segunda-feira, 11 de maio de 2015

A Imperatriz

João estava levemente desnorteado, em meio a toda aquela multidão, nas margens do Ganges, se lembrava de sua mãe o educando quando criança.

Enquanto era massivamente empurrado e solavancada pelas pessoas, ainda se preocupava em pedir com licença e dizer me desculpe.

Sua mãe sempre o ensinara os bons modos, a responsabilidade, a temer a Deus e ser cortês.
Ela não deixava João se levantar da mesa a não ser que tivesse comido tudo, não aceitava quando ele dizia não porque ela, como mãe, era quem sabia o que João deveria ou não querer, poder, sentir e tudo mais.

Ele lhe era muito grato, é claro, e a amava de todo coração, mas tinha de enxergar que sua mãe, no intuito de protegê-lo, não havia deixado que experimentasse a vida, nas suas minúcias, e tivesse vontades próprias.

Cresceu para ser um bom menino, cresceu para obedecer, era o que melhor sabia fazer, e por isso conformava-se com sua vida patética, seu emprego medíocre, sua namorada dominadora e mandona.

"Sim senhora"

Ele era um ótimo robô, fiel, leal, jamais contrariava.

E se surgisse a oportunidade, qualquer que fosse, de ser livre por um instante, ele se perdia. De certa forma era por isso que se sentia tão desnorteado nessa viagem. Não sabia tomar decisões por conta própria. Isso nunca lhe fora ensinado, permitido, requisitado.

João sentia uma raiva muito grande em seu peito.

De repente viu todas as vezes com as quais não concordara com a situação, com as quais sua opinião era divergente, com as quais queria ter escolhida já que podia.

Sentia raiva de não ter tomado sua vida nas mãos nessas situações, sentia raiva de não ter se expressado, sentia raiva de não ter discordado, de não ter negado.

Sentia raiva de não poder se expressar.

Sentiu raiva de sua mãe, por quando ela não o deixou discordar do tema daquela festa, do destino de viagem nas férias, da roupa que ele iria usar.

Sentiu raiva de sua mãe que o ensinou a baixar a cabeça e obedecer.

Sentiu raiva da mulher que lhe roubou a vontade própria e a voz.

Ele sabia que não foi por mal, sabia que não era falta de amor, muito pelo contrário, era zelo em excesso, mas por um breve instante ele sentiu raiva por as coisas terem sido assim.

Era uma raiva antiga, ele percebeu, que a muito ele vinha cultivando, de tantas submissões externas quando o coração não queria. E ele nem ao menos podia explodir, não podia gritar, não podia chorar, não podia se enfurecer, porque não foi assim que sua mãe lhe ensinara.

Por uma brevidade João temeu que sua mãe lhe amasse mais se soubesse a forma como ele pensava e tudo o que ele sentia. Vislumbrou aquelas lágrimas que ele não entendia e que lhe doíam tanto, o choro daquela mãe que ele julgou ser sua responsabilidade.

Era uma mistura de dor, abandono, raiva, mágoa e contrariedade.

João mergulhou naquela poluição, em meio a tantas outras pessoas que faziam de tudo um pouco ali e esperou que as águas do Ganges pudessem lhe lavar a alma.

Continua em "O Imperador"...

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