liberdade de te amar.

De repente eu me descubro em uma sociedade onde amar é tabu. E possessão é legal.
Vivo num mundo onde contratos de convivência são bem vindos, mas o amor é temido.

Eu escondo meu amor, eu amo sem falar, eu engulo essa parte minha, mas eu sonho, sonho com o dia em que eu vou poder dizer a todos o quanto os amo e o quanto quero conhecê-los melhor.

Há quem chame de poli amor, pra mim amor já é uma palavra plural.

Há quem diga que amor é um sentimento exclusivo de relacionamentos românticos, quão tolos, isso é paixão e desejo, amor você sempre sente.

Dizer "Eu te amo" não deveria ser uma coisa tão escolhida, tão comedida, tão reservada.

Essa frase deveria ser dita todos os dias, a muitas pessoas, com sinceridade.


O amor, ao meu ver, é o sentimento mais mal compreendido do mundo.

Que pena, porque é o melhor dos sentimentos!

domingo, 26 de abril de 2015

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Cartas que nunca foram enviadas I

Sabe, você se aproveitou de mim.
Eu gostava de você e você sabia disso, ficou comigo por puro interesse.
Roubou meu primeiro beijo, meu amor, meus sonhos e uma boa parte da minha alegria.
Mas tudo bem!
Você era lindo, eu era ingênua, ia acontecer, mais cedo ou mais tarde eu ia me magoar.
O que eu nunca entendi foi o porque você sempre se desculpou tanto depois.
Foi peso na consciência por ter me traído?
Foi culpa por me fazer de palhaça?
Foi arrependimento por me perder?
Você sempre foi sincero, isso eu pude ver em seus olhos. Mas eu nunca tive coragem de te perguntar.
Mesmo hoje, se seu olhar focar o meu, se você me encarar, minhas pernas vão tremer e eu vou me desnortear.
É engraçado, com você eu sempre vou ser aquela criança/mulher quase num transe, sabe, quando as mãos tremes e a cabeça fica repetindo um "haja naturalmente" de forma quase suplicante?
Enfim, por esse motivo nunca consegui conversar com você e perguntar qual o motivo de suas desculpas.
Se te serve de consolo ou acalanto, eu te desculpo. Já desculpei a tanto tempo.
É bem verdade que me magoei, mas também é verdade que foram momentos lindos, gostosos, de um mundo que era novo. Eu fui feliz.
Então, acho que fomos só adolescentes, e que foi normal. E que ninguém tem culpa.
Não vou agradecer, só vou pedir que, se algum dia me encontrar de novo, não se desculpe.

PS: Nem me fite nos olhos, eu não saberia o que fazer.

terça-feira, 21 de abril de 2015

A Sacerdotiza

João desembarcou no aeroporto da Índia meio cansado da viagem, com algumas dores no corpo mais cheio de euforia.

Quando saiu porta a fora rumo a uma aventura se deparou com uma coisa que para ele se assemelhava ao caos. Muito barulho, muita gente, andando em todos os sentidos, e as cores, fortes e vibrantes, presentes em tudo que via, agrediam seu olhar.

Chegou ao hotel com uma espécie de exaustão, em apenas 20 minutos de táxi tinha a impressão de ter visto uma outra vida inteira passar diante de seus olhos.

Pela primeira vez, desde que teve a ideia da viagem, João percebeu que talvez não fosse tudo tão mágico quanto ele imaginou.

Depois de 2 dias João sentia uma espécie de arrependimento, não conseguia entender o que as pessoas falavam, tinha dificuldade para pedir comida, não conseguia ler nada, era impossível andar nas ruas sem ser atropelado por algum carro, tuk tuk, moto, bicicleta ou pedestre, as vestes e os adornos eram excessivos, uma cultura tão discrepante.

Num mundo totalmente a parte do seu, numa realidade totalmente diferente, João começou a se questionar quanto as razões que o levaram a sair de sua cultura, de sua casa, do seu conhecido.
Aquele impulso de mudar e explorar estava agora estremecido e João tentava entender o porque abandonou de bom grado sua zona de conforto.

Por outro lado ainda era um universo a se descobrir, e João queria descobri-lo.

Entender como as pessoas evoluem e convivem em uma sociedade diferente, entender suas crenças e sua fé, sua espiritualidade.

