Ela finalmente havia entendido. Acabava de encontrar o exato momento em que tudo acaba, e não estava feliz por isso.
Sempre se perguntava como funciona a lógica de se apaixonar e a do amor acabar, se apaixonar era fácil, fazia isso aos montes, encontrava pessoas encantadoras, conviva tempo o suficiente para se deixar envolver completamente. Ela nunca teve barreiras para o encantamento e nunca soube dizer não ao seus envolvimentos. Ainda não havia descoberto sensação mais deliciosa no mundo e não queria se privar dela.
Nem sempre desfrutava do sentimento da reciprocidade e raramente conseguia tornar carnal tudo aquilo que sentia. Para ela, que era regida pelo medo, ainda era um mundo de amores platônicos. E era tão bom assim que ela imaginava que se tivesse coragem de se entregar por completa, explodiria de tanto contentamento e prazer.
Mas depois de um tempo, intimidade, convivência, relacionamento, ela sabia que isso acabava, e não ficava triste, não era ruim, apenas diferente.
Era o carinho, o cuidado, os mimos de todos os dias, era se lembrar da música predileta e evitar aquele restaurante que ele não gostava porque o garçom era grosso.
Era a forma que ela tinha de demonstrar seu afeto, era nos detalhes, na condução do cotidiano, nas concessões que fazia de bom grado.
Mas com as brigas, descobriu ela, vinha o que de pior podia ter em um relacionamento.
Palavras tão afiadas, tão cruéis quanto possível fosse serem, atacando os erros e deslizes, escancarando os defeitos, carregadas de culpas e cobranças.
Era possível superá-las e seguir em frente, e se doar de novo, e tentar mais uma vez, mais duas, mais três, mais dez.
Qual era o limite desse tentar?
Era quando algumas dessas tão bem amoladas palavras eram maldosamente atiradas contra seu coração aberto, de forma a rachá-lo.
Não se tratava de um coração esfacelado, esmigalhado, transformado em pó. Era uma pequena rachadura, que tinha sua parcela de dor, e dava aquela estranha sensação de que alguma coisa se quebrou dentro do peito, mas não se sabe bem o que.
Mas tal rachadurinha tinha sua importância. Quando tentou se dar por completo de novo viu que não tinha como, que não encaixava, que não funcionava mais.
Então se lembrou da pequena fenda e entendeu, não funcionaria como antes mesmo, uma peça vital estava quebrada, não tinha como funcionar.
Ela acabava de presenciar o que se pode considerar a morte de um grande amor, não é que se deixe de amar, só não se consegue mais funcionar junto como o organismo que era.
Um novo amor não colaria seu coração, apenas se encaixaria nela de forma que aquele defeito não atrapalhasse o novo funcionamento.
Era tão simples, tão lógico, tão fácil de ver.
Um risco, uma fronteira, um limite, depois do qual não há mais volta, por mais que se queira voltar.
Ela entendeu com sua própria dor como funcionava a razão de um coração.
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