terça-feira, 7 de abril de 2015

Cartas em jogo

Pela septuagésima oitava vez era Amanda quem estava ligando. João sabia muito bem o que ela queria, e ele estava adiando isso. Sim, adiando, porque com Amanda era impossível evitar, ela sempre conseguia o que queria.
Irritado com o toque do celular e vencido pelo cansaço ele atendeu:

-Alo - disse num tom emburrado
-Caramba João, até parece que está me evitando
-Amanda, eu
-Nada de eu coisíssima nenhuma, eu não liguei pra perguntar se você vai ou não, só pra saber a que horas te encontro - Era típico dela determinar pelos outros
-Amanda, eu não gosto dessas coisas exotéricas, não acredito, não quero passar uma noite vendo charlatões vestidos de ciganos roubarem meu dinheiro!
-Mas eu acredito, custa você respeitar minhas crenças e vontades? - Ah, o exímio poder de reverter o jogo
-Está bem Amanda, as 20h então, mas não me peça para sorrir e nem para pagar por nada
-Ah amor, você vai sorrir sim, quando as cartas revelarem nosso maravilhoso futuro juntos.
-Até de noite Amanda
-Até!

Ele estava completamente drenado, porque namorava um monstro controlador?
Não se lembrava mais do motivo de ter se apaixonado por ela, talvez nunca tivesse, mas o fato é que agora estavam juntos, e conhecendo ela, daria muito trabalho terminar. Ele não queria ter de passar por isso, era mais fácil ser arrastado a toda sorte de lugares como um boneco.

E naquela noite, as 20h, ele estava parado na porta de um pavilhão, com frio, com fome, querendo tomar um banho e curtir um filme em sua cama, esperando por aquela que não era a mulher da sua vida.

Ouvia ao longe aquela música, que não sabia dizer se era espanhola, tipo um flamenco, ou se era cigana, mas que de fato era alegre e parecia ter guizos e batidas de pé ao fundo.

Amanda chegou atrasada como de costume, com uma ansiedade que não permitiu a João nem lhe dar um boa noite. Já foi logo arrastando-no para dentro do pavilhão, fazendo-o pagar as entradas, e mergulhando-o em um mundo de cores, cheiros, música alta, e muita confusão visual e sonora.

João estava aturdido, se sentia praticamente atacado por outra cultura, e mal teve tempo de processar o forte cheiro de incenso que ardia em suas narinas já se viu sentado diante de uma mesa, com pano preto, um bolo de cartas, e uma mulher de cabelos bem negros, sorriso torto, que lhe pedia a mão esquerda.

Aquilo foi demais para ele, levantou num baque, com uma raiva incontrolável
-Amanda, eu te falei que não quero isso!!!- falou berrando, em parte pela raiva, em parte porque a música o exigia.
-Você não quer saber do nosso futuro juntos? Você não se preocupa com meus sentimentos e minhas aflições?
-Se são SEUS sentimentos e SUAS aflições faça a leitura você, eu já fiz demais em vir aqui! Vou dar uma volta.

Saiu andando sem esperar uma resposta e sem olhar para trás. Sabia que devia ter terminado, naquele momento, com a desculpa perfeita, com uma frase de efeito, uma saída triunfal. Mas se limitou a dar uma volta, sabia que quando ela o encontrasse na multidão ele ainda teria de pagar a tal leitura, ele não suportava mais aquela situação.

Estava tão imerso em tais pensamentos que não percebeu quando a moça pousou a mão em seu ombro e precisou que ela o chamasse para que ele voltasse ao lugar e ao momento em que se encontrava.

-Você está bem?
-Estou sim, obrigado, só um pouco confuso com todo esse exoterismo.
-Não gosta do oculto?
-Não acredito, só isso. E hoje em especial o acho barulhento, fedido e com cores demais.

Ela sorriu um riso largo, tinha uma boca bonita pintada de um batom vinho, que contrastava com sua pele clara e seus cabelos castanhos.

-Você pode se surpreender com o que você não entende. Tudo isso que você não acredita pode lhe proporcionar uma jornada pessoal inesquecível.

João ficou mudo, não queria mais discutir sobre isso, nem com Amanda, nem com a bela jovem desconhecida.

-Bom, você não precisa acreditar, mas porque não transforma todo esse mau humor em positividade e, já que está aqui mesmo, não transforma o barulho em música, o fedor em perfume e as cores num arco iris?

-Mas como posso fazer isso?

-Venha dançar comigo.

E antes que João pudesse responder qualquer coisa a jovem o conduziu com a maior leveza do mundo ao centro de um espaço reservado para os dançarinos e o embalou num ritmo diferente, embalando-o com o perfume de seu cabelo e o rodar de sua saia.

Dançaram por uma eternidade, João não conseguia precisar o tempo que estivera ali, estava em um torpor magnífico do qual só despertou quando a jovem sussurrou em seu ouvido:

-Tenha bons sonhos João!

De repente João se viu atirado de volta a realidade, parado, sozinho naquela pista de dança. Se sentia mais perdido do que quando chegou naquele espaço. Ouviu os berros de Amanda na beirada da pista e se dirigiu até ela.

-Por onde você esteve? Eu estava te procurando feito uma louca. Vamos, você precisa pagar a cartomante. Nosso futuro será maravilhoso, se lhe interessa saber, casaremos em um ano, e eu vou fazer uma viagem que vai mudar minha vida, teremos um cachorro e dois gatos, ah, aqui estamos, são cem reais querido, moça, desculpe a demora, eu não o encontrava.

João pagou a cartomante, e mais alguns brincos, incensos, um vestido, um livro. Já não se importava mais, estava exausto. Foi como despertar de um lindo sonho para uma terrível realidade. Na volta para casa Amanda não parava de tagarelar sobre o futuro dos dois e João sentia arrepios todo vez que ouvia "filhos", "para sempre" ou "nós".

Depois de deixar Amanda em casa e seguir para sua própria casa ele roboticamente tomou um banho e foi se deitar ignorando qualquer fome que sentia. Estava desesperado por poder dormir e tentar se refazer daquela estranha noite.

Quando estava quase pegando no sono a voz da moça de lábios cor de vinho ecoou em sua cabeça

"Tenha bons sonhos João"


E seu último pensamento, quase forçado, antes de apagar por completo foi - Como ela sabia meu nome?


Continua em "O Louco"...

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