sexta-feira, 1 de maio de 2015

Certa vez

Certa vez me apaixonei por uma mulher.

Era linda, fofa, inteligente, engraçada, meiga e decidida.

Ela se achava uma verdadeira fortaleza e assim tentava se afirmar pra quem quisesse ouvir. Forte, decidida, independente, mulher livre, do tipo que intimida qualquer um.

Mas depois de um tempo de convivência e intimidade, qualquer um poderia ver que era menina insegura, carente, perdida.

Não sei qual das duas facetas mais me encantava, ou melhor, das 3, a que eu via, a que ela tentava mostrar ou a que de fato era.
Eu me perdia em seu mundo e suas personalidades.

Certa vez me confessara que tinha épocas em que se abatia, em que a mente a torturava e ela fazia de um quase tudo para não pensar.
Era avessa a drogas e álcool (tenho imensa facilidade e propensão a vícios-dizia-não posso dar chance a eles) e por isso assistia filmes, um, dois, três, quatro num dia, ou olhava redes sociais desesperadamente, esperando que aquilo a abobalhasse. Ou, em última instância, tomava um remédio importado para dormir, ela não sabia o que era, acreditava ser fitoterápico, e então dormia por 9h, 10h, 13h ou 15h. Não adiantava muito, seus pensamentos tomavam formas em seus sonhos e ela acordava completamente desgastada.
Em seus momentos mais cruéis tinhas ataques de pânico, chorava compulsivamente e mal conseguia respirar, nestes casos abusa de música, alta, em fones de ouvidos e se obrigava a cantar junto até adormecer de exaustão

Certa vez -me disse- cansada de tudo isso peguei um canivete, afiei e levei ao pulso. Cortei o direito, não fundo o suficiente, porque descobri que é difícil cortar a carne humana. Quando fui cortar o esquerdo, tremia de medo, dor, e uma espécie de arrependimento. Ganhei marcas, mas ninguém nota, as pessoas são cegas ao sofrimento alheio.

Ela me narrava tudo com um sorriso no rosto. Nunca um sorriso me doeu tanto.

Era só uma menina, ela não queria morrer, só não queira ficar sozinha. Depois de viver uma vida inteira sozinha, ela queria alguém que a ouvisse.
Ela não precisava de remédios, precisava de um colo no qual pudesse chorar suas inseguranças e seus medos, e que mesmo sem ter respostas, lhe diria que estava ali.
Ela não precisava ser forte como ela mesma julgava, precisava justamente o oposto, se mostrar genuinamente frágil.
Ouso dizer que ela precisava apenas de um amigo. Alguém que a deixasse entrar em sua vida, para que ela o deixasse entrar na dela.

Mas eu não queria ser apenas amigo, queria ser seu amante também, me apaixonei por suas fraquezas e sua força em enfrentá-las sozinha, por sua solidão e sua desesperada busca por companhia, me apaixonei por sua inteligência que sumia quando seu coração a dominava, me apaixonei por seu sorriso triste que ela não negava a ninguém.

Ela era tão densa e tão leve que eu não sabia o que poderia fazer por ela.

Mas me dominou de tal forma que eu já não sabia mais o que fazer sem ela.


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