Naquele país louco e caótico, de uma estrutura totalmente falha, as almas pareciam mais salvas, ou pelo menos menos atormentadas.

Um povo com uma espiritualidade elevada, com crenças estruturadas, não totalmente lógicas, mas sólidas o suficiente para em algumas semanas fazerem um homem refletir quanto a sua própria espiritualidade.

Não se tratava de uma religião, de budismo, de hinduísmo, se tratava apenas de saber a alma que se tem por dentro, entender o que se faz nesse mundo e o porque.

Ele percebeu que passou uma vida inteira sem saber quem quera e o que de fato queria, conquistas momentâneas ele tinha e objetivos de curto prazo também, mas nada que pudesse saciar uma vida, nada que levasse tempo o suficiente para distrair uma mente.

Sua viagem, logo de cara, lhe servira para perceber isso. Então ele decidiu que ela poderia servir de busca, e quem sabe poderia ser surpreendente.

Continua em "A Imperatriz"...

quinta-feira, 9 de abril de 2015

O Mago

Estava tudo reservado, João já sabia todas as providências que tinha que tomar e agora só faltava a parte burocrática da coisa.

Em algumas semanas João estará embarcando para Indonésia, e de lá depois de algum tempo Vietnã, Tailândia,Índia, Tanzânia, Moçambique, Madagascar...Ele não sabia quando iria voltar, nem se iria voltar.

Pela primeira vez na vida não estava ansioso com o futuro, nem preocupado com o dinheiro, ele só esperava pacientemente a hora de embarcar, de coração e mente completamente abertos, para aprender aquelas coisas que ninguém põe nos livros do colégio.

Queria aprender culturas, ver povos, entender costumes. Queria se perder no mundo para ver se assim encontraria a si mesmo.

Sempre ouviu falar de pessoas que viajaram para estes países e tiveram alguma espécie de revelação espiritual, semi atingiram o nirvana, visualizaram um ente superior ou mais do que tudo isso, finalmente se entenderam e souberam plenamente o que queriam de suas vidas.

João não tinha a menor dúvida de que era o que precisava fazer. Já havia levado seu carro a algumas concessionárias para orçar, já havia chamado corretores para avaliarem seu apartamento e já havia publicado a maioria de suas coisas em sites de venda, afinal, ele não precisaria de uma bicicleta num templo budista.

Ele estava inundado de uma excitação quase mágica, recheado da certeza de que tudo daria certo e empolgado como uma criança.

Já havia checado toda a documentação e vacinas necessárias, já havia estipulado um prazo para vender tudo o que podia, e este ato não era nenhum desapego religioso/espiritual, era apenas um sonho de algo tão maior que João não conseguia exprimir em palavras.

Desde sua infância ele não se sentia dessa forma, parecia que estava a uma noite da excursão anual do colégio, estava empolgado, energético, fascinado.

João estava pronto para encontrar seu destino, como se ele fosse uma pessoa, como se, chegando em algum ponto do caminho, eles fossem ser apresentados um ao outro, se tornariam melhores amigos e seriam inseparáveis.

-Ah, João, João, você há de ser feliz meu caro! - falava sozinho com constância agora.
-A apenas algumas horas, em algum país mágico, tudo vai acontecer e sua vida vai guinar.

João mal cabia em si de tantas esperanças, sonhos e belas ilusões de um futuro bem mais palpável do que jamais foi em sua vida.

Dois meses depois João entrava no aeroporto com os olhos brilhando mais que os sinaleiros da pista.

Estava adiantado, sabia disso, mas não se importava. Fora daquelas portas não havia mais nada pra ele, seus bens estavam todos na mala que ele puxava e seu futuro em algum lugar além continente.

Check in feito, mala despachada, algumas horas e o tão ansiado embarque.
Acomodado na poltrona de classe econômica João se sentia voando em uma nuvem, rumo ao mais alto do céu.

Continua em "A Sacerdotisa"...

quarta-feira, 8 de abril de 2015

O Louco

Naquela manhã tudo estava igual, mas havia algo no ar.

João se levantou, seguiu sua rotina matinal e depois do café da manhã, durante sua corrida, sentiu aquela onda estranha aumentar dentro dele.

Estava inquieto, estava insatisfeito, estava frustrado.

Foi para seu trabalho, para a mesmice e a burocracia de seus papéis, a cara emburrada e a grosseria de seu chefe e alguns colegas que, por mais que tentassem, sucumbiam ao peso da vida tanto quanto ele.

