sexta-feira, 27 de março de 2015

Ela

Ela cresceu recebendo duas informações

1 - Mulheres tem de fazer joguinhos no amor.

Era sempre isso que sua mãe, suas tias e qualquer mulher mais velha lhe ensinava.
Regras de ouro, básicas, como:
  • ·         Não puxe assunto para não parecer fácil;
  • ·         diga que está saindo com outro, deixe ele enciumado;
  • ·         Ignore por pelo menos 3 dias depois que se virem;

E por aí vai, mas existia uma, que era o supra sumo, o mantra a ser fielmente repetido e aplicado e idolatrado

Não deixe ele saber que você gosta dele!

2 - Você não é ninguém.

Exatamente, viviam dizendo para ela, indiretamente é claro, que ela não era bonita, não era inteligente, não era legal, não era desejável, enfim, entre mídia, pessoas maldosas e pais exigentes ela aprendeu que nada nela era bom

Ela não gostava de nada disso, mas se lhe diziam, devia ser verdade.
E assim, quando conheceu ele, e se apaixonou fortemente, ela simplesmente não soube o que fazer.

De acordo com a regra de ouro, ela não podia deixar ele saber de seus sentimentos. Como diabos esperavam que ele percebesse e retribuísse seu amor se ela não podia dizer a ele que o amava?
Bom, as velhas sábias diriam "Deixe-o deslumbrado por você, mostre tudo de bom que você tem e faça com que ele se apaixone e se declare"

Até aí, seguindo um a lógica racional, tudo bem, fazia sentido. 
Mas existia um imenso porém, ela não era apaixonante.
Ela não era nada nem ninguém.

Como fazê-lo se apaixonar por ela se ela não tinha nada de bom? Não era bonita, não era legal, não era charmosa nem inteligente....

Acreditando, mesmo que inconscientemente, em tudo isso, ela percebeu que sua única opção era matar esse amor dentro do peito
E tratou de fazer isso, mas o amor era forte, e matá-lo um pouco a cada dia a desgastava.

Um belo dia ele conheceu alguém, alguém que cresceu sem saber dessas coisas que ela sabia, alguém que falou de seus sentimentos para ele, que pecado, de fato falou.
Alguém que teve seus sentimentos retribuídos e ficou com ele

Ah, pobrezinha, como ela chorou. Aquele amor mau matado dentro dela se revoltou e a maltratou bastante, doeu terrivelmente no peito.
Ela sofreu, ela odiou, ela magoou ele, chegou até a jurar que não precisava dele e que ele não era ninguém. E tudo isso só a fez sofrer muito mais.

Então ela se odiou, se odiou por não ser ninguém, se odiou por não ser boa o suficiente para ele, se odiou por odiar ele, se odiou por amar ele, se odiou por não falar para ele que o amava, se odiou por acreditar no que cresceu aprendendo, se odiou por se odiar

E por mais que ela amasse ou odiasse, isso só acontecia dentro dela, de fora a vida seguia.

Ele terminou com este alguém, ele conheceu e ficou com muitos outros alguéns, mas nunca com ela.

E ela?
E ela descobriu que amor não morre, mas mata.


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