quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Limbo

Quando abriu os olhos continuou sem enxergar.
Estava num lugar tão escuro que poderia mover sua mão rente a face que não veria nada. Era levemente úmido, o que dava uma sensação constante de arrepio e uma leve friagem.
Ficou sentada ali por um tempo que lhe pareceu a eternidade, não sabia onde estava, nem como havia ido parar lá, somente acordara para aquele nada.
Resolveu buscar por qualquer coisa naquele lugar, tinha a impressão que ao longe, próximo a linha do horizonte, havia uma erma luz, mas para onde quer que olhasse via esse tal horizonte.
Saiu caminhando, não havia nada em que tropeçar, o piso era plano, liso, sem nenhuma espécie de relevo, falha, ranhura.
Não haviam paredes, nem objetos, nem mais ninguém.
Gritou, um grito agudo, quase apavorado e ouviu apenas seu eco.
Mais uma vez e mais uma e mais uma, sempre o eco.
Começou a correr, meio trôpega no começo e cada vez mais rápido até perder o fôlego.
O nada continuava lá, como se não tivesse saído do lugar, ou pior, saíra, mas aquele lugar era infinito.
Quando duas furtivas lágrimas lhe correram dos olhos ela começou a ter no coração aquela imensa necessidade de procurar alguma coisa, não sabia o que era, mas aquela necessidade foi se tornando um desespero crescente, tinha que encontrar!!
Em meio a essa angústia continuou vagando, tateando, caminhando e até engatinhando, onde estava, ela precisava achar!
Sua respiração foi ficando mais pesada, ou era o ar que estava mais espesso? Se sentiu levemente sufocada e percebeu que havia uma leve névoa no ar.
Intensificou sua procura, respirar estava um pouco mais difícil e agora seus olhos ardiam levemente.
Foi então que ela pode ouvir, como se fosse uma canção, como se fosse uma anunciação, e aquele som lhe arrancou lágrimas fortes, quase violentas. Era o doce som de uma risada, não chegava a ser uma gargalhada, mas era um riso meigo e inocente. Ela conhecia bem esse som.
O riso da pessoa que ela deveria ter amado e cuidado mais.
Como era bom de ouvir e ao mesmo tempo tremendamente aflitivo saber que perdera aquele riso, aquela pessoa.
Agora ela sabia o que procurava, mas lhe estava tão distante, ela nem ao menos fazia ideia de como iria encontrar tal pessoa.
No passado a amara, cuidara dela, mas foi negligente, foi dura, áspera e algumas vezes desleal. Fustigou e maltratou tanto aquele pequeno ser, e nem percebeu que tinha perdido essa pessoa tão especial por um tempo.
Agora seu coração doía mais que o suportável e ela chorava convulsivamente, como pudera perdê-la? Como encontrá-la? Como ter o direito de amá-la novamente?
Ela não sabia a resposta para nenhuma dessas perguntas e chorava mais forte a cada vez que se lembrava dos momentos de desamor, de descaso e descarinho, cada vez que pensava em todos os momentos que poderiam ter sido, em como tudo poderia ser diferente, em todo um futuro que elas nunca tiveram juntas.
Sofreu pelo que foi e pelo que nunca teve a chance de ser. Um passado consumado, um futuro natimorto.
Lembrou que um dia a atacou, a chamou de feia, de burra, de inútil, a odiou!
E odiou tanto e por tanto tempo, um ódio crescente e genuíno. E agora queria apenas a oportunidade de implorar seu perdão e seu amor.
Olhos embargados pelas lágrimas, mente atordoada por tudo que se passava, ela seguiu cambaleante. Podia ter errado, mas estava disposta a concertar, podia ter odiado, mas precisava de perdão, podia ter perdido, mas queria muito encontrar e amar!

Seguiu procurando, aquele riso seria sua salvação, quando finalmente conseguisse encontrar e, enfim, amar a si mesma, estaria livre do labirinto escuro de sua alma e poderia ter novamente aquele riso nos lábios!