quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Ás poesias humanas

E que atire a primeira pedra aquela que não amou intensamente!

Quem nunca se entregou totalmente, sem calcular riscos, sem se proteger, sem nem pensar?
Quem nunca quebrou o coração e a cara por causa disso?
E depois pintou ou cortou o cabelo, usou esmalte e batom vermelho, e saiu com os cabelos ao vento tentando se convencer de que era forte o suficiente para superar isso?
E quando chegou em casa desabou no choro borrando o rímel jurando que foi um engano, a forte não era ela não, que ela é aquela que precisa de colo e cafuné?
E depois? Bom, sobreviveu a tudo isso porque era forte sim.
Seguiu com a vida, deixou o tempo passar, se apaixonou de novo e, talvez, um pouco mais protegida, se entregou mais inúmeras vezes.

Se entregar faz parte, porque amar é arte, e no palco do drama, os homens que me perdoem, mas nós mulheres fazemos a fama.
Corações remendados, maquiagens concertadas, nas lágrimas seguradas e nos riscos assumidos, quantos risos largos, saltos altos, quantos vermelhos, nas unhas, nos batons ou nos cabelos, quantos brigadeiros e bolos de chocolate conselheiros.
É a amiga, a taróloga, a avó e o cabelereiro, é a esperança, aquela que dança em nossos vestidos rodados. É a cabeça e a razão, que lutam ferozmente com nosso coração, é emoção, pura, simples, transbordante.
Os hormônios, esses demônios, as carências e inocências, os medos e arrependimentos.
Delicadas e fortes, tão frágeis e ameaçantes, detentoras de tudo e nada, senhoras de seus destinos sem saber disso, deusas submissas, escravas que dominam o mundo.
Flores de meiguice que florescem no deserto.
Amam como se suas vidas dependessem disso, e vivem, como se amar dependesse disso.


Ave, Ave, deusas pagãs, perdidas em seus afãs.



Salve, Salve, o fim de um conto, tão tempestuoso, inconstante e confuso quanto aquela que o escreveu.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Conto de fadas

Era uma vez uma princesa.
Não, não era exatamente frágil, nem precisamente indefesa. Mas era um tanto quanto inocente. Ela não sabia cantar, mas tinha um dom, que era também sua maldição. Tinha um coração que aceitava todo mundo, se apaixonava fácil, compreendia muito e confiava cegamente.
Quando essa princesa nasceu ela não foi confinada em uma torre, nem amaldiçoada, nem feita de empregada, e muito menos foi acusada de ser a mais bela. Ela só viveu, como qualquer outra pessoa, teve uma infância normal, uma adolescência rebelde, uma vida adulta meio não tão adulta assim.
Pra podermos ter história, porque sem problema não tem trama no enredo, digamos que, embora não tenha sido confinada em uma torre, a princesa foi confinada na super proteção e amor dos pais. Ah, essa sim é uma terrível prisão.
Tão segura do mundo ela cresceu que não sabia lidar com as situações difíceis da vida.
Um belo dia a nossa protagonista encontrou um príncipe quase encantado. Ela se apaixonou, porque é isso que as princesas fazem, e eles ficaram juntos.
Não, nada de bruxa, dragão, sequestro, perda de memória, eles só ficaram juntos mesmo, fácil assim. E foram felizes, não para sempre, porque seria clichê, mas até a princesa se entediar.
Afinal de contas, homem mais pomposo, sem pegada, metido a nobre e cheio de si era o príncipe. Chato, não havia palavra melhor para descrever.
A princesa, entediada, mal comida amada, e solitária, se apaixonou por um homem comum. Não, sem nenhum lobo mau com faixa de aceitação de 4 a 84, era só um homem mesmo.
A princesa se aproximou desse homem, ficaram amigos, trocaram galanteios, provocações. Tão apaixonada a princesa estava que seria capaz até mesmo de rasgar o espartilho e chutar a coroa. Quanto ao homem, não sabemos dizer, não cabe aos narradores saberem o que se passa na cabeça e coração dos personagens “secundários”.
O fato é que ficaram juntos, não se pode dizer que namoraram, porque porra, namorar uma princesa dá muito trabalho, já pensou? Tem de aprender etiqueta, se apresentar ao rei, participar de bailes, caçadas, eventos estúpidos e nobres, enfim, era mais fácil só ficar.
O fato é que a princesa foi feliz, porém, não foi para sempre, de novo. – Se quer felizes para sempre procure a Disney e não me amole.
O homem, que era conhecedor do mundo e não vivia super protegido, se cansou daquela princesa, que era até que legal, bonitinha, rica e fogosa. Mas princesa, ainda assim, chatinha depois de um tempo. Ele caiu no mundo, foi conhecer camponesas, e atravessar fronteiras.
Nossa princesinha sofreu tanto, pobrezinha. Só que não. Ela se irritou muito com o fato de ter sido trocada, ela aprendeu arco e flecha, Krav mánga, técnicas de sedução, pole dance, corte e costura e mecânica aplicada em aeronaves.
Entrou na academia, rasgou o espartilho porque era cafona, disse a seu pai que ele estava decadente, aconselhou-o a se aposentar – ele e a rainha curtem a aposentadoria nas praias do Caribe, mandam postais mensalmente – e ocupou o trono.
Se tornou rainha, soberana, imponente, piedosa e amável.
Não foi a mais linda, nem dormiu bastante, não usou sapato de cristal nem teve cabelos longos, não viveu feliz pra sempre e ainda ama aquele maldito homem. (o que será que ele tinha de tão encantador?), mas seguiu com a vida, mostrou seu valor, fez o que tinha que fazer e hoje não sabemos dizer se ficou pra titia ou não.
Moral da história: pare de procurar morais, a própria princesa não tinha moral nenhuma.

