terça-feira, 12 de maio de 2015

O Imperador

As águas sagradas não lhe aliviaram o peso de sua infância.

Com o vento frio na roupa molhada João se lembrou de seu pai, sempre tão austero e correto.

Se lembrou de como era reprimido quando lhe dizia que queria ser pintor, astronauta, jogador de futebol ou qualquer coisa que seu pai não considerasse uma carreira promissora.

Seu pai zelava pelo seu futuro, era verdade, se preocupava que o filho tivesse um bom emprego e assim, sem perceber, lhe assassinava os sonhos.

E aos poucos João desaprendeu a sonhar, e a ter vontade de ser qualquer coisa. Como boa criança ele tinha certeza que não poderia ser nada sem o apoio do pai, então de que lhe adiantava querer ser qualquer coisa que o pai não aprovasse?

Tinha sempre de ir bem na escola, e estudar em casa, além de fazer suas lições e algumas aulas extras.
-Vai ser culto meu filho, és inteligente, e com um bom estudo, serás grande na vida!
E assim João se lembra de uma infância mais fria, sentado, acumulando conhecimentos enquanto vislumbrava pela janela um sol bem forte num céu azul de um dia com brisa convidativa.

Seu pai lhe deu o que podia e o que não podia, era bem verdade, e as condições para estudar nunca lhe faltaram. João era grato, claro que era. Mas naquela época ele não queria isso, queria brincar, e ser criança, e só.

Sentiu falta de um passado que não teve.

Embora soubesse que seus o amavam, sentiu uma imensa falta de amor.

Parecia-lhe ter passado a vida mendigando pela aprovação e pelo amor dos pais, sentia-se agora tão indigno de afeto, de amor.

Ok, fora obediente e servil e talvez assim seus pais o tivessem amado, mas e as outras pessoas? Como João poderia lhes obedecer ou servir? Não era filho delas, então, como poderia ser amado?

-Ora João, os outros vão te amar por quem você é! - pensou.

E quem era João?

Ele sabia muito bem quem era o filho de dona Augusta e seu Pedro, mas não sabia quem era João.

Não sabia o que queria, quais suas idéias e ideais, como se expressar ou como tomar iniciativas. Não tinha instintos, não sabia amar e desejava clementemente ser amado.

Como poderia se sentir capaz de realizar qualquer coisa, se não sabia quem era?

Naquela tarde João notou que a muito tempo havia se perdido.

E não sabia exatamente como se encontrar, ou se reconstruir.

Naquela lama sagrada do Ganges, com o vento gelando seu rosto, e leves arrepios pelo corpo, ele se viu uma casca completamente oca, que até então havia vivido como um boneco de cordas, uma marionete, um Pinóquio que nunca ganhara vida e era meramente capricho de algum Gepeto.

Continua em "O Hierofante"...

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