João se levantou, seguiu sua rotina matinal e depois do café da manhã, durante sua corrida, sentiu aquela onda estranha aumentar dentro dele.
Estava inquieto, estava insatisfeito, estava frustrado.
Foi para seu trabalho, para a mesmice e a burocracia de seus papéis, a cara emburrada e a grosseria de seu chefe e alguns colegas que, por mais que tentassem, sucumbiam ao peso da vida tanto quanto ele.
Durante o almoço tal sentimento se avolumara tanto em seu peito que ele mal conseguia engolir a comida.
Era o mesmo restaurante de sempre, o que ele adorava, e ainda assim estava ruim.
Tudo estava cinzento e incômodo.
João não aguentava mais as mesmas pessoas, o mesmo trabalho, a mesma vida morna.
Exatamente isso, não aguentava mais uma vida morna, nem fria o suficiente para se dizer que era ruim (afinal, ele tinha um emprego que o sustentava, casa própria, uma namorada bonita, uma família cuidadosa) mas também não era quente o suficiente para ferver o coração.
A quanto tempo ele não sentia seu coração bater mais forte? A quanto tempo não se empolgava por algo ou alguém? Aonde estavam as paixões da vida?
O telefone tocou despertando-o desse furacão de pensamentos:
-Amorzinho, você vai me levar ao cinema hoje?
-Amanda, nós já filmes em cartaz.
-Claro que não, faltou "simplesmente acontece", lembra?
-Lembro que te falei que não quero ver esse filme.
-Ah, mas eu quero tanto. Estamos combinados, você me pega depois do trabalho, mal posso esperar!
Antes que ele pudesse contestar Amanda já havia desligado e ele estava, novamente, a mercê das vontades dela.
No meio da tarde seu chefe o chamou, era uma demanda nova, exigiria a leitura de inúmeros contratos e algumas cláusulas legai, muito empenho e inúmeras horas extras.
-E então João, o que me diz? Eu poderia passar essa demanda ao André, mas seu trabalho é mais detalhado e essa é uma excelente oportunidade de crescimento para você, além de mostrar seu comprometimento com a empresa.
João se lembrou do dia em que entrou na faculdade, curso que seu pai queria que ele fizesse, se lembrou de quando se formou, tão cansado que sentia que nunca mais queria fazer nada daquilo, de todos os seus empregos até agora, de cada hora extra, de cada noite não dormida, de cada chefe rico enquanto ele continuava pobre.
-João? espero uma resposta meu caro!
Aquele sentimento já era maior que João, estava inquieto, queria algo diferente, novo, impetuoso.
-João?
-Me demito!
-Oi? o que disse?
-Me demito!
-Meu caro, não quer a nova demanda tudo bem, passo ao André, mas realmente acredito que...
-Não importa a demanda, eu não quero mais nada disso, eu me demito. Chega, estou farto dessa merda de emprego.
-Rapaz..
-Não é nada com o senhor, eu só quero fazer o que eu quero, e eu não quero mais nada disso.
Quando saiu do escritório, carregando seus livros, João estava mais aliviado. Ainda não estava bem, mas havia melhorado.
Depois de deixar suas coisas e pensar um pouco no que iria fazer agora, João foi se encontrar com Amanda.
-Você chegou cedo, então, em qual cinema vamos?
-Amanda, não vamos ao cinema.
-Ah, por favor João, eu quero ver esse filme, já combinamos, você não vai fazer as vontades da sua namorada?
-Não
-Como assim não?
-Eu vou fazer as minhas vontades e eu não tenho mais namorada!
-O que você está insinuando João?
-Não estou insinuando, estou afirmando, chega Amanda! Você perdeu o seu boneco, eu cansei!!!
-Nada disso, eu não aceito isso, que boneco? João, você não vai fazer isso comigo!!!
-Eu acabei de fazer Amanda.
Dizendo isso João se virou e saiu andando. Por um bom tempo ainda pode ouvir os berros de Amanda, suas pragas, sua raiva. Achou patético a forma como ela não aceitava perder algo que era seu.
João estava feliz, terrivelmente feliz. Quase leve. Mas ainda tinha alguma coisa, algo que João não sabia o que era.
De noite, andando de um canto ao outro de seu apartamento ele tentava entender. Que sensação era aquela? Era como se ele tivesse que procurar algo, como se tivesse se esquecido de algo, era perturbador, era impossível ficar parado, ele tinha que fazer alguma coisa.
João sentou de frente a seu computador, pensou em usar a internet para distrair um pouco a cabeça e, em uma notícia, encontrou um caminho, algo que podia fazer.
Agora João já tinha uma ideia, e iria apostar todas as suas fichas nela.
Continua em "O Mago"...
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