Durante o almoço tal sentimento se avolumara tanto em seu peito que ele mal conseguia engolir a comida.

Era o mesmo restaurante de sempre, o que ele adorava, e ainda assim estava ruim.
Tudo estava cinzento e incômodo.

João não aguentava mais as mesmas pessoas, o mesmo trabalho, a mesma vida morna.

Exatamente isso, não aguentava mais uma vida morna, nem fria o suficiente para se dizer que era ruim (afinal, ele tinha um emprego que o sustentava, casa própria, uma namorada bonita, uma família cuidadosa) mas também não era quente o suficiente para ferver o coração.
A quanto tempo ele não sentia seu coração bater mais forte? A quanto tempo não se empolgava por algo ou alguém? Aonde estavam as paixões da vida?

O telefone tocou despertando-o desse furacão de pensamentos:

-Amorzinho, você vai me levar ao cinema hoje?
-Amanda, nós já filmes em cartaz.
-Claro que não, faltou "simplesmente acontece", lembra?
-Lembro que te falei que não quero ver esse filme.
-Ah, mas eu quero tanto. Estamos combinados, você me pega depois do trabalho, mal posso esperar!

Antes que ele pudesse contestar Amanda já havia desligado e ele estava, novamente, a mercê das vontades dela.

No meio da tarde seu chefe o chamou, era uma demanda nova, exigiria a leitura de inúmeros contratos e algumas cláusulas legai, muito empenho e inúmeras horas extras.

-E então João, o que me diz? Eu poderia passar essa demanda ao André, mas seu trabalho é mais detalhado e essa é uma excelente oportunidade de crescimento para você, além de mostrar seu comprometimento com a empresa.

João se lembrou do dia em que entrou na faculdade, curso que seu pai queria que ele fizesse, se lembrou de quando se formou, tão cansado que sentia que nunca mais queria fazer nada daquilo, de todos os seus empregos até agora, de cada hora extra, de cada noite não dormida, de cada chefe rico enquanto ele continuava pobre.

-João? espero uma resposta meu caro!

Aquele sentimento já era maior que João, estava inquieto, queria algo diferente, novo, impetuoso.

-João?
-Me demito!
-Oi? o que disse?
-Me demito!
-Meu caro, não quer a nova demanda tudo bem, passo ao André, mas realmente acredito que...
-Não importa a demanda, eu não quero mais nada disso, eu me demito. Chega, estou farto dessa merda de emprego.
-Rapaz..
-Não é nada com o senhor, eu só quero fazer o que eu quero, e eu não quero mais nada disso.

Quando saiu do escritório, carregando seus livros, João estava mais aliviado. Ainda não estava bem, mas havia melhorado.

Depois de deixar suas coisas e pensar um pouco no que iria fazer agora, João foi se encontrar com Amanda.

-Você chegou cedo, então, em qual cinema vamos?
-Amanda, não vamos ao cinema.
-Ah, por favor  João, eu quero ver esse filme, já combinamos, você não vai fazer as vontades da sua namorada?
-Não
-Como assim não?
-Eu vou fazer as minhas vontades e eu não tenho mais namorada!
-O que você está insinuando João?
-Não estou insinuando, estou afirmando, chega Amanda! Você perdeu o seu boneco, eu cansei!!!
-Nada disso, eu não aceito isso, que boneco? João, você não vai fazer isso comigo!!!
-Eu acabei de fazer Amanda.

Dizendo isso João se virou e saiu andando. Por um bom tempo ainda pode ouvir os berros de Amanda, suas pragas, sua raiva. Achou patético a forma como ela não aceitava perder algo que era seu.

João estava feliz, terrivelmente feliz. Quase leve. Mas ainda tinha alguma coisa, algo que João não sabia o que era.

De noite, andando de um canto ao outro de seu apartamento ele tentava entender. Que sensação era aquela? Era como se ele tivesse que procurar algo, como se tivesse se esquecido de algo, era perturbador, era impossível ficar parado, ele tinha que fazer alguma coisa.

João sentou de frente a seu computador, pensou em usar a internet para distrair um pouco a cabeça e, em uma notícia, encontrou um caminho, algo que podia fazer.

Agora João já tinha uma ideia, e iria apostar todas as suas fichas nela.

