quarta-feira, 13 de maio de 2015

O Hierofante

Um oco João vagava pelas ruas, não mais da Índia, mas agora do Nepal.

Berço de Sidarta Gautama, fazia com que ele entendesse o que leva um príncipe a abandonar sua realeza. A miséria, a dor, o sofrimento e a morte que este jovem havia visto, e que o levaram a peregrinar e eventualmente encontrar o nirvana, estavam estampados nos rostos de cada cidadão, estavam expressos em cada olhar.

Um lugar tão pobre, uma gente tão sofrida que fizeram o oco João questionar onde estava a justiça divina.

Abatido, desesperançado, e perdido interiormente, ali, no meio daquela praça, sentado no chão, ele procurou por qualquer coisa superior que pudesse explicar aquilo tudo.

Pensou em tudo que aprendeu na primeira comunhão, e que sua mãe sempre lhe dizia. Eram pecadores, mereciam o inferno na terra em que vivam. Mas aquelas pessoas não lhe pareciam ter cometido pecado maior do que viver.

Então eram meros sofredores e no dia do juízo final seriam merecedores do reino dos céus. Mas se tal reino não existisse e se tal dia nunca chegasse seriam apenas sofredores. E qual o sentido de viver meramente para sofrer?

João percebeu então que a imagem de Deus que ele tinha não era boa, nem ao menos era dele, era uma imagem vendida, pela única religião que ele conhecia, como um produto num comercial de TV.
Se você fizer isso e aquilo, se rezar e for a missa, se for um bom cristão merecerá a benevolência divina! Aproveite, somente nessa semana santa com alguns jejuns de desconto.

Isso lhe soou absolutamente ridículo. E ali, rindo sozinho, ele enxergou alguma coisa que talvez traduzisse Deus. 

Eram belíssimos olhos negros, amendoados, que o fitavam com interesse. Uma mulher, curiosa e receosa, o observava.

Ele se surpreendeu ao achá-la bonita. Como ele poderia achar aquela nepalês bonita? 

Não era loira, nem alta, sua pele não era clara nem cuidadosamente adouradada do sol, não usava maquiagem nem saltos.

E no entanto era genuinamente magnífica. E João se deu a liberdade de ter uma opinião não consumida pronta pela primeira vez na vida.

Estava farto de gente lhe dizendo o que fazer, o que achar, como agir. Percebera que, além de seus pais, foi submisso a uma sociedade com padrões porcos e mal construídos, sem base ou humanidade.

João não queria mais seguir ninguém, e se deu ao direito de sorrir pela primeira vez na vida, de verdade, ao achar aquela mulher bonita.

Para sua surpresa, ela lhe sorriu de volta.

Continua em " Os Enamorados"...

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