Fim.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Rosinha

Conheci uma menina, tão doce era
Não via maldade nas pessoas e estava sempre aberta
Sonhadora e romântica
Acreditou em tantos cânticos, acreditou em tanta gente, acreditou em tanta coisa
Se deu de uma maneira irreparável
Pobrezinha, não sabia que nem sempre as pessoas eram flores como ela
Descobriu a decepção, a traição, a dor
E aquela bela rosinha se despetalou
Foi então que endureceu, enrijeceu e se fortificou
Foi quando se levantou, lambeu as feridas
E ainda de peito aberto o mundo enfrentou
Coração machucado ainda amou
Gato escaldado, de cabeça na água se jogou
E vivendo sua vida sem medo

A bela rosinha espinhos criou.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Sorriso

Dois trens diferentes, parados na mesma estação.
Dois destinos, opostos talvez, dois sexos, dois seres.
Metal, vidro, borracha, espaço e mais que tudo, a vida entre eles.
Duas vidas com tudo entre elas, sem motivo nenhum para se interligarem nem por um minuto.
Mas se ligaram
Um olhar foi o começo, despretensioso, desinteressado, era mais ter um lugar para pousar os olhos do que um olhar
Mas foi notado, e correspondido, não apenas com outro olhar, mas com um riso, singelo, talvez sem graça, talvez por pura simpatia, ou porque é o que se faz quando se nota um olhar
Esse riso foi respondido com outro, meio torto, meio esquecido de como se ri
Sorriso largo foi então o que aconteceu, cheio de brilho no olhar, com alguma coisa mais do que mero passar de tempo, único e mágico, um sorriso tão lindo que arrebentou seu coração, entrou sem licença alguma e arrancou outro largo e quente sorriso em troca
Estavam então imersos em seu próprio mundo, sem distância, sem pressa, sem mais ninguém em volta, eram apenas dois sorrisos que interligavam dois corações
Os trens partiram e eles deixaram que seus sorrisos fossem lentamente deslocados até sumirem, mas naquele dia, e no outro e arrisco dizer que em mais um e depois pra sempre, sempre que olhavam para um vidro de trem, largos sorrisos se abriam pela memória de um dia terem partilhado almas.


domingo, 11 de janeiro de 2015

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Última Carta

Em primeiro lugar, quero deixar registrado que ninguém me influenciou, me forçou ou me convenceu.
Pela primeira vez na vida foi uma decisão inteiramente minha.
Eu peço desculpas por ser alguém sempre ausente. Eu me isolava, na esperança que as pessoas fossem vir atrás de mim, na carência de sentir que alguém de fato viria atrás de mim. Mas ninguém veio, eu fiquei sendo só a solitária, carente, isolada.
Peço perdão por todos os momentos em que precisaram de mim e eu não estava lá, ou estava e não fiz nada. Sabe quando você simplesmente não sabe o que fazer com as mãos ou os braços? Passei a vida sem saber o que fazer comigo.
Sinto se fui inconveniente, grudenta, chata, monótona. No final, mesmo sem ter assunto, histórias ou o que compartilhar eu só não queria estar só.
Sempre estive, levei muito tempo para entender que a solidão estava dentro de mim, e não ia passar.
Chateei muitas pessoas assim, vi muitas irem embora por causa disso, queria tê-las agarrado pelos punhos e suplicado para que ficassem, mas não quis incomodar.
Tentei ser forte, enfrentar tudo sozinha, não demonstrar, e acho que isso só me isolou mais.
Eu tentei mudar, e quando achava que estava quase lá, ou percebia que estava aceitando tudo que viesse, sem filtros, e que isso me destruía, ou aparecia alguém, com aquele certo gênio, e aquela personalidade, que só por estar no mesmo ambiente me fazia travar.
Agradeço todos os que tentaram, todos que apesar do impossível, me amaram, e principalmente aqueles que me fizeram ficar a vontade para ser eu mesma. Foram os momentos mais maravilhosos da minha vida.
Dedico a minha morte a todos os corações que quebrei. Pessoas maravilhosas, que eu, na minha incapacidade de amar, magoei.
Aos que não entenderem, é simples, tem momentos na vida em que desistimos de ser forte, qdo se tem apoio, quando se sabe quebrar a gente supera. Mas qdo se é só de alma e não se aprendeu a fraquejar, aí a gente quebra de um jeito irreversível, vira pó ao invés de caco, e não dá mais para continuar.
Sinto muitíssimo por tudo que não vivi, pelas viagens que não fiz, pelos amores que não declarei, pelos abraços que deixei de dar, os beijos que deixei de roubar, os elogios que não saíram da boca e por aquela canção que eu quis cantarolar na rua mas tive vergonha.
Que no meu epitáfio deixem gravado:

 "O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso"

E destaquem a última frase, ela representa minha vida, ou o tempo em que passei por ela.
Por fim, sinto pela bagunça, pela sujeira e pelo trabalho.
Prometo, foi a última vez.

Com amor