Continua em "O Mago"...

terça-feira, 7 de abril de 2015

Cartas em jogo

Pela septuagésima oitava vez era Amanda quem estava ligando. João sabia muito bem o que ela queria, e ele estava adiando isso. Sim, adiando, porque com Amanda era impossível evitar, ela sempre conseguia o que queria.
Irritado com o toque do celular e vencido pelo cansaço ele atendeu:

-Alo - disse num tom emburrado
-Caramba João, até parece que está me evitando
-Amanda, eu
-Nada de eu coisíssima nenhuma, eu não liguei pra perguntar se você vai ou não, só pra saber a que horas te encontro - Era típico dela determinar pelos outros
-Amanda, eu não gosto dessas coisas exotéricas, não acredito, não quero passar uma noite vendo charlatões vestidos de ciganos roubarem meu dinheiro!
-Mas eu acredito, custa você respeitar minhas crenças e vontades? - Ah, o exímio poder de reverter o jogo
-Está bem Amanda, as 20h então, mas não me peça para sorrir e nem para pagar por nada
-Ah amor, você vai sorrir sim, quando as cartas revelarem nosso maravilhoso futuro juntos.
-Até de noite Amanda
-Até!

Ele estava completamente drenado, porque namorava um monstro controlador?
Não se lembrava mais do motivo de ter se apaixonado por ela, talvez nunca tivesse, mas o fato é que agora estavam juntos, e conhecendo ela, daria muito trabalho terminar. Ele não queria ter de passar por isso, era mais fácil ser arrastado a toda sorte de lugares como um boneco.

E naquela noite, as 20h, ele estava parado na porta de um pavilhão, com frio, com fome, querendo tomar um banho e curtir um filme em sua cama, esperando por aquela que não era a mulher da sua vida.

Ouvia ao longe aquela música, que não sabia dizer se era espanhola, tipo um flamenco, ou se era cigana, mas que de fato era alegre e parecia ter guizos e batidas de pé ao fundo.

Amanda chegou atrasada como de costume, com uma ansiedade que não permitiu a João nem lhe dar um boa noite. Já foi logo arrastando-no para dentro do pavilhão, fazendo-o pagar as entradas, e mergulhando-o em um mundo de cores, cheiros, música alta, e muita confusão visual e sonora.

João estava aturdido, se sentia praticamente atacado por outra cultura, e mal teve tempo de processar o forte cheiro de incenso que ardia em suas narinas já se viu sentado diante de uma mesa, com pano preto, um bolo de cartas, e uma mulher de cabelos bem negros, sorriso torto, que lhe pedia a mão esquerda.

Aquilo foi demais para ele, levantou num baque, com uma raiva incontrolável
-Amanda, eu te falei que não quero isso!!!- falou berrando, em parte pela raiva, em parte porque a música o exigia.
-Você não quer saber do nosso futuro juntos? Você não se preocupa com meus sentimentos e minhas aflições?
-Se são SEUS sentimentos e SUAS aflições faça a leitura você, eu já fiz demais em vir aqui! Vou dar uma volta.

Saiu andando sem esperar uma resposta e sem olhar para trás. Sabia que devia ter terminado, naquele momento, com a desculpa perfeita, com uma frase de efeito, uma saída triunfal. Mas se limitou a dar uma volta, sabia que quando ela o encontrasse na multidão ele ainda teria de pagar a tal leitura, ele não suportava mais aquela situação.

Estava tão imerso em tais pensamentos que não percebeu quando a moça pousou a mão em seu ombro e precisou que ela o chamasse para que ele voltasse ao lugar e ao momento em que se encontrava.

-Você está bem?
-Estou sim, obrigado, só um pouco confuso com todo esse exoterismo.
-Não gosta do oculto?
-Não acredito, só isso. E hoje em especial o acho barulhento, fedido e com cores demais.

Ela sorriu um riso largo, tinha uma boca bonita pintada de um batom vinho, que contrastava com sua pele clara e seus cabelos castanhos.

-Você pode se surpreender com o que você não entende. Tudo isso que você não acredita pode lhe proporcionar uma jornada pessoal inesquecível.

João ficou mudo, não queria mais discutir sobre isso, nem com Amanda, nem com a bela jovem desconhecida.

-Bom, você não precisa acreditar, mas porque não transforma todo esse mau humor em positividade e, já que está aqui mesmo, não transforma o barulho em música, o fedor em perfume e as cores num arco iris?

