Num desequilíbrio em cima de duas rodas fui parar em cima dela, fiquei presa e só com ajuda de minha mãe e minha avó foi que consegui sair.
Toda arranhada e sangrando um pouco, perguntei sem sentir dor alguma :
-Que planta é essa mamãe?
-É uma roseira minha filha, mas tome cuidado, ela tem espinhos, veja como você está arranhada.
Me aproximei e observei uma de suas rosas, cor de rosa claro, linda, delicada, toda dobrada.
Foi paixão!
Depois desse dia ainda caí e fiquei presa nela diversas vezes, de bicicleta, escalando a grade, ou simplesmente lhe dando um abraço.
Todos os dias dedicava um tempo a lhe apreciar, quando era dia de fazer jardim sempre me dedicava a podar-lhe os galhos mais rebeldes e tirar-lhe as flores despetaladas e as folhas mortas.
Cresci respeitando aquela senhora que insistia em me cortar ou espetar diariamente.
Um dia notei suas flores, outrora rosas, ficarem esbranquiçadas. Suas folhas, sempre de um verde tão escuro, ficarem claras e amareladas.
E eu vi minha tão preciosa paixão morrer de velhice, coisa raríssima para plantas como uma roseira.
Estava lá no dia em que foi arrancada e chorei tudo que ela merecia.
Tenho fotos, desenhos e cicatrizes que me fazem sempre lembrar dela.
Não suportei o vazio e pedi a minha mãe que plantasse outra roseira.
Ela me deixou escolher, entre tantas cores e modelos.
E pesquisando a fundo tive uma segunda paixão, chama-se Príncipe Negro, e é até hoje meu amor mais platônico.
Nunca consegui fazer com que vingasse, não importa quantas mudas tenha tentado (e não foram muitas, ela é difícil de encontrar)
Desiludida e rejeitada por este amor, fui surpreendida belo dia quando vi, naquele buraco em meu peito, uma nova roseira plantada.
Era tímida e franzina, uma criança ainda, e me cativou como toda criança faz.
Demorou muito a florir e requereu cuidados e atenção especiais
Depois de sua adolescência virou uma louca desvairada, revelou-se uma roseira-trepadeira, e chegou até o teto da casa!
Floresce em qualquer estação do ano, com suas rosas pink tão forte que chega a ser um misto de vinho. Pétalas dobradas e curvas, sensuais e descaradas.
Me espetou tanto quanto a outra, mas com bem menos delicadeza, e sempre se mostrou rainha soberana.
Hoje a rainha é destronada, no auge de sua juventude, por ultrapassar limites que nenhuma outra jamais ousou.
Hoje acabou seu reinado por sua ousadia.
Não mais irei me espetar, me cortar nem me machucar nela, não mais terei seu perfume, suas flores, e sua maestria em contornar os obstáculos.
Hoje, desde aquela queda, não mais terei uma roseira em minha vida.
Àquelas duas, tão diferentes em altivez e estilo, tão distintas e ainda assim tão apreciáveis, meu muitíssimo obrigada por me ensinar a ter rosa alma!
Nenhum comentário:
Postar um comentário