Era uma vez uma princesa.
Não, não era exatamente frágil, nem precisamente indefesa.
Mas era um tanto quanto inocente. Ela não sabia cantar, mas tinha um dom, que
era também sua maldição. Tinha um coração que aceitava todo mundo, se
apaixonava fácil, compreendia muito e confiava cegamente.
Quando essa princesa nasceu ela não foi confinada em uma
torre, nem amaldiçoada, nem feita de empregada, e muito menos foi acusada de
ser a mais bela. Ela só viveu, como qualquer outra pessoa, teve uma infância normal,
uma adolescência rebelde, uma vida adulta meio não tão adulta assim.
Pra podermos ter história, porque sem problema não tem trama
no enredo, digamos que, embora não tenha sido confinada em uma torre, a
princesa foi confinada na super proteção e amor dos pais. Ah, essa sim é uma terrível
prisão.
Tão segura do mundo ela cresceu que não sabia lidar com as
situações difíceis da vida.
Um belo dia a nossa protagonista encontrou um príncipe quase
encantado. Ela se apaixonou, porque é isso que as princesas fazem, e eles
ficaram juntos.
Não, nada de bruxa, dragão, sequestro, perda de memória,
eles só ficaram juntos mesmo, fácil assim. E foram felizes, não para sempre,
porque seria clichê, mas até a princesa se entediar.
Afinal de contas, homem mais pomposo, sem pegada, metido a
nobre e cheio de si era o príncipe. Chato, não havia palavra melhor para
descrever.
A princesa, entediada, mal comida amada, e solitária,
se apaixonou por um homem comum. Não, sem nenhum lobo mau com faixa de
aceitação de 4 a 84, era só um homem mesmo.
A princesa se aproximou desse homem, ficaram amigos,
trocaram galanteios, provocações. Tão apaixonada a princesa estava que seria
capaz até mesmo de rasgar o espartilho e chutar a coroa. Quanto ao homem, não
sabemos dizer, não cabe aos narradores saberem o que se passa na cabeça e
coração dos personagens “secundários”.
O fato é que ficaram juntos, não se pode dizer que
namoraram, porque porra, namorar uma princesa dá muito trabalho, já pensou? Tem
de aprender etiqueta, se apresentar ao rei, participar de bailes, caçadas,
eventos estúpidos e nobres, enfim, era mais fácil só ficar.
O fato é que a princesa foi feliz, porém, não foi para sempre,
de novo. – Se quer felizes para sempre procure a Disney e não me amole.
O homem, que era conhecedor do mundo e não vivia super
protegido, se cansou daquela princesa, que era até que legal, bonitinha, rica e
fogosa. Mas princesa, ainda assim, chatinha depois de um tempo. Ele caiu no
mundo, foi conhecer camponesas, e atravessar fronteiras.
Nossa princesinha sofreu tanto, pobrezinha. Só que não. Ela
se irritou muito com o fato de ter sido trocada, ela aprendeu arco e flecha,
Krav mánga, técnicas de sedução, pole dance, corte e costura e mecânica
aplicada em aeronaves.
Entrou na academia, rasgou o espartilho porque era cafona,
disse a seu pai que ele estava decadente, aconselhou-o a se aposentar – ele e a
rainha curtem a aposentadoria nas praias do Caribe, mandam postais mensalmente –
e ocupou o trono.
Se tornou rainha, soberana, imponente, piedosa e amável.
Não foi a mais linda, nem dormiu bastante, não usou sapato
de cristal nem teve cabelos longos, não viveu feliz pra sempre e ainda ama aquele
maldito homem. (o que será que ele tinha de tão encantador?), mas seguiu com a
vida, mostrou seu valor, fez o que tinha que fazer e hoje não sabemos dizer se
ficou pra titia ou não.
Moral da história: pare de procurar morais, a própria
princesa não tinha moral nenhuma.
Fim.
Nenhum comentário:
Postar um comentário