-Mas como posso fazer isso?

-Venha dançar comigo.

E antes que João pudesse responder qualquer coisa a jovem o conduziu com a maior leveza do mundo ao centro de um espaço reservado para os dançarinos e o embalou num ritmo diferente, embalando-o com o perfume de seu cabelo e o rodar de sua saia.

Dançaram por uma eternidade, João não conseguia precisar o tempo que estivera ali, estava em um torpor magnífico do qual só despertou quando a jovem sussurrou em seu ouvido:

-Tenha bons sonhos João!

De repente João se viu atirado de volta a realidade, parado, sozinho naquela pista de dança. Se sentia mais perdido do que quando chegou naquele espaço. Ouviu os berros de Amanda na beirada da pista e se dirigiu até ela.

-Por onde você esteve? Eu estava te procurando feito uma louca. Vamos, você precisa pagar a cartomante. Nosso futuro será maravilhoso, se lhe interessa saber, casaremos em um ano, e eu vou fazer uma viagem que vai mudar minha vida, teremos um cachorro e dois gatos, ah, aqui estamos, são cem reais querido, moça, desculpe a demora, eu não o encontrava.

João pagou a cartomante, e mais alguns brincos, incensos, um vestido, um livro. Já não se importava mais, estava exausto. Foi como despertar de um lindo sonho para uma terrível realidade. Na volta para casa Amanda não parava de tagarelar sobre o futuro dos dois e João sentia arrepios todo vez que ouvia "filhos", "para sempre" ou "nós".

Depois de deixar Amanda em casa e seguir para sua própria casa ele roboticamente tomou um banho e foi se deitar ignorando qualquer fome que sentia. Estava desesperado por poder dormir e tentar se refazer daquela estranha noite.

Quando estava quase pegando no sono a voz da moça de lábios cor de vinho ecoou em sua cabeça

"Tenha bons sonhos João"


E seu último pensamento, quase forçado, antes de apagar por completo foi - Como ela sabia meu nome?


Continua em "O Louco"...

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Primeiro Ato

A música suave estava tocando, o vinho, já aberto, fora meticulosamente escolhido, as cortinas abertas revelavam uma noite clara e mística.

Ela estava ansiosa, bebericava em sua taça, repassando todos os detalhes mentalmente.

Fizera o convite de forma insinuante, tomara um banho caprichado e usava seu melhor perfume, a lingerie era nova, extremamente sexy, o vinho frutado e suave era convidativo, tudo perfeito.
Ela sabia muito bem, a única coisa que faltava era ela colocar seu olhar mais pernicioso, provocativo e safado, morder de leve o canto do lábio e voilá, teria uma noite incrível.

Mas estava ansiosa, a muito tempo não usava esse olhar, a muito tempo não tinha uma noite incrível, a muito tempo não desejava um homem como desejava aquele homem.

A campainha tocou arrepiando todos os pelos de seu corpo, ela conferiu o cabelo, o batom e o sorriso e foi abrir a porta.

Ele estava lindo, simples, com aquele jeito de sempre e aquele sorriso de cafa que era parte do charme dele.

Trocaram algumas palavras, perguntas banais sobre o dia, não importa, ela não estava ouvindo mesmo. Suas mãos suavam e seu coração acelerava quando ela mirava aqueles lindos olhos, os lábios, ombros, braços...

Colocou seu olhar, serviu-lhe vinho e depois do brinde, antes de tomar o gole que lhe era devido, deu a mordidinha no canto do lábio.

Mas algum papo, tremedeira, arrepios, taquicardia e um olhar sustentado. Depois de 20 minutos já estavam se atracando no sofá, com volúpia, desejo, impulsos.

As roupas fugiam dos corpos enquanto esses rolavam para o chão.

Tanto instinto, suor, gemidos, despudores, gozos.

Uma dança dessincronizada, improvisada, apreciada. Bailarinos do prazer, contorciam seus corpos ao som rouco que fugia de suas gargantas enquanto entregavam suas almas um ao outro por uma noite apenas.

Ela pensava se deveria se declarar, pedir mais uma noite ou somente dar um tchau enquanto ele dormia. Quando acordou na manhã seguinte ela não estava mais lá. Não havia bilhete, nem café na cama, nem romance.

Só havia a certeza de que bastaria um telefonema e um olhar para que o espetáculo se